Juan Carlos Ulate/Reuters
Juan Carlos Ulate/Reuters

Artigos abordam relação entre política e religião na América Latina

Livro reúne textos sobre a situação no Brasil, Nicarágua, Argentina e outro países da região

Caio Sartori, O Estado de S.Paulo

27 Outubro 2018 | 16h00

O Rio de Janeiro, segunda capital mais populosa do País, elegeu em 2016 um bispo da Igreja Universal para comandar sua Prefeitura. Simbólica por se tratar do berço de uma certa ideia de malandragem — essencialmente anticonservadora —, a cidade escancarou a ascensão dos evangélicos na vida política brasileira. Cada vez mais disseminada na sociedade, a religião de Marcelo Crivella já não podia mais se contentar com os púlpitos. Multiplicou-se, assim, pelos palanques. 

A presença cada vez mais decisiva dos evangélicos na política nacional é um dos temas do livro Religiões e Política em Tempos de Mudança (Editora Baioneta), que reúne artigos sobre a relação entre a fé e a política na América Latina, sob a organização do argentino Pablo Semán. O artigo As Igrejas Evangélicas a Caminho de Brasília, de Lamia Oualalou, ajuda a entender um processo que culminou com o crescimento da bancada evangélica na Câmara dos Deputados e com a tese de que Jair Bolsonaro teria se consolidado nas pesquisas após o apoio aberto do bispo Edir Macedo, líder da Universal. 

Lamia usa dados do IBGE para mostrar que, em 1970, 92% da população do País se declarava católica, enquanto em 2010 não chegava aos 63%. Contextualiza, com características das igrejas neopentecostais, o cenário que propiciou o aumento de adeptos desse tipo de fé. 

Estima-se que pouco mais de 80 parlamentares irão compor a bancada evangélica na nova legislatura da Câmara, a partir de 2019. Ao se articularem em parceria com outras frentes segmentadas — como a da ‘bala’ a do ‘boi’ —, esses deputados formam uma base parlamentar que, suprapartidária, articula e age em conjunto para aprovar ou barrar projetos de lei que lhes são caros. No caso dos evangélicos, eles vão de propostas focadas em valores e ‘costumes’ até legislações em torno da concessão de rádio e TV para igrejas. 

Na campanha presidencial de 2018, algumas desinformações que circularam no WhatsApp e nas redes sociais têm a ver com propostas anteriormente deturpadas (e derrubadas) pela bancada religiosa, como o suposto ‘kit gay’, que nunca existiu nos moldes do boato. A autora também cita, além do kit, um levantamento sobre projetos voltados para o aborto que chegaram à Casa. Na década de 1990, 70% das propostas voltadas para o tema buscavam a legalização, enquanto na década seguinte 78% iam no sentido oposto. 

A autora aponta para características do sistema eleitoral brasileiro que, favoráveis aos chamados puxadores de votos, fazem com que líderes carismáticos com bom desempenho na eleição para a Câmara possam levar consigo outros companheiros de partido ou coligação. Aqui entra o papel do pastor, por exemplo. Como diz uma frase comum entre especialistas no voto religioso, “irmão vota em irmão”. Ou seja, os fiéis das igrejas evangélicas seriam altamente sensíveis a se abrir à opinião política de seus gurus. 

Peronismo. Em tempos de Papa argentino, outro artigo que merece destaque no livro é Militantes de Francisco, de Marcos Andrés Carbonelli e Verónica Giménez Béliveau. No país vizinho, um grupo chamado Missionários de Francisco busca conciliar a fé católica com o peronismo, aproveitando posicionamentos do Papa que foram vistos como possíveis acenos da Igreja a bandeiras mais progressistas. “Assim como Nestor (Kirchner) me fez acreditar na política, esse papa me levou a voltar a ter fé”, resume um integrante. 

Alinhado ao grupo Movimento Evita, cujo nome homenageia a ex-primeira-dama e esposa de Perón, o grupo não representa, porém, um elo com a institucionalidade da Igreja. A essência do projeto passa por criar capelas locais com foco na “sociabilidade de bairro”, de modo a compartilhar códigos em comum com a militância política. “Assim, encontramos militâncias católicas que se ‘peronizaram’ em sua busca da revolução social ou em sua luta contra o neoliberalismo”, escrevem. 

Para além do grupo em si, os autores mostram como o kirchnerismo — versão mais contemporânea da cultura política peronista — não criou rupturas com os católicos, apesar de terem aprovado projetos que vão contra valores mais conservadores da Igreja. Ao contrário, chegaram a nomear figuras de peso para cargos importantes, como fez o PT com os evangélicos no Brasil. Desse modo, a transformação de Jorge Mario Bergoglio em Papa Francisco teria inclusive, segundo o artigo, sido fruto de valores do kirchnerismo, como a luta nacionalista contra a crise mundial de 2008 e a oposição ao neoliberalismo da década de 1990.

O caso argentino abordado no livro encontra seus semelhantes em outro artigo, Providencialismo e Discurso Político na Nicarágua, sobre o papel da Teologia da Libertação durante a revolução sandinista. O movimento buscava se opor à ideia providencialista de um Deus que tudo resolve. Em concomitância com outros meios, como a poesia e a música, a religião contribuiu para fincar ideias — de soberania nacional, justiça social e democracia — num País que chegava à segunda metade do século 20 com um longo histórico de domínio norte-americano. Sabe-se, contudo, que nem todos esses valores foram seguidos à risca pela Frente Sandinista de Libertação Nacional, à qual pertencia Daniel Ortega. 

Ao fim da campanha presidencial de 2018, em que uma espécie de submundo eleitoral chocou analistas e o eleitorado, ler Religiões e Política em Tempos de Mudança é entender que a política latino-americana e suas culturas são moldadas por valores e crenças que não se limitam às análises por geografia e renda, mesmo que às vezes tudo esteja interligado. 

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