Aprisionados pela língua

O fato: um terço das crianças brasileiras tem sobrepeso ou sofrem de obesidade. Outro fato: a obesidade é a base das grandes pandemias modernas.

Estela Renner, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2013 | 02h15

O colesterol alto, a hipertensão, o diabetes tipo 2 e o câncer de colo eram consideradas doenças de adultos, mas hoje é comum ver uma criança de nove anos obesa, diabética e com problemas de locomoção.

A obesidade tem causa multifatorial e não há uma solução única.

Tenho três filhos e entendo que pais são responsáveis pela compra de produtos e alimentação de seus filhos. Mas a obesidade ganhou, nos últimos 20 anos, dimensões epidêmicas, sobre as quais os pais estão quase tão desamparados quanto seus filhos. Produzi e dirigi o documentário "Muito Além do Peso" (disponível de graça na internet em www.muitoalemdopeso.com.br), onde descobri, dentre outras coisas, que a criança obesa é o sintoma de um ambiente obeso.

Fazendo um apanhado das mais de 250 pessoas que entrevistamos para o filme (dentre eles, médicos, nutricionistas, educadores e psicólogos), concluí que a complexidade do tratamento da obesidade envolve a reeducação de todos os membros da família que dividem a mesma geladeira da casa, a mudança do sistema que rege as escolas, baseado em embutidos e enlatados (e também suas cantinas), a melhoria da composição dos alimentos que são vendidos como saudáveis, o aperfeiçoamento da comunicação visual dos rótulos, a ampliação da área recreativa de parques e pátios de escolas, pais colocarem limites nos seus filhos, o aprimoramento do sistema educacional - pois a criança passa em média três horas na escola e cinco horas em frente a TV - e, por fim, a proibição da publicidade dirigida às crianças.

Durante a produção do filme, ouvi Leonardo, Yan, Alexandre, Rebeca, Natalie, Camila, Leandro, Nicolas, Carol e muitas outras crianças. Todas se esforçando (muito) para perder peso. A mãe de Carol, Patrícia, disse: "Eu era gerente de produtos de internet (em uma rede fast-food), mas resolvi sair quando eles ganharam a causa de poderem continuar associando brindes com hamburguer. Eu me sentia trabalhando para o tráfico de drogas, tendo uma viciada em casa. Eu me sentia assim".

Não sou contra a publicidade. Muito pelo contrário, estudei na ESPM e já dirigi dezenas de filmes publicitários. Mas tenho uma posição clara: publicidade dirigida à criança não deveria existir. Não sou contra o sexo, sou contra a pedofilia.

Outro fator que vale destaque: em seus estudos sobre a obesidade, o professor Carlos Monteiro aponta os perigos dos alimentos ultrapalatáveis. São alimentos ricos em gordura, sal e açúcar, que condicionam o nosso paladar desde a idade mais tenra. O que me levou a outra percepção: a de que estamos vivendo em uma cadeia alimentar, onde a injeção dos alimentos ultraprocessados desequilibraram toda a nossa relação com a comida. Eles tiraram o espaço do alimento in natura e nos deixaram doentes. Não me surpreende mais as crianças não saberem o que é um mamão ou nem lembrarem quando foi a última vez que comeram uma manga.

É o tal do aprisionamento do consumidor pela língua. Se há solução a longo prazo? Sim. Mas, entre outras ações, a indústria alimentícia teria de rever suas composições babilônicas de gordura, açúcar e sal. Contudo, ela só fará isso se o consumidor exigir.

Existe uma verdade que só a indústria dá o verdadeiro valor: ninguém é mais poderoso do que o consumidor. A indústria faz absolutamente de tudo para conquistá-lo. Na hora que o consumidor perceber que quando ele compra algo ele está votando no presente e no futuro do seu filho, ele vai entender que tem a força para fazer com que a indústria alimentícia se modifique.

Estela Renner é roteirista, diretora de cinema e sócia da Marinha Farinha Filmes

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