Armaduras da mulher de ferro

Os tailleurs com ombreira da ex-primeira-ministra, atenuados por blusas de bolinhas e colares de pérolas, expressavam o feminismo possível da época

SUZY MENKES, O Estado de S.Paulo

14 Abril 2013 | 02h09

Uma mistura de admiração e temor diante do rompimento de barreiras por alguma mulher usando calças compridas ficou expressa nas palavras do presidente socialista François Mitterrand, em 1984 - durante uma discussão sobre o orçamento da Comunidade Econômica Europeia.

Mas Margaret Thatcher, que faleceu na segunda-feira aos 87 anos de idade, não usava os terninhos que mais tarde se tornaram uniforme de mulheres no poder, como Hillary Clinton e Angela Merkel. A primeira ministra britânica vestia tailleurs com ombreira, atenuados pelas blusas de bolinhas, enquanto pérolas vistosas faziam contraponto com o cabelo repleto de laquê. E usava um broche na lapela esquerda (não na direita, como Meryl Streep usou ao interpretar Thatcher no filme A Dama de Ferro).

Como a primeira líder política do Ocidente, o look de Margaret Thatcher era esmiuçado de maneira jamais vista no caso de algum político do sexo masculino antes dela. E sua aparência expressava exatamente em que pé estava o feminismo nos anos 1980.

Se as roupas pudessem falar, elas teriam revelado muita coisa sobre um encontro ocorrido em Downing Street 10, residência histórica dos primeiros ministros britânicos, com suas cortinas de veludo e móveis refinados. Num evento de moda em 1984, Thatcher, em seu tailleur cuja saia arrastava no chão, blusa com um enorme laçarote de bolinhas, encontrou-se com a estilista Katharine Hamnett, vestida como uma punk desafiadora, de tênis e uma enorme camiseta estampada com uma declaração política sobre mísseis nucleares.

Seria de se supor que Thatcher, com seu estilo avesso a pilhérias, ignorasse os comentários sobre a maneira como se vestia, especialmente os que ridicularizavam os laçarotes de bolinhas e sua eterna bolsa.

Mas ela me disse certa vez que ser incluída na Lista Internacional das Mulheres Mais Bem Vestidas em 1988 - como um exemplo influente de "elegância discreta clássica" - "foi um dos melhores momentos da minha vida". (Não ousei perguntar se as outras estariam sendo incluídas como chefes de governo, tendo dois filhos gêmeos ou vencendo a Guerra das Malvinas).

A imagem pública da primeira-ministra britânica representava exatamente a das mulheres que trabalhavam na década de 1980: sapatos de salto não muito alto e tailleurs que eram uma couraça de proteção naquele que era um mundo essencialmente masculino.

Thatcher, que exerceu suas funções de 1979 a 1990, adotou uma postura que se adequava a sua formação como filha de um comerciante de uma cidade industrial.

Ela escolhia suas roupas pelo catálogo que lhe era enviado pela loja Marks & Spencer ou na loja Aquascutum, que considerava uma marca sólida. E creditou seu prêmio de mais bem-vestida ao guarda-roupa formado por trajes da Aquascutum, tendo por base um casaco de pelo de camelo e gola de pele para sua viagem de visita a Michail Gorbachev em 1987, que superou o pretensioso guarda-roupa usado pela mulher de Gorbachev, Raíssa.

Se Thatcher fosse uma líder do século 21, teria se vestido de modo diferente, menos severo? Afinal, ela certamente parecia uma jovem típica dos anos 1950, mostrando seu lado mais feminino, quando usou vestidos com estampas florais no encontro com o presidente Ronald Reagan, e seu traje de noite foi idealizado por Tomasz Starzewski, estilita britânico-polonês que ficou famoso por ter vestido a princesa Diana.

Mas no mundo dos anos1980, em que os homens comandavam, suas roupas eram um escudo e uma afirmação do poder feminino.

Ou como ela afirmou certa vez: "Por favor não usem o termo 'dura'. As pessoas podem ter a impressão de que não me interesso por elas. E eu me interesso. Profundamente. Resistente, acho que seria um termo melhor". / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

SUZY MENKES É HISTORIADORA FORMADA PELA UNIVERSIDADE DE CAMBRIDGE, EDITORA DE , MODA DO INTERNATIONAL HERALD TRIBUNE. , ESCREVEU ESTE ARTIGO PARA O NEW YORK TIMES

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