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Após 'Aniquilação', Jeff VanderMeer volta com thriller ecológico

Autor é conhecido por aventuras com protagonistas femininas enfrentando as degradações entrópicas da biosfera, em meio a cascatas de incidentes surreais

Paul Di Filippo, Especial para The Washington Post

16 de abril de 2021 | 10h00

Depois do sucesso de sua trilogia Comando Sul (que inclui o romance Aniquilação, adaptado para as telas por Alex Garland), a coisa mais fácil para Jeff VanderMeer seria continuar na mesma linha: aventuras assustadoras, meio Lynch, meio Tarkovski, com uma pitada de Arquivo-X, ambientadas em paisagens selvagens contemporâneas. Em vez disso, ele escreveu Borne, uma história futurística de desastre urbano pós-colapso, e logo depois The Strange Bird, Dead Astronauts e o romance juvenil A Peculiar Peril.

Havia alguns pontos em comum entre as diferentes ofertas para o público adulto: acima de tudo, protagonistas femininas enfrentando as degradações entrópicas da biosfera, em meio a cascatas de incidentes surreais. Mas os diferentes locais, modos e ambientes narrativos de cada sequência só comprovavam a insistência de VanderMeer em vestir seus mesmos temas e obsessões com novas roupagens.

Agora, deste autor ousado e em constante mudança vem Hummingbird Salamander [algo como “Beija-flor salamandra”] um volume mais naturalista, mais parecido com um thriller tradicional do que seus antecessores, mas que também apresenta ganchos para o romance literário de conspiração paranoica, um gênero melhor exemplificado por O Leilão do Lote 49, de Thomas Pynchon. Na verdade, “Jane Smith”, nossa heroína corajosa e francamente aterrorizante, talvez seja a Oedipa Maas de que o século 21 precisa.

O livro se passa naquele reino familiar categorizado como “dez segundos no futuro”. Os drones de entrega estão finalmente funcionando, mas, em termos de tecnologia e política, nada mudou muito em relação a 2021. O que é diferente é que a ladeira escorregadia para o total desastre planetário está ainda mais lubrificada. “Incêndios florestais em cinco países obrigaram os animais a rastejar para a beira das estradas e implorar água às pessoas que passam nos carros em alta velocidade (...). Navio de cruzeiro tomado por refugiados do clima é rejeitado em mais um porto. Lixo no Atlântico retardou a Corrente do Golfo a nível crítico”. Todos os pecados da humanidade estão cobrando seu preço.

Mas, em meio a esse caos cada vez mais acelerado, a vida, pelo menos nos países ricos, continua tendo uma aparência de bons tempos para quem consegue enterrar a cabeça na areia. E assim nossa narradora, sob o cognome secreto “Jane Smith”, mantém um emprego bem remunerado como analista de segurança, sondando os sistemas defensivos de clientes corporativos em busca de fraquezas. Ela tem um marido amoroso e uma filha adolescente irascível, mas afetuosa. No entanto, há um monstro no centro dessa vida ostensivamente rosada – e ele se assoma na forma de uma obrigação pesada, porém sedutora.

Certo dia, na sua lanchonete preferida, Jane recebe um envelope com um bilhete e uma chave. Isso a leva a uma caixa dentro de uma unidade de armazenamento. Na caixa se encontra um beija-flor empalhado – de uma espécie que não deveria existir. O que tudo isso significa?

O intelecto aguçado e o treinamento profissional de Jane assumem o controle, e ela começa a descobrir pistas. Fica sabendo que o beija-flor veio de Silvina Vilcapampa, eco terrorista, utópica, aspirante a protetora do planeta, descendente de um pai bilionário e sociopata. A companheira do pássaro, uma salamandra igualmente misteriosa, continua foragida. 

Juntos, os dois detêm a chave para algum avanço tecnológico revolucionário que pode socorrer o globo doente. Silvina confiou a Jane a tarefa de levar adiante seu legado enigmático. (Por que Jane? A resposta é, em última análise, previsível e chocante). A tarefa, no entanto, exige que Jane abra mão de toda segurança, proteção e respeitabilidade, abandonando – até mesmo traindo – família, amigos e colegas de trabalho e mergulhando numa competição mortal entre o velho Vilcapampa, seu rival Langer e um agente chamado Hellbender.

A história de VanderMeer é um sucesso maravilhoso em muitos níveis. O primeiro é a criação de Jane e sua voz narrativa. Com mais de 1,80 m de altura, proporcionalmente volumosa e campeã de luta livre no ensino médio, Jane sempre foi uma estaca redonda num buraco quadrado. Sua alienação e estranhamento diante da sociedade – agravados pela morte de seu irmão ainda criança, nas mãos de um avô abusivo, e reprimidos por um longo tempo, só precisam de um mínimo toque de Silvina para vir à tona e explodir. 

Uma vez jogada para fora dos trilhos da conformidade, Jane vira um cataclismo ambulante. Suas observações e descrições perspicazes tecem uma atmosfera de apocalipse implacável desde a primeira página. No entanto, suas emoções também são ignoradas e, no fim, ela se torna a definição de um “monstro esperançoso”, termo derivado apropriadamente das ciências da evolução que descreve a ponte entre os estágios de uma espécie.

As sequências de ação e a complicada busca por vários MacGuffins – etapas em direção ao MacGuffin maior – são feitas com maestria, com cenários cinematográficos, interlúdios noir e vilões horripilantes. VanderMeer não negligencia os aspectos simbólicos dos eventos, como na passagem em que Jane tem que se abrigar, ironicamente, num monte de peles de animais:

“No momento em que a porta se abriu e Langer e seu amigo entraram no depósito, eu estava bem escondida, me encolhendo e tremendo ao toque de tanta textura desconhecida. Penas e peles achatadas e sufocadas contra meus braços, pernas e rosto. Olhos mortos e brilhantes que eu não conseguia ver na escuridão. Bicos pontiagudos raspando em mim. Cascos e patas nas direções erradas, contra minhas costas (...). Eu estava em algum tipo de inferno que apertava minha pele, não sabia dizer onde acabava meu corpo e começava outro. Estava encharcada do meu próprio suor, deslisando no escorregadio, tremendo, tentando não vomitar”.

Por último, o livro se aprofunda em temas de culpabilidade moral individual por pecados coletivos.

Dá para imaginar Lars von Trier filmando a dantesca descida de Jane e sua redenção conflituosa, dando-nos uma odisseia do século 21 pela efêmera alma do planeta.

 

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