Suzanne Kreiter/The Boston Globe
Suzanne Kreiter/The Boston Globe

Artigos de George Steiner sobre música são reunidos em livro

'Se não pudesse escutar música, creio que não poderia sobreviver', escreve o crítico cultural

João Marcos Coelho*, Especial para o Estado

02 de novembro de 2019 | 16h00

Aos 90 anos, completados em 23 de abril último, George Steiner, um dos mais argutos críticos culturais, com mais de 40 livros publicados entre 1952 e 2011, observa uma dieta dupla para manter-se absolutamente lúcido e dono de sua prodigiosa capacidade de refletir criticamente não só sobre literatura (sua especialidade), mas sobre a arte e a cultura em geral: 1) toda semana pega ao acaso um novo texto e o traduz nas várias línguas que domina; e 2) escuta música. Com razão, afirma que “escutar” é completamente diferente de “ouvir”. Escutar é praticar uma escuta ativa, ou seja, concentrada apenas no ato de compartilhar a música com quem a produz – seja ao vivo, ou em concerto. Ouvir é fazer da música mero papel de parede sonoro enquanto nos dedicamos a outras atividades. Satie foi o primeiro a denunciar esta deformidade, hoje praticada de modo tão generalizado que não conseguimos mais “escutar” música. Só a ouvimos. A denúncia da banalidade da escuta musical hoje em dia é um dos motes que perpassam as 280 páginas de um livro surpreendente e precioso, Necesidad de Música, com 27 artigos, resenhas e conferências de Steiner, montado por Rafael Vargas Escalante para a editora mexicana Grano de Sal.

Mesmo perdendo progressivamente a visão, diz Steiner que tem na cabeça uma grande quantidade de textos e poderia tranquilamente viver com eles. “Mas se não pudesse escutar música (tenho uma surdez crescente), creio que não poderia sobreviver. Literalmente. Para mim, a música é algo sumamente importante e essencial!” Mais do que isso. “Necessito fisicamente de música todos os dias. Um dia sem música é um dia muito triste”. Em Errata: O Exame de uma Vida, livro de 1974, confessa sentir-se humilhado por não ter capacidade para cantar ou tocar um instrumento, por ter sofrido uma paralisia braquial obstétrica, afetando a rede nervosa que controla os movimentos e sensações do braço direito. Tentou, mas não conseguiu tocar piano nem violino. Na casa de seus pais, em Viena, um piano Broadwood do século 19 ocupava lugar de destaque. O instrumento pertencera à mulher de Darwin, que estudara neste piano com ninguém menos do que Chopin.

“A música consegue ‘tirar-me de mim mesmo’, ou, mais exatamente, oferece-me uma companhia melhor que a minha própria”. Steiner enfatiza o duplo prazer da escuta romântica, comportamento que se cristalizou na primeira metade do século 19, quando o anônimo espectador sentiu-se empoderado a ponto de dar vazão aos sentimentos subjetivos que a música lhe provocava.

Detalhe: ao mesmo tempo, também sentia-se irmanado com os demais espectadores, todos com atenção focada só e apenas na performance musical. Afinal, quando falamos da liberdade de nos perdermos numa experiência musical, isso acontece porque a música é capaz de ocupar totalmente a atenção do espectador/ouvinte, impedindo o acesso de “distrações acústicas rivais”, como acentua Robin Maconie em A Música como Conceito (Oxford University Press, 1991). 

Mas atenção: esta é uma rara escuta romântica que está longe de textos superficiais. Ao contrário, Steiner combina o rigor da reflexão crítica com uma prosa saborosíssima em suas importantes contribuições para a mídia. E que mídia. Para a revista New Yorker, por exemplo, escreveu mais de 130 artigos encorpados por 30 anos, entre 1967 e 1997; antes disso, trabalhou na revista inglesa The Economist entre 1956 e 1960 (“quatro dos mais felizes anos de minha vida”). Na primeira, fez contraponto com o pianista e musicólogo Charles Rosen, que escreveu décadas na New York Review of Books. Os textos jornalísticos de Steiner e Rosen têm a qualidade de invenção que os torna permanentes.

O interesse em torno de Necesidad de Música cresce muito justamente porque Escalante não retirou trechos dedicados à música dos livros de Steiner com foco central em outros temas. Coletou ensaios, prólogos, artigos, notas e entrevistas dispersos em revistas, jornais, suplementos culturais e obras coletivas. Lidos na sequência, oferecem a exata medida da importância de uma imprensa musical responsável, crítica e militante. Mesmo que, como já se repetiu tantas vezes, escrever sobre música seja como enxugar gelo. Steiner cita um episódio de Robert Schumann para ilustrar esta dificuldade. O compositor tocou uma peça complicada para uma aluna, que lhe perguntou se ele poderia explicá-la. “Sim”, diz Schumann, e a tocou novamente. 

Lúcido, Escalante esclarece no texto de apresentação que “a escrita sobre música (história, crítica, apreciação e educação musical) cria um público autêntico, conformado como tal não por imposição comercial, mas pelo gosto e interesse realmente compartilhados, por vínculos estéticos sólidos, que permite a um conjunto de pessoas identificar-se e assumir-se como uma coletividade, não como mera cifra de consumidores”.

Vivaldi e os barrocos do século 18, hoje tão populares, não deixam de ser muzak, como qualquer outro papel de parede sonoro que nos envolve enquanto teclamos os smartphones, jantamos ou trabalhamos. “Sublime”, é certo, mas muzak com certeza. Hoje “converteram-se em uma versão aristocrática do pianista de café”. Ironicamente, Steiner recomenda antídotos como o complexo quarteto opus 131 de Beethoven, de 1826, e um dos mais avançados e complexos, para o café da manhã; e a Paixão Segundo Mateus de Bach “a qualquer hora do dia”. E conclui: “A disseminação da música tende a produzir uma espécie de analfabetismo muito particular: o analfabetismo daqueles que ouvem música mas não a escutam”. 

Nem todo mundo ouve Bach ou Beethoven. Mas é certo que não dá para ninguém – ninguém mesmo -- abrir mão da música. Simples assim. “Não há um só ser humano no planeta que não tenha uma ou outra relação com a música. A música, na forma de canto ou de execução instrumental, parece ser verdadeiramente universal. É a linguagem fundamental para comunicar sentimentos e significados. A maior parte da humanidade não lê livros, mas canta e dança”, escreve Steiner em outro livro precioso (Aqueles que Queimam Livros, Ayné, 2016).

Apreciador da música contemporânea mais experimental, a de Pierre Boulez e Elliott Carter, ele reconhece que “a distância entre uma obra radical e o ‘ouvido comum’ nunca foi maior”. Mas, ao mesmo tempo, “a música volta a ocupar os centros de energia comunicativa, de participação pública e privada, que havia perdido em grande parte depois do século 17”. Qual música? O pop que tudo uniformiza. “Um jeito de vestir, a atitude corporal, as referências comuns idiomáticas que distinguem e uniformizam a cultura juvenil desde Sunset Boulevard em Los Angeles até a King’s Road em Londres, e Vladivostock na Rússia – tudo isso é inseparável do ‘grande som’ do hot e do cool, do colorido e martelado pulso do pop”.

Cada nicho, como o pop, o jazz e a música clássica, tem seus “próprios sistemas de alfabetização” e consome a música como “produto industrializado”. E dá o exemplo da sua tribo, a do melômano clássico que também gosta de música do século 20 [ele escreve profeticamente em 1974]: “Ele pode escutar a Missa Solemnis (Beethoven,1923) no café da manhã e o trio de cordas de Schoenberg (1946) enquanto saboreia a sobremesa, depois do almoço”. Conclusão: “A fita cassette e o rádio do carro nos permitem criar ‘casulos de som’ em locais totalmente arbitrários, em entornos descontroladamente impróprios”. Hoje estas bizarrices se potencializaram infinitamente com a internet e o streaming.

Anota, entristecido, que o livro é solapado por uma “subatenção descontínua e totalmente passiva” quando você senta-se para ler e ao mesmo tempo finge que “ouve” música. Ora, é preciso escolher. E aí Steiner lamenta suspeitar que a maioria abandona o livro e fica com o disco. Porque a atitude de quem ouve é mais passiva. Conclui com algo que tem tudo a ver com o que vivemos no Brasil de hoje: “Estamos fartos das palavras, das mentiras e das crueldades que transmitem . A música até pode expressar mentiras, como a rainha da noite na Flauta Mágica ou o Mime de Wagner no Anel do Nibelungo, mas em si mesma ela não mente, nem falsifica, como pode fazê-lo a linguagem”.

Pá de cal: para ler, o leitor sério tem de se afastar dos outros, mas pode-se escutar música quando estamos com outras pessoas. “A experiência combina solidão e participação. Não é excludente.” 

E a nós, pobres jornalistas e críticos musicais, Steiner recomenda que nos espelhemos simplesmente em Bernard Shaw e Berlioz, os melhores críticos musicais de todos os tempos. Entre os contemporâneos, elogia Charles Rosen: “É um escritor de prosa graciosa, que domina tanto a informalidade como o brio retórico. O rigor de sua demonstração técnica baseia-se, em singular grau, num vívido conhecimento da história cultural, do contexto social e intelectual da música ocidental”. Tudo isso aplica-se ao próprio Steiner e sua busca de rigor com prosa acessível no trato com a crítica literária. Um feito milagroso em seu caso -- porque ele confessa candidamente que não sabe ler partitura -- que habita esta preciosa antologia de seus escritos sobre música.

*JOÃO MARCOS COELHO É CRITICO MUSICAL E AUTOR DO LIVRO ‘PENSANDO AS MÚSICAS NO SÉCULO 21’ (EDITORA PERSPECTIVA)

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