Anuruddha Lokuhapuarachchi/Reuters
Anuruddha Lokuhapuarachchi/Reuters

Arthur Clarke faz ode à curiosidade humana em 'Encontro com Rama'

Obra imagina o espanto da civilização diante do contato com um objeto alienígena vindo do espaço

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2020 | 16h00

“Aquela carruagem se assemelhava a uma nuvem reluzente no céu… e o rei Rama entrou, e a excelente carruagem, ao comando de Raghira, ascendeu à alta atmosfera.” Poderia ser uma ficção científica espacial, mas é um excerto do poema épico hindu Ramaiana (A Viagem de Rama, em tradução literal), composto por Valmiki entre 500 e 100 a.C. A carruagem de Rama foi um dos mais antigos protótipos de espaçonaves na literatura universal. Objetos voadores como esse – presentes na pintura egípcia, na mitologia grega e nas Mil e Uma Noites – provam que a humanidade sonha com os insondáveis mistérios do espaço desde que se tornou capaz de se expressar por meio da arte. 

Essa ligação umbilical entre a curiosidade humana e a vastidão do universo norteia o romance Encontro com Rama (1973), de Arthur C. Clarke, com nova edição no Brasil pela Aleph. Fortemente influenciada pela experiência do autor britânico no Sri Lanka – país asiático onde ele viveu de 1956 até sua morte, em 2008 –, a obra medita sobre o estranhamento proveniente do choque entre culturas de valores distintos. 

Encontro com Rama se passa em 2130, quando a humanidade  colonizou a Lua, Marte, Mercúrio e os satélites naturais de Júpiter, de Saturno e Netuno. As comezinhas tensões políticas interplanetárias se desenrolam nesse cenário futurista até que os telescópios se voltam para um misterioso corpo celeste, um intruso no Sistema Solar, a princípio um suposto asteroide desgarrado que vai se revelando  singular à medida que se aproxima. 

Batizado de Rama, porque o panteão grego já estava esgotado, o objeto “era um errante solitário entre as estrelas, fazendo sua primeira e última visita ao Sistema Solar – pois movia-se tão depressa que o campo gravitacional do Sol jamais poderia capturá-lo.” A sonda Sita é enviada para estudá-lo – no Ramaiana, Rama parte em uma jornada para resgatar Sita, sua mulher, de Ravana, que a captura. As descobertas transmitidas pela sonda são perturbadoras: “Em um bilhão de telas de televisão, eis que aparece um cilindro pequeno e uniforme, aumentando rapidamente a cada segundo. Quando dobrou de tamanho, ninguém mais pôde fingir que Rama era um objeto natural.”

O astrônomo Didier Queloz, Nobel de Física em 2019, afirmou categoricamente que, com o aprimoramento na tecnologia de observação, haverá confirmação de vida alienígena em cem anos. O primeiro contato é, naturalmente, um dos temas mais explorados pela ficção científica, porém Clarke nos leva por uma senda enigmática: nunca há um contato de fato. Rama é uma arca espacial gigante, um mundo de 50 km de comprimento, mas inabitado ou morto. Não há tempo para estudá-lo, pois, na velocidade em que se encontra, só uma nave remota – a Endeavour, do comandante Norton (comparado no livro aos grandes exploradores do passado, como James Cook) – está perto o suficiente para interceptar sua trajetória e explorá-lo, antes que Rama deixe o Sistema Solar.

A todo momento, Clarke traça paralelos com arqueologia (as descobertas de Troia e Angkor Vat) e história (os embates entre Pizarro e os incas ou Peary e os japoneses) para evocar o encontro entre duas civilizações fundamentalmente distintas. Enquanto outros autores da Era de Ouro da ficção científica insistiam em uma visão antropocêntrica e ocidentalizada do universo – e das possíveis criaturas contidas nele –, Clarke se beneficiou do intercâmbio cultural no Sri Lanka para imaginar  uma espécie tão diferente de nós que mal podemos compreendê-la. Cada detalhe da arquitetura de Rama, se não revela muito, ao menos suscita especulações sobre a tecnologia, a arte a moral e a biologia desses seres sempre ausentes – como um Godot interestelar. 

“Tutancâmon fora enterrado ainda ontem – há menos de quatro mil anos; Rama talvez fosse mais velho que a humanidade”, constata Norton, incapaz de desvendar por que aquela estrutura passaria tão perto da Terra sem ao menos se dar ao trabalho de prestar atenção na humanidade, como se o Sol fosse apenas um ponto de parada para corrigir a rota e nós não passássemos de insetos curiosos – premissa semelhante à de Piquenique na Estrada, dos irmãos Bóris e Arkady Strugatsky.

Clarke sempre nutre em suas obras um senso de quão diminuta a humanidade de fato é diante do universo. É assim em O Fim da Infância, em que ele efetivamente nos compara a crianças no teatro do cosmos, creditando a origem das religiões ao nosso pavor diante de alienígenas de um passado remoto. É assim também em 2001: Uma Odisseia no Espaço, em que nos retrata como os macacos que somos, manuseando ferramentas rudimentares, seja um osso ou uma espaçonave – ambos equivalentes frente ao misterioso monólito. Para Clarke, “qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia”, e ele aborda isso por meio do que está além da compreensão humana. Não poderia ser diferente em Encontro com Rama

A indiferença de Rama pelos humanos e suas tentativas frustradas de desvendá-lo fala mais alto que qualquer resposta que pudéssemos obter. Clarke explora as implicações científicas, filosóficas e religiosas do contato alienígena sugerindo que a humanidade não é importante o suficiente para ser percebida – pequenez que pode ser uma dádiva. Por isso, ele crava: “Existem duas possibilidades: Ou estamos sozinhos no universo, ou não estamos. Ambas são igualmente aterrorizantes”.

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