Vincent Tullo/The New York Times
Vincent Tullo/The New York Times

Artista conceitual Bruce Nauman ganha exposição retrospectiva nos EUA

Provocativa, a trajetória do artista mistura história, humor, choque e política

Cotter Holland, The New York Times

03 Novembro 2018 | 16h00

Se a arte não é sobre a vida e a morte, e as emoções e a ética que as cercam, sobre o quê então ela é? Estilo? Gosto? Resultados do leilão? Alguns artistas concentram-se nestes, mas a linha de raciocínio mais interessante para a linha nada cool dos resultados financeiros, é o que Bruce Nauman adota. Ele abordou essa linha seguindo vários caminhos: história, humor, choque, política e variedade formal. E ele mesclou esses caminhos na acidentada rodovia de uma carreira, pela qual somos convidados a viajar em Bruce Nauman: Disappearing Acts, uma retrospectiva de meio século que ocupa todo o sexto andar do Museu de Arte Moderna e quase todas as instalações do MoMA PS1 em Long Island City, Queens.

É uma viagem fascinante. Agora com 76 anos, e ainda trabalhando (há obras deste ano na pesquisa), Nauman fez muito para mudar a forma como definimos o que é arte e o que a arte é. Sem ser abertamente tropical, ele tem persistentemente encarado o mundo através de um olhar crítico, com o resultado de que a arte que ele fez décadas atrás é pertinente ao nosso presente momento americano, moralmente doloroso. E até mesmo sua arte mais espalhafatosa e desproporcional se mostra pessoal, originada de emoções extremas que todos nós sentimos - pânico, desespero, repugnância, hilaridade - uma a uma.

A retrospectiva é a segunda de Nauman no MoMA - a primeira, originada em outros lugares, chegou em 1995 - embora esteja longe de ser uma repetição. A pesquisa anterior foi, entre outras coisas, um ataque punitivo audível. O nível de ruído fazia você querer apressar-se para passar por ela. O novo parece, pelo menos por contraste, contido. Você ainda tem desconforto pelos altos decibéis. Os guardas da galeria no MoMA deveriam receber pagamento por ação em combate. Mas no PS1, a paisagem sonora é na verdade suave. Você ouve alguém escolher uma simples música de piano. Um violão toca uma música country triste. E em um vídeo de 1966, no saguão de entrada, um jovem Nauman se afasta, não sem ser melodicamente, com um violino.

Os excelentes curadores - Kathy Halbreich, principal organizadora da exposição (e co-curadora da retrospectiva anterior), com Heidi Naef e Isabel Friedli, do Schaulager Basel, e Magnus Schaefer e Taylor Walsh, do MoMA - cuidaram para que você possa ter uma visão cronológica da arte de Nauman em qualquer local, mas eu recomendo vivamente que você visite ambos.

As duas instalações parecem intrigantemente diferentes. A do MoMA é, como de costume, totalmente aberta, branca, inundada de luz e selada de qualquer sugestão de existência de um mundo externo. Na PS1, o trabalho ocupa um labirinto de três andares de corredores e recintos estreitos e pouco iluminados. Muitos já foram salas de aula de uma escola pública - um ar úmido de angústia adolescente ainda se agarra a eles - e provavelmente são do tamanho dos estúdios iniciais de Nauman.

Mas a grande razão para encarar os dois lugares é que Nauman merece ser visto na íntegra.

Quando você fala sobre a vida e a morte, você está falando sobre o corpo, presente ou ausente. E o corpo - dele, nosso - tem sido o foco principal do trabalho de Nauman desde o início. Não sei como esse foco se desenvolveu, mas quando ele se matriculou no programa de mestrado em Belas Artes da Universidade da Califórnia, em Davis, em 1964, já estava lá. Ele passou seu primeiro ano fazendo pintura abstrata, depois largou isso para sempre. Ele seguiu para a escultura, e isso pareceu ligar um interruptor, apontando o caminho.

O minimalismo era, então, o estilo ‘quente’, mas ele achava sua frieza industrial pretensiosa e voltava-se para fazer coisas menores, ásperas e retorcidas, que se referiam ao corpo, ou a partes dele. Muitas vezes, esse corpo era, pelo menos teoricamente, seu, como é o caso de quase metade das 21 esculturas e desenhos, todos da década de 1960, na primeira galeria do MoMA.

A galeria parece um pouco com o rescaldo de uma autópsia, com os restos descartados esperando pela limpeza. Um molde de cera, verde gangrenado, de um braço e ombro, cortado logo acima do queixo, está pendurado na parede. (Seu título, Da mão para boca, introduz a propensão de Nauman para trocadilhos visuais-verbais.) Coisas que parecem ser grandes tiras de gordura crua estão no chão. Outra escultura de parede, Modelos em neon da metade esquerda do meu corpo, tomados em intervalos de dez polegadas, é uma rede pouco atraente de tubos de luz levemente brilhantes e escrita flácida.

Em um vídeo, o jovem Nauman aparece pessoalmente em seu estúdio repetidamente posicionando e reposicionando, e lutando com um grande metal no formato de uma barra em T. Ele parece estar tentando transformar a barra em uma escultura de estilo minimalista, mas sem conseguir. Na verdade, ele a está posicionando e reposicionando.

O vídeo - novo na arte, barato de produzir, fácil de mostrar - tornou-se um meio de comunicação primordial para Nauman e, com isso, ele continuou, por um tempo, a ser seu próprio tema mais maleável. Em uma peça chamada Art Make-Up: No. 1 White, No. 2 Pink, No. 3 Green, No. 4 Black, ele mancha seu rosto e peito nu com camadas de pigmentos coloridos. Ele está se transformando em uma pintura viva, mas também parece estar brincando com as ficções e os estigmas de raça em uma época - 1967-1968 – em que os Estados Unidos ardiam pela violência racial.

Em outro vídeo, Walk With Contrapposto, o gênero se exercita. Para esta peça, ele construiu um corredor alto, estreito e independente e gesso, e então filmou a si mesmo caminhando em todo seu comprimento com um andar engraçado e balanço do quadril. Ele estava ostensivamente imitando as poses forçadas associadas à forma masculina ideal na escultura clássica. Mas seu espírito de dançarino trouxe para a mente as convenções de strip-tease feminino. O crossover - macho / fêmea, velho / novo - tinha potencial libertador, mas não quando esmagado entre paredes apertadas.

Logo depois disso, por volta de 1970, imagens de seu próprio corpo saíram de vista. E em certas obras, ele convidou os espectadores - nós - a tomar fisicamente o seu lugar. Ele apresentou o corredor da peça por onde caminhava como uma instalação autônoma, com câmeras de vigilância adicionadas. A peça tornou-se agora um exercício de participação do público na claustrofobia e na paranoia.

Ele também nem se ausentou inteiramente. Permaneceu muito presente na forma de palavras, faladas e escritas. E o trabalho ficou mais irado. Em uma galeria pequena e escura no PS1, uma voz masculina – a de Nauman - alternadamente assobia e grita o comando: “Saia desta sala, saia da minha mente.” Com tubos de neon, ele preparou versões infernais de cartazes comerciais padrão. Em 1984, ele compôs uma parede de 100 variações da cor do arco-íris na frase Live and Die (Viva e morra). Um ano depois veio uma animação de néon, chamada Viva e Morra por Assassinato e Suicídio, na qual duas silhuetas de figuras nuas, macho e fêmea, apunhalam e atiram em si mesmos e uns nos outros.

E quando ele voltou ao vídeo, a agressão continuou. Na videoinstalação de 1987 Tortura do palhaço (Clown Torture), o palhaço do título (interpretado por um ator) se agita e grita sem parar um horrorizado “não, não, não, não, não” a um atormentador invisível, que aparentemente somos nós, os espectadores.

Há uma inovação distintamente cômica e louca para tudo isso. Mas é difícil encontrar essa inovação em outras obras. Isso é verdade em esculturas do final dos anos 1980 como Carrossel (versão em aço inoxidável), que consiste em um suporte de metal girando mecanicamente com formas de poliuretano em tamanho natural de animais mortos - veados, raposas, coiotes - nativos do sudoeste americano, onde Nauman viveu em seu próprio rancho desde 1979.

A imagem de Nauman como um cowboy estava em ampla circulação na época da retrospectiva de 1995. E para algumas pessoas, deu cor ao modo como sua arte era percebida. Era visto como arte masculina e, como tal, evidência de que ele era apenas outro artista macho alfa dando uma volta institucional de vitória ao redor da arena. O ambiente agressivo da exposição não ajudou.

Essas reações, embora não infundadas, obscureceram a natureza de sua arte. A nova retrospectiva, menos teatral e mais meditativa - uma seleção substancial de trabalhos em papel é de grande ajuda - permite que vejamos com mais clareza onde está a arte de Nauman, eticamente falando, e como ela se conecta com a política no presente.

Ele nos permite ver a imagem de Nauman de animais enforcados e esfolados (ele os adaptou de modelos da taxidermia) como antecipatórios de uma época em que a proteção de recursos naturais, incluindo a vida selvagem, está sendo destruída. Uma escultura de néon de 1981 que descreve a “violência americana” na forma de uma suástica sugere que o nacionalismo branco é uma condição crônica. Ele diz algo sobre a visão de Nauman da arte como um instrumento moral que, em 1969, quando ele foi convidado para participar de uma grande exposição de Land Art, propôs a contratação de um avião para escrever as palavras Deixe a terra em paz (Leave the land alone).

Na videoinstalação de sete canais Mapeando o Estúdio II (Sem chance, John Cage), de 2001, o corpo, em todas as suas manifestações, desapareceu. Para este trabalho monumental, Nauman colocou câmeras de vídeo em seu estúdio durante a noite por várias noites para registrar o que acontece quando ele não estava lá. Muitas coisas: cães distantes latem, filhotes de coiotes uivam, ratos correm, gatos andam à caça. O resultado é um estudo no nível do solo em primeiras e última coisas. E uma lição de arte e vida sobre como estar ausente e não estar. /Tradução de Claudia Bozzo

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