National Gallery of Art
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Artemisia Gentileschi, maior pintora barroca, é redescoberta na era do #MeToo

Artista italiana sofreu um estupro que pode ajudar a compreender a força de sua obra pictórica

Redação, The Economist

30 de março de 2019 | 16h00

Dois homens, seus mantos ondulando, olham curiosos por cima de um muro uma mulher no banho. A história bíblica de Susana e os Anciãos, em que os libertinos ameaçam dizer a seu marido que ela é infiel a menos que faça sexo com eles – era um tema popular entre os artistas barrocos e renascentistas, como Rubens, Titoretto e Rembrandt. Sua Susana é uma sedutora. Mas a versão de Artemisia Gentileschi, que ela pintou em 1610, com 17 anos de idade, é diferente.

Susanna se retorce e protege seu corpo, seu rosto se contorce com repugnância. As poucas mulheres que pintaram profissionalmente na sua época na maior parte se restringiam a retratos modestos e quadros de natureza morta. Artemisia reivindicou ser julgada pelos mesmos critérios artísticos dos homens, retratando cenas bíblicas ousadas, com frequência violentas, e santas como Maria Madalena. E também, como a primeira artista mulher admitida à Accademia dele Arti del Disegno em Florença, ela foi uma astuta negociadora. Recebeu em pagamento cinco vezes mais do que suas colaboradoras por sua participação num ciclo de afrescos em honra a Michelangelo. Ela pintou seu painel – num teto - quando estava grávida. “Mostrarei à sua mais ilustre Excelência o que uma mulher consegue fazer”, disse ela a um patrão.

Cerca de 60 pinturas atribuídas a Artemisia Gentileschi sobrevivem, juntamente com dezenas de cartas. Mas sua personalidade é evocada de modo mais vivo na transcrição de um julgamento em Roma em 1612 (quando estava com 19 anos), em que ela relata seu estupro por Agostino Tassi. Seu pai, Orazio, também artista, havia contratado Tassi para dar aulas de perspectiva a ela. “Ele colocou uma mão… em minha garganta e minha boca”, ela narrou à corte. “Tentei gritar o mais alto possível”. As testemunhas ouvidas a denunciaram como promíscua. Duas parteiras examinaram seu corpo na frente do juiz. E, num procedimento bárbaro considerado desnecessário para provar sua honestidade, cordas apertavam seus dedos enquanto era interrogada. “É verdade, é verdade, é verdade” ela repetiu, até a tortura acabar.

The Spirit of Caesar (O Espírito de Cesar), “autorretrato de Gentilleschi como Santa Catarina de Alexandria”, foi adquirido no ano passado pela National Gallery de Londres, e se tornou a 21.ª obra de uma mulher em uma coleção de 2.300 peças. E recentemente foi despachada para uma tournée de um ano pela Grã-Bretanha. Letizia Treves, curadora da galeria, insiste que a obra de Artemisia não deve ser vista apenas sob o prisma do ataque de Tassi. A artista não deve ser definida pelo estupro que sofreu e ficar marcada na história como uma vítima, mas a história de uma mulher ambiciosa que superou a predação sexual, e reafirmou sua atração na era do #MeToo.

“Sua voz na transcrição do julgamento é tão corajosa, tão franca, que você imediatamente deseja interpretá-la”, diz Ellice Stevens, coautora de It’s True, It’s True, It’s True, uma peça sobre o sofrimento de Artemisia Gentilleschi que foi premiada no Edinburgh Fringe Festival no ano passado, depois veio para Londres e em breve será encenada em outros lugares. Nesta narrativa, sua vida é uma parábola de sexo e poder, dor e vingança. Ela é uma grande artista e uma heroína feminista. Sua lenda percorreu um longo caminho num curto espaço de tempo.

Em Artemisia, filme lançado em 1997, a artista é uma jovem ingênua e obstinada que se apaixona pelo seu professor. Durante o julgamento – provocado, no filme, pela fúria de Orazio pelo fato de sua filha se envolver em sexo sem se casar, Tassi grita: “Eu a amo” (Stevens, autor da peça, diz que o filme é “imperdoável”). Em Painted Lady, uma série de TV estrelada por Helen Mirren e lançada no mesmo ano, um mistério envolvendo um assassinato é construído em torno da pintura assinada por Gentilleschi, Judith decapitando Holofernes. 

No romance experimental de Anna Banti, publicado em 1947, a autora italiana entrelaça a história da sua própria vida na Florença ocupada pelos nazistas com sua imagem mental de Artemisia, “minha companheira de três séculos atrás”. Por mais relevante que a biografia de Artemisia Gentilleschi pareça hoje, alguns estudiosos se mostram cautelosos com a tendência de se encontrar ecos da experiência do século 21 numa vida que transcorreu há 400 anos. “Temos de ter cuidado para não confundir as mulheres do século 17 com as feministas de hoje”, afirmou Babette Bohn, historiadora de arte na Texas Christian University. À época de Gentilleschi, por exemplo, o estupro não era visto como violação dos direitos da mulher, mas uma questão de honra da família. O julgamento em Roma ocorreu porque Orazio fez uma petição ao papa pedindo indenização. Sua filha era considerada um bem danificado. Mas um elemento chave da sua história – o perigo de reportar a violência sexual – sem dúvida continua pertinente. “Anda vemos hoje a mesma responsabilização da vítima e a destruição de reputação que Artemisia Gentilleschi enfrentou”, diz Joy McCullough, autora de Blood Water Paint, um livro sobre a artista para adolescentes publicado no ano passado. O abuso sexual continua não sendo notificado na maioria dos casos, em parte devido à falta de confiança nas autoridades e o medo da humilhação pública. “Sua história pode oferecer às jovens uma linguagem para enfrentar esses assuntos”, espera a autora.

Como diz Artemisia no final da peça: “as páginas finais dos transcritos do tribunal se perderam”. Tasso entretanto parece ter sido condenado. “Ele partiu de Roma em exílio”, ela relata, “por um tempo”. Artista predileto de papas sucessivos, Tassi retornou ao trabalho depois de alguns meses. Mas como a heroína da peça explica, ela também retornou. Artemisia – que certa vez declarou em uma carta que “você encontrará o espírito de Cesar nesta alma de uma mulher” – mudou-se para Florença, casou-se com um artista medíocre e nunca teve seu próprio estúdio. A família Médici encomendou trabalhos dela; o Rei Charles Primeiro comprou um dos seus autorretratos. Ela trabalhou em Nápoles e Londres. Tornou-se a grande artista que sempre quis ser. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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