Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

Arquitetura da Japan House mescla tradição japonesa e modernismo brasileiro

Cobogó, elemento arquitetônico característico do Brasil nos anos 1950 e 1960, dialoga com rigor e clareza nipônicos em projeto de Kengo Kuma

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

08 Abril 2017 | 16h00

Primeira obra a ocupar o espaço expositivo da Japan House, a instalação projetada pelo artista Chikunsai Tanabe dialoga com o edifício que abriga a instituição, cuja fachada, uma cortina de réguas de madeira, presta tributo a um elemento formal do modernismo arquitetônico brasileiro, o cobogó, pequeno bloco vazado de cimento usado em históricos prédios dos anos 1950 e 1960. Essa foi a proposta do arquiteto Kengo Kuma e do designer gráfico Kenya Hara, produtor da Japan House com larga experiência na exploração de materiais inovadores produzidos com alta tecnologia, o que pode ser comprovado numa visita ao interior do prédio da Paulista.

Com mais de 2.500 metros quadrados de espaço útil, um piso térreo e mais três andares, a Japan House tem uma praça interna aberta para a rua que dá acesso ao hall de entrada, a uma cafeteria, um espaço para 150 assentos, uma biblioteca com títulos dedicados à cultura japonesa e um jardim. Não há paredes fixas separando os ambientes. Eles são interligados e podem funcionar de diferentes maneiras graças a portas deslizantes (conhecidas como fusumas, na arquitetura tradicional japonesa).

A posição das portas vai indicar se é possível ou não entrar nos ambientes após iniciada a atividade, que pode ser tanto uma palestra como um workshop artístico (as salas são equipadas com pias para se adaptar a esse uso). Quando abertas, as portas deslizantes permitem a comunicação com o jardim, o hall e a cafeteria. 

A Japan House é a quintessência do pensamento arquitetônico de Kengo Kuma, arquiteto nascido em Tóquio há 53 anos e dedicado à reinterpretação da tradicional arquitetura japonesa num contexto contemporâneo – a importância da luz e da transparência fica nítida quando se considera os painéis de papel artesanal e o uso do vidro combinado com a madeira clara na Japan House, que guarda um parentesco estético com o projeto do Suntory Museum of Art de Tóquio, também assinado por Kuma.

Kuma encara sua arquitetura como uma “moldura da natureza”, uma nova construção espacial por meio da qual se pode ter algo além de uma simples experiência estética. A comunicação entre espaço externo e interno não é só um conceito arquitetônico, mas existencial em sua concepção – o que explica a ausência de paredes divisórias na Japan House.

No primeiro andar serão realizados seminários, conferências ou debates, em ambientes que podem comportar até 100 participantes. O segundo andar deve abrigar mostras e exposições. No mesmo piso vai funcionar um restaurante e um espaço para eventos de gastronomia. O terceiro andar, administrativo, será ocupado por entidades ligadas ao governo japonês.

“Pensamos num espaço multidisciplinar, que possa abrigar tanto exposições de arte como design, moda e alta tecnologia”, explica o curador Marcello Dantas, definindo outros usos da Japan House. “Temos no País 750 empresas japonesas e um grande interesse em aumentar a participação no mercado brasileiro”, observa, indicando que a “casa” também pode funcionar como uma embaixada comercial para intercâmbio entre os dois países.

Essa filosofia, segundo Dantas, se prolonga na área cultural. “O eixo cultural da Paulista se expande com as futuras sedes do Instituto Moreira Salles e do Sesc e não se pode esquecer a importância do diálogo com essas e outras instituições”. Uma delas é a Casa da Rosas, que fica bem em frente à sede da Japan House e poderá abrigar alguns eventos literários com autores japoneses. Entre os artistas selecionados pelo curador Marcello Dantas para a primeira temporada da Japan House em 2017 estão Kohei Nawa, que trabalha com alta tecnologia, e Makoto Azuma.

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