Arrastando a liberdade

O comportamento violento de alguns jovens reflete um niilismo antissocial voltado contra as instituições e as autoridades

José de Souza Martins*, O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2009 | 00h42

Os arrastões deste início de ano, na Praia Grande e em São Vicente, põem em cena a criminalidade de classe média e o vazio com que se defrontam seus filhos sem causas altruístas a defender e sem projeto social e histórico com o qual se identificar. O fim da ditadura militar deixou os filhos dos setores sociais afluentes sem um inimigo a combater e uma causa de referência pela qual lutar. Na sequência, as novas gerações ainda se iludiram com a fantasia de que o fim da ditadura deixara resquícios e personagens que deveriam ser varridos do cenário político brasileiro porque herdeiros de costumes viciados do autoritarismo. A causa do impedimento de Collor reanimou a juventude politicamente enfraquecida pelo conformismo da geração adulta, cansada de guerra e de algum modo acomodada às contradições e hibridismos legados pelo novo regime. Mas havia ainda o ideário juvenil de uma esquerda dividida e sem um projeto de nação, representada sobretudo pelo PT, que cresceu na pregação de que só ele era o partido do progresso social, da democracia, das reformas sociais e econômicas, da justiça e da liberdade. As experiências municipais do partido e, em especial, sua chegada à Presidência da República, demonstrou-lhe, sobretudo após seis anos de poder, que a sociedade brasileira é muito mais complicada do que o misticismo do partido sugeria. O caso do mensalão acabou por varrer dos espíritos jovens a convicção de que o partido estava acima de qualquer suspeita. Um conjunto de desencantos e enganos pôs em xeque a competência do partido para inovar social e politicamente. Os últimos anos deixaram para os jovens a certeza da orfandade política, do vazio e do cinismo. Foram, além do mais, induzidos a conceberem-se como parceiros da classe operária e assumiram como seus os valores e aspirações do proletariado para, no fim, verem o proletariado propor-se partidariamente como gestor daquilo que sempre combateu. O último meio século foi, entre nós, o século da emergência histórica da juventude como sujeito político, expressão de um conflito social peculiar que é o de gerações. Mas, geração não é propriamente uma causa, no sentido de que não carrega consigo nenhum projeto de transformação social efetiva. Quando muito, propõe o alargamento das oportunidades de inserção social dos jovens, o que de fato quer dizer que a sociedade os torna adultos precoces para que precocemente entrem na teia de relações de reabastecimento humano de uma estrutura social que os próprios jovens, mais ainda os de classe média, vêm invariavelmente denunciando como injusta. Carecem de emprego e, ao mesmo tempo, o mercado de trabalho lhes diz que deles não carece, a não ser pagando menos do que precisam. O declínio das oportunidades de inserção social estável contribui para definir o cenário das inquietações juvenis de hoje. O retardamento da independência dos jovens, porque o tempo e o custo de sua formação se alongou, e a maturidade sexual em descompasso com a maturidade social adiam e complicam a possibilidade de uma vida independente e adulta. No geral, os jovens estão mergulhados numa situação de anomia, em que as normas e os valores com os quais se identificam não correspondem à realidade que experimentam. Ao mesmo tempo, as normas e valores que herdaram da geração anterior não têm eficácia, não os conduzem às metas que esses valores pressupõem. Não são materialmente pobres, mas são pobres de esperança, pobres de competência para mudar o curso da história. O cenário é o de uma cultura fascista em gestação, porque os leva a questionar e destruir a sociedade existente sem construir uma sociedade nova, pluralista, democrática, tolerante e justa. Os arrastões do noticiário recente estão nesse marco de autoritarismo e violência. Numa sociedade que apostou nos movimentos sociais para crescer politicamente e emancipar-se, é inquietante o retrocesso às formas primárias do que os pioneiros do estudo desses fenômenos sociais chamavam de comportamento coletivo. O movimento social é aquela forma de comportamento coletivo que evoluiu das orientações difusas e de momento do protesto social para a organização e as metas sociais apropriadas à demanda que o motiva. O comportamento coletivo é reacional e, na motivação, irracional, cujos resultados, não raro desastrosos, como nesses arrastões de agora, é que o mostram como manifestação de loucura coletiva, sem projeto, movido apenas pela chispa do instante e da impaciência. Que se trata de um fenômeno bem mais complicado do que se pensa fica claro na extensa lista de arrastões, como os de praias e os das torcidas organizadas, registrados nos últimos anos. Sobretudo, o refluxo de movimentos sociais que deixaram de sê-lo, devorados internamente por formas de comportamento coletivo para, por meio de diferentes atos de violência, intimidarem vítimas e adversários e simularem uma força que de fato não têm. Vimos isso há dois anos na invasão e depredação da Câmara dos Deputados por um grupo ideológico que se diz de sem-terra e vimos isso há alguns meses na depredação da Escola Amadeu Amaral, no bairro no Belenzinho, em São Paulo. Nestes mesmos dias, na zona leste de São Paulo, manifestantes puseram fogo na pista de uma via expressa. Tudo isso para reivindicar uma passarela, indício da falência dos canais de expressão política das reivindicações sociais, os partidos. Era uma reivindicação de jovens, a maioria do sexo masculino, como nos casos da Praia Grande e de São Vicente. De uma das esquinas, apontavam as mãos para os PMs e simulavam armas e tiros. Depois, passaram a disparar foguetes na direção dos soldados. Os rostos escondidos, vestindo bermudas, fazendo gestos, como nas revoltas em prisões. Uma espécie de cultura grunge, não apenas contracultural, mas também antissocial no niilismo e na violência, em particular contra os símbolos de poder e autoridade e as instituições. Sabem o que não querem, mas não sabem por que nem o que querem. *José de Souza Martins é professor titular de sociologia da Faculdade de Filosofia da USP e autor, entre outros títulos, de A Aparição do Demônio na Fábrica (Editora 34)

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