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Argentino Pedro Mairal mistura ficção e realidade em 'A Uruguaia'

Livro conta a história de um escritor como ele, mas que confessa à mulher sua paixão por uma jovem idealizada

João Prata, O Estado de S.Paulo

04 Agosto 2018 | 16h00

A Uruguaia é o mais recente romance do argentino Pedro Mairal, 47 anos. O livro teve a primeira edição em 2016 e, desde então, começou a se espalhar pelo mundo. Primeiro pelos países de língua espanhola, claro. No ano passado, recebeu o prêmio Tigre Juan, na Espanha. O mexicano Juan Pablo Villalobos contou: “não chegou a passar uma noite na minha cabeceira”. Depois foi traduzido para o italiano, holandês e francês. “Um hino à liberdade”, escreveu o jornal Le Monde.

Esses elogios todos podem ser lidos também na contracapa e na orelha da edição brasileira recém-publicada pela Todavia. E dá para acrescentar muitos outros com uma rápida pesquisa no Google. A que me chamou mais a atenção foi de uma emissora argentina, que mostra a atenção que nossos vizinhos dão à literatura. O programa é desses de entretenimento transmitido por um canal popular. Uma bancada em cores vivas, três apresentadores excessivamente animados dão as notícias do dia. Então, uma colunista de literatura é chamada para compor a mesa e passa a contar sobre A Uruguaia.

O trio faz caras e bocas ao tomar nota dos acontecimentos, tal e qual as atrações brasileiras nesse formato, mas ali a exaltação é para um livro de ficção. Fosse uma história verídica, também poderia surgir de maneira sensacionalista com letras garrafais em um GC por aqui: “Escritor decadente vai atrás de jovem uruguaia e escreve carta para a esposa contando a traição”. Mas isso seria apenas o que passa bem na superfície de A Uruguaia. 

A carta de confissão de Lucas Pereyra para a esposa é também a descrição do dia que mudou a vida desse escritor quarentão, sem grana e no final de um relacionamento amoroso. Mairal faz o tempo passar em câmera lenta e conduz a narrativa sem pressa em uma viagem de Buenos Aires a Montevidéu. O protagonista precisa atravessar o Rio da Prata para buscar dólares na tentativa de burlar o Fisco e garantir uns meses a mais sem dívidas. E aproveita essa travessia para se encontrar com a jovem e bela uruguaia Magalí Guerra Zabala.

O autor esmiúça a vida de Lucas da maneira que nem o mais aclamado programa de fofoca brasileiro conseguiria fazer. Em entrevista ao Aliás, Mairal diz que a intenção dele foi colocar “uma lente de aumento nos detalhes inconfessáveis da pessoa”, como por exemplo no momento em que compara as atitudes do filho Maiko ao de um anão bêbado: “Fica emotivo, chora, você não entende o que ele está falando, depois precisa interromper o que ele fala, é obrigado a carregá-lo no colo porque ele se recusa a andar, provoca uma confusão no restaurante, joga coisas, grita, dorme em qualquer lugar, você leva para casa, dá um banho, ele cai, faz um galo na cabeça, empurra os móveis, adormece, vomita às quatro da manhã.”

Mairal acredita que talvez por isso tenha conseguido cair na graça de um público tão diversificado. “Não é fazendo uma linha grossa que necessariamente você será amplo e geral e fará com que todos se sintam identificados, mas ao contrário: ir tão ao individual de uma pessoa, que isso se torna quase um DNA humano”, emendou. Enquanto observa a mudança na paisagem, Pereyra repara no comportamento humano, segue ansioso ao país vizinho e, em doses homeopáticas, conta a Catalina a vida triste em que se meteram juntos. “Meu personagem vive o confronto entre uma garota idealizada e a garota real, e entre uma Montevidéu idealizada e a verdadeira. Esse contraste é sempre quixotesco, alguém vê gigantes quando na realidade existem moinhos de vento”, disse. 

 

Ao narrar em primeira pessoa a vida de um escritor na faixa dos 40, casado e com um filho, como ele, não tem como não nos deixar curiosos para saber o que ali é real e o que é ficção. “Lucas Pereyra sou eu em 53%. Não digo isso tão brincando. Usei muitas coisas minhas para o personagem. Quando percebi que, se o fizesse, tinha que me envolver com intimidade, isso me dava um pouco de vertigem, mas era a única maneira de acertar”, disse. “Quanto mais me esforço para me livrar do personagem, mais fico preso. As pessoas o leem de maneira muito literal, como se o romance fosse autobiográfico. Mas eu construo um Frankenstein entre experiência e imaginação. E parte da minha tarefa nunca é esclarecer o que eu inventei e realmente aconteceu comigo”, acrescenta.

Pedro Mairal no cinema

Ainda sem data de lançamento, A Uruguaia será adaptada para o cinema pelo próprio autor e pelo também argentino Hernán Casciari, com codireção de Diego Peretti e participação do músico uruguaio Jorge Drexler. “Ele gostou muito do romance e vai fazer uma música para o filme”, revelou. Não será a primeira obra do escritor – que tem mais de uma dezena de livros, entre romance, conto e poesia – adaptada para o cinema. Sua estreia, Uma Noite com Sabrina Love (1998), uma comédia dramática, também ganhou as telas em uma coprodução entre Argentina, França, Itália e Holanda. 

Além do filme, Mairal está prestes a publicar um livro de poesias, o Pornosonetos: “sonetos eróticos, meio pornô, um pouco mais poético”, explica. E também está se arriscando na música. Ele tem um dueto de guitarra e voz, com Rafael Otegui. “Por enquanto tocamos duas vezes ao vivo. É um novo caminho para mim”, finalizou.

Influência do Brasil para Pedro Mairal

 Mairal também descobriu a cultura brasileira inicialmente pela música. “Fiquei sempre impressionado com os grandes letristas que têm, por exemplo, Chico Buarque, que também é um grande escritor – estou lendo seu romance Leite Derramado”, disse.

A música levou o autor a desbravar a literatura e encontrar Guimarães Rosa, que serviu de inspiração para compor o protagonista de A Uruguaia. Em certo momento, Lucas Pereyra diz que tem planos de escrever uma obra que se passa no Brasil.

“Haveria momentos em portunhol e muito jogo de palavras, muita pólvora verbal... ia ser meu Ulysses, meu Grande Sertão, meu romance total”, escreve.

Por conta da literatura, o escritor conheceu São Paulo, Rio, Bahia e Belo Horizonte. Em relação à literatura brasileira, ele destacou uns nomes que descobriu graças a Bogotá39, encontro ocorrido na Colômbia em 2007 e que reuniu algumas revelações do mundo literário com menos de 40 anos.

“Lá conheci autores que gosto de ler como Adriana Lisboa, João Paulo Cuenca. Também já li Marcelino Freire e poetas como Douglas Diegues e Joca Terrón”, informou. 

Um panorama da literatura latino-americana

A Uruguaia coloca de vez Pedro Mairal como um dos grandes nomes dessa nova geração de escritores latino-americanos. Junto com os compatriotas Selva Amada (45), Patricio Pron (42) e Mariana Enriques (45), além do mexicano Juan Pablo Villalobos (45) e do chileno Alejandro Zambra (42), essa turma aponta uma novo cenário para a literatura de língua espanhola. Responsável por editar A Uruguaia pela Todavia, Leandro Sarmatz fez uma breve análise sobre esse momento.

“Acho que, até pelo fato de a grande geração do boom estar saindo de cena, está ocorrendo uma passagem de bastão. Isso já está acontecendo há um tempo, mas nos últimos anos têm se cristalizado de forma mais evidente. Todos na faixa dos 40 anos, têm uma produção fecunda, extremamente original no trato da matéria literária, histórica e (em alguns casos) estética. Me parecem ter – como todo mundo que tem uma tradição forte pelas costas – necessidade de se afastar talvez de alguns dados mais óbvios ou mecânicos dos grandes nomes que vieram antes (como Borges, Llosa e até mesmo Bolaño, ele que encarnou durante anos e em quase anonimato seu “próprio boom”. Ao mesmo tempo que reafirmam a vitalidade dessa mesma tradição.

“Outro dado a ser levado em conta é que grande parte dessa nova geração nasceu pouco antes ou durante os regimes autoritários do continente, então há um movimento quase que natural em mirar os pesadelos da história recente. Isso pode aparecer de forma programática e esteticamente avançada num livro como o Espírito dos Meus Pais Continua a Subir na Chuva, do Pron, ou como um protagonista invisível mas ainda ativo como nos livros da Mariana Enriques ou numa não ficção que especula sobre a violência, caso do Garotas mortas, da Selva Almada, que narra três casos de feminicídio na Argentina.

“Me parece que essa nova geração tem algo daquela eloquência (moral, estética) que ocorre nas artes de períodos pós-guerra, dos filhos daqueles que atravessaram o pior. Isso pode ser apenas um dado marginal – e com certeza deve ser – mas também um elemento de aproximação para que possamos enxergar uma “geração”. De algum modo esses autores são como aquele grupo de diretores de cinema que emergiu na Alemanha depois dos anos 1960, como Wenders, Herzog, Fassbinder etc. São esteticamente diferentes, com projetos bem distintos, com concepções diversas acerca do que é fazer cinema, mas com um peso histórico nas costas que de uma maneira ou outra marca a produção."

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