Christopher Gregory/The New York Times
Christopher Gregory/The New York Times

Artista Frank Stella fala sobre sua coleção e obras que vai leiloar

Pintor decidiu se desfazer de trabalhos cujo valor é estimado entre 1,5 e 7,5 milhões de dólares

Ted Loos, The New York Times

23 de fevereiro de 2019 | 16h00

Aos 82 anos, Frank Stella já fez de tudo e não está muito preocupado com o que se pense dele. Após duas retrospectivas individuais no MoMA, ele está cada vez mais encastelado em seu nicho no panteão – o que lhe dá liberdade de usar (e usa) chinelos numa entrevista. Simples assim.

Stella se tornou famoso no mundo da arte pouco depois de se formar em Princeton, em 1958, e foi consagrado já por trabalhos iniciais como as Pinturas Negras – com seu atordoante rigor geométrico – e inspiradoras declarações como “o que você vê é o que você vê”.

Seu trabalho evoluiu através das décadas – a série Protractor, profusamente colorida, tornou-se um marco da arte contemporânea. A obra de Stella avançou para esculturas portentosas. Ele tem ateliê em Hudson Valley, onde produz peças que exigem muito espaço, como Adjoeman (2004), uma escultura de aço inoxidável e fibra de carbono que pesa mais de 1.300 quilos e já foi exibida na cobertura do Metropolitan Museum of Art.

Stella vive com a mulher,Harriet McGurk, na mesma casa de três pisos que comprou no final dos anos 1960. A casa é atulhada de arte – há grandes abstrações de amigos, colegas e gente que ele admirava quando começou, como Jules Olitski, Hans Hoffman e Kenneth Noland. Mas há também uma paisagem marinha do pintor Eugène Boudin, do século 19, pendurada sobre outra tela do mar do fauvista Henri-Edmond Cross. Um antigo e figurativo Mondrian domina uma sala.

Stella tem um gosto decididamente católico em arte, evidenciado pelas peças que está vendendo na Christie’s. O lote inclui um óleo de Miró de 1927, sem título, previsto para ser leiloado no dia 27 em Londres, e A Less Realistic Still Life (1965), de David Hockney, que deverá ser vendido em 6 de março. Em maio, em Nova York, será leiloado um retrato duplo de um casal (1532), do pintor holandês Jan Sanders van Hemessen; duas obras do próprio Stella, WWRL (1967) e Lettre sur les Aveugles I (1974); e The Beach Horse, de Helen Frankenthaler (1959). O valor estimado das obras vai de US$ 1,5 milhão a US$ 7,5 milhões. Por que está vendendo? “É bom ter um pouco de dinheiro para gastar”, disse Stella. “Por que deixar tudo para o fim? Não viverei para sempre.” Explicando as obras que reuniu, Stella disse que “os artistas colecionam de modo diferente das outras pessoas”. 

Vamos começar pela sua sala: grandes abstrações coloridas de artistas de sua geração. Por quê?

Gosto de toda arte com a qual cresci. Não gostaria de fazer arte se não apreciasse também o que as pessoas a minha volta estão fazendo. 

Não há nenhuma obra sua nesse espaço. 

É bom chegar em casa e olhar as pinturas dos outros. Para mim, é um alívio. Gosto de olhar para elas e não me preocupar em mexer em nada. 

Você é o único artista que conheço que exibe falsificações do próprio trabalho. 

Possuo só quatro falsificações. Algumas pessoas perguntam se eu “autenticaria” essas obras (risos). Não as descarto só porque são falsas. Os caras que as fazem são sérios, conhecem o ofício.

Você está vendendo uma obra de Helen Frankenthaler. Ela era só um pouco mais velha que você, mas já era famosa quando você entrou em cena. 

Sempre adorei o trabalho de Helen e tudo que se refere a ela. O mais interessante de nosso pequeno relacionamento é que ela uma vez propôs uma troca, um trabalho meu por um de seus menores quadros de 1958. 

Você, claro, aceitou.

Fiquei tão perturbado, com Helen e Bob (Robert Motherwell, marido de Helen) em seu apartamento, que não consegui aceitar uma troca: achei que nada que eu pudesse oferecer equivaleria. Estava intimidado. Então comprei esse quadro de um marchand porque era de 1959, mesmo período daquele que ela propôs trocar.

Creio que muita gente ficaria surpresa ao saber que você também coleciona velhos mestres. 

Meu Van Hemessem eu vi em um catálogo nos anos 1980. Não pude resistir ao fato de o quadro ser de 1532 e à ideia de ter em casa uma obra do Renascimento nórdico. 

É verdade que você mantém guardadas, fora do mercado, muitas de suas obras? 

Há um grande lote fora do mercado, mas não em meu ateliê. As pessoas fantasiam. É bom lembrar que podem ser obras que não consegui vender (risos).

Acho que as pessoas fantasiam que existe uma ‘Black Painting’ oculta em algum lugar. 

Uma vez, quando estava me mudando de meu ateliê na West Broadway e tive de carregar coisas pela Walker Street, havia uma tela que insistia em cair do carrinho que eu estava empurrando. Simplesmente dobrei a tela em duas e enfiei na lata de lixo que havia na esquina da West Broadway e Canal. Era uma Black Painting. 

Você está falando sério? Alguém pode ter encontrado uma Black Painting no lixo?

Sim. Ela nunca reapareceu.

TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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