Tom Fels
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Arquitetura é elemento do terror na literatura de Shirley Jackson

Filha e neta de arquitetos, escritora usava casas para contar histórias, como no recém-lançado 'A Assombração da Casa da Colina'

Dirce Waltrick do Amarante*, Especial para o Estado

26 Maio 2018 | 16h00

A editora Suma acaba de relançar um clássico do terror, A Assombração da Casa da Colina (1959), da norte-americana Shirley Jackson (1916-1965). O livro foi publicado no Brasil, em 1983, pela editora Francisco Alves, mas já está há bastante tempo fora de catálogo. A Assombração da Casa da Colina é o quinto romance da escritora, que se dizia uma aficionada por casas. Num ensaio intitulado Os Fantasmas de Loiret, Jackson afirmou: “Adoro casas. Adoro olhar para elas bem do jeito que estão aí e eu adoro particularmente casas velhas, grandes e luxuosas. Meu avô era um arquiteto, e seu pai, e seu pai; um deles construiu casas para milionários na Califórnia ; eu não preciso comprá-las ou morar nelas nem mesmo entrar nelas, eu só gosto de olhar para as casas”. Nesse breve ensaio, a escritora conta que ganhou do marido um livro de fotos de cartão-postal de casas e, após analisar algumas, uma delas começou a lhe incomodar: “Era uma casa feia, cheia de ângulos todos errados. Eu estava enjoada, doente e a fotografia dela no cartão-postal a deixou amarela e flácida. ‘Não gosto nem um pouco dessa casa’, disse ao meu marido”.

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Essa obsessão por casas, e por essa casa incômoda em particular, parece ter resultado na composição de A Assombração da Casa da Colina. Nesse romance, um grupo se reúne numa casa velha e desconhecida para investigar manifestações paranormais. Não são as pessoas em si, mas é a casa, “desprovida de sanidade”, a protagonista.

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Uma das grandes características da casa é a sua arquitetura labiríntica: “Vocês não acham incrível nossa extrema dificuldade de achar o caminho certo? Uma casa normal não causaria em nós quatro tamanha confusão por tanto tempo, e no entanto nós sempre escolhemos as portas erradas, o cômodo que queremos nos escapa”.

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O romance de Jackson lembra, de certa forma, um conto de 1946 escrito por Cortázar, Casa Tomada. Nele, não se sabe se é a obstinação pela casa ou pelas histórias de seus antepassados que acaba por perturbar suas personagens. Lê-se nesse conto: “Gostávamos da casa porque, além de espaçosa e antiga, guardava recordações de nossos bisavós, o avô paterno, nossos pais e toda a infância. Habituamo-nos, Irene e eu, a permanecer nela sozinhos, o que era uma loucura, pois nessa casa podiam viver oito pessoas”. 

Fato é que o horror de Jackson segue a linha de alguns autores góticos do século 19, como Joseph Sheridan Le Fanu (que teve Carmilla lançado no Brasil em 2018 pela Via Leitura). Nöel Carroll afirma que ele colocou “o sobrenatural em meio ao dia a dia, em que a perseguição de vítimas comuns e inocentes (em vez dos excessivos personagens góticos) era observada de perto e recebia o tipo de elaboração psicológica que daria o tom a grande parte dos trabalhos posteriores do gênero”. 

A propósito das personagens de Jackson, elas não são aberrações ou psicopatas, mas, lembra a escritora Ottessa Moshfegh, no prefácio do livro de contos de Shirley Jackson, Dark Tales, parecem ser pessoas cuja identidade é frágil e incerta.

As personagens de Jackson poderiam ser definidas, na verdade, como pessoas bastante triviais, e a história de vida delas bem poderia ser a de qualquer vizinho nosso. Aliás, seu conto mais célebre, A Loteria, teria nascido, segundo a autora, numa de suas idas ao supermercado: enquanto empurrava o carrinho de bebê de sua filha e descia a colina em direção ao supermercado, pensou em seus vizinhos, “o que todo mundo numa cidade pequena faz”, e imaginou qual deles poderia ser escolhido para um sacrifício. Suas histórias nasciam nas circunstâncias mais banais, mas, como observava a própria escritora, bastava dar a elas “um elemento de fantasia, ou irrealidade, ou imaginação” para fazer nascer as mais estranhas histórias, “engraçadas de escrever”. 

Não se pode esquecer aqui que a atração pelo espectral exige do leitor, como afirmou H. P. Lovecraft, “uma certa dose de imaginação e uma capacidade de desligamento da vida do dia a dia. Relativamente poucos são suficientemente livres das cadeias da rotina do cotidiano para reagir às batidas do lado de fora da porta”. Diria, parafraseando Lovecraft, que um curioso lampejo de magia invadirá algum recanto obscuro da mente do leitor mais empedernido ante a leitura de Shirley Jackson.

A propósito da edição da Suma, falta um prefácio ou posfácio, como existe nas edições originais, os quais oferecem ao leitor informações sobre a escritora e sobre seu processo criativo.

*Dirce Waltrick do Amarante organizou e traduziu, entre outros, 'Finnegans Wake (Por um Fio)', de James Joyce (ed. Iluminuras)

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