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Após 'O Conto da Aia', outro clássico de Margaret Atwood vira série

'Vulgo Grace' conta a história de uma empregada doméstica condenada à prisão perpétua por assassinato

The Economist, O Estado de S.Paulo

25 Novembro 2017 | 16h00

Nesta semana, a Suprema Corte dos Estados Unidos deu sinal verde para a execução de Vernon Madison, um homem de 67 anos condenado no Alabama pelo assassinato de um policial há três décadas. Madison sofreu derrames e não se lembra mais do crime. Os médicos o diagnosticaram com demência e amnésia, mas os nove juízes do Supremo decidiram que o fato de uma pessoa ter perdido a coerência não a livra da execução pelo Estado. À luz desse caso, vale assistir à nova minissérie da Netflix Vulgo Grace, que também discute como memória e culpa podem se sobrepor.

Grace Marks (interpretada por Sarah Gandon) é uma empregada doméstica irlandesa que foi condenada à prisão perpétua. O dr. Simon Jordan (Edward Holcroft), um pioneiro da psiquiatria, é encarregado de analisar o caso. Como Grace alega não se lembrar do crime de que é atribuído, Jordan passa as manhãs procurando no subconsciente da acusada indícios de uma amnésia periódica. Numa clara metáfora visual, Grace vai dando sua versão enquanto costura edredons quase sem olhar para o trabalho. À medida que ela se contradiz, Jordan vai ficando cada vez mais fascinado pela jovem, chegando a ignorar o distanciamento profissional.

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Adaptada do aclamado romance homônimo de Margaret Atwood, a série Vulgo Grace é baseada no assassinato real de Thomas Kinnear e sua governanta, Nancy Montgomery, em 1843, no Alto Canadá, hoje sul da Província de Ontário. Dois empregados de Kinnear foram condenados pelo crime: o cavalariço James McDermontt, que foi enforcado, e Grace Marks, que recebeu uma controversa sentença de prisão perpétua. Passados 15 anos do crime, ninguém conseguiu comprovar a sinceridade de Grace, o dr. Jordan – um acréscimo ficcional à história – recusou-se a dar o atestado médico que permitiria à condenada alegar insanidade temporária e receber o perdão. 

Fica sugerido que o trauma, e também algo mais intangível e sobrenatural, seriam os responsáveis pelos lapsos de memória de Grace. Antes dos assassinatos, Mary, amiga de Grace e empregada em outra casa, fora seduzida pelo filho mais velho do patrão. Ela fez um aborto clandestino e sangrou até a morte. Em seus devaneios, Grace acredita ouvir a voz de Mary vinda do quarto em que estava o cadáver e corre a abrir a janela para que a alma da amiga possa partir. A voz de Mary, a suposta falha de Grace em salvar a amiga e a imagem da janela fechada voltam repetidamente à mente de Grace, que deixa de ser a mesma pessoa. É uma abordagem nova ao estanque imaginário gótico.

Com flashbacks desses eventos e de cenas do assassinato e outras, a narrativa vai sendo aos poucos costurada. Após quase 30 anos de prisão, Grace é solta e se casa. Ela aparece costurando uma colcha, descontraída e feliz, e tudo parece estar bem. Mas Atwood contraria o clichê. Em lugar de um desfecho certinho, a incapacidade de Grace – e, consequentemente, a do espectador – de estabelecer uma sequência linear de eventos persegue a narrativa. “Se fôssemos julgados por causa de nossos pensamentos, seríamos todos enforcados”, diz ela, confessando que pensou em cometer os assassinatos, mas deixando em aberto se cometeu ou não.

A minissérie é uma adaptação poderosa, com o roteiro de Sarah Polley preservando a ambiguidade do romance de Atwood. Como muitas das obras da escritora, Vulgo Grace é uma narrativa interiorizada, sustentada pela voz em off de Grace (como ocorre na série ganhadora do Emmy O Conto da Aia com a voz de Offred). Grace pode não ser uma narradora confiável, mas as nuances da voz de Sarah Gadon completam com precisão sua narrativa, mesmo quando dão corpo à natureza volátil da verdade.

Na série, dirigida por Mary Harron (de Psicopata Americano), a fotografia desnuda recantos sombrios de cozinhas e adegas vitorianas. Repleta de subtons góticos, a história tem momentos de puro horror – como quando umas das vítimas despenca da escada da adega e o baque do corpo no chão de pedra é seguido pelo estalar de um pescoço quebrando. A linguagem visual se harmoniza com o clima.

Incerteza e dúvida são elementos essenciais em qualquer drama, mas em Vulgo Grace o relativismo é aprofundado. Grace, a “famosa assassina”, desarma e assusta ao confrontar a verdade. A dúvida sobre sua culpa ou inocência quase perde a importância quando os insondáveis recessos da mente se contrapõem à clareza da letra da lei. Tradução de Roberto Muniz 

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