Marcio Fernandes/Estadão
Marcio Fernandes/Estadão

Artista Giselle Beiguelman trata do apagamento da memória em livro

'Memória da Amnésia: Políticas do Esquecimento' mostra cinco intervenções da artista sobre o tema

Márcio Seligmann-Silva*, Especial para o Estado

04 de janeiro de 2020 | 16h00

Nos anos 1990 e início deste século vivemos o boom dos estudos de memória. A violência dos totalitarismos, seguida pelos genocídios e etnocídios das ditaduras latinas e dos conflitos pós-coloniais na África, produziu uma série de sociedades pós-trauma. Para elaborar suas histórias, encontrou-se os caminhos do testemunho, políticas de transição, e toda uma cultura dos direitos humanos calcada no tripé: memória, verdade e justiça. Algumas vezes esse trabalho passou também pelas cortes e tribunais, o que não foi, como sabemos, o caso brasileiro. Contudo, as políticas do neoliberalismo e a revolução digital nos conduziram, em menos de duas décadas, da era do boom da memória para a dos negacionismos. 

É neste contexto que podemos entender a força do livro Memória da Amnésia: Políticas do Esquecimento de Giselle Beiguelman. Nesse precioso volume publicado pelas Edições Sesc, acompanhamos cinco intervenções da artista em torno da memória e do seu apagamento. 

O mote de Giselle é a ideia de André Breton para quem “A beleza convulsiva será erótico-velada, explosivo-fixa, mágico-circunstancial, ou não será”. Com essa definição ela contrabandeia para seu livro e suas obras a visão surrealista da arte como potência capaz de “tensionar a memória e reinventar o real.” Também Walter Benjamin, inspirado em Breton, esteve ocupado com um projeto de “mobilizar para a revolução as energias da embriaguez”. Tratava-se do que ele denominou de “organização do pessimismo”. Para isso, seria necessário “extirpar a metáfora moral da esfera da política, e descobrir no espaço da ação política o espaço completo da imagem.” 

Considero Giselle uma autêntica realizadora desse projeto, a partir de suas intervenções no corpo da cultura, da cidade e de seus membros despedaçados. No primeiro capítulo ela relata a obra feita no Arquivo Público do Estado da Bahia, em 2014, na 3.ª Bienal da Bahia: uma narrativa sonora sobre o histórico daquele lugar e um grafite de musgo que dava sua chave interpretativa: “Beleza convulsiva tropical”. A artista recorda que a Quinta do Tanque, local extremamente úmido, é também o espaço onde se encontra o segundo arquivo mais importante do Brasil. Ela escreve: “Os trópicos parecem conspirar contra a memória.”

A utilização de um prédio do século 16, em condições precárias, como local de conservação é uma experiência mnemo-amnésica. Esse espaço foi residência de Antônio Vieira e também um leprosário. Trata-se de um lugar de cultura e de barbárie. A narrativa nos remete ao fato de que essa artista-narradora é, como o escritor alemão Sebald, uma cronista da história natural da violência. 

Em Memória da Amnésia, segundo capítulo do livro, Giselle apresenta a exposição em que reuniu, no Arquivo Histórico de São Paulo, monumentos retirados de depósitos municipais. Ela narra a história das peças que elegeu para essa curadoria do esquecimento, como o Beijo Eterno, parte do monumento em homenagem a Olavo Bilac, censurado em nome de uma certa moralidade, que volta hoje a nos rondar de modo ostensivo e patético. Se agora se estigmatiza o “beijo gay”, há cinquenta anos, era o beijo hétero que não podia ser suportado em público. Um vereador da Arena exigiu seu recolhimento em 1966. Os alunos do Largo São Francisco não tiveram dúvida: sequestraram a obra e a colocaram diante de sua Faculdade, onde se encontra até hoje. 

Ao narrar com engenho e graça a história desses monumentos nômades, Giselle toca em várias teclas dos debates do memoricídio, pondo em xeque as políticas de arquivamento/esquecimento levadas a cabo por diferentes administrações públicas. O terceiro capítulo, “Já é ontem?”, aborda o Porto Maravilha. O conceito aqui é o de obsolescência da tecnologia e dos nossos projetos de urbanização. Trata-se, escreve Giselle, de uma “cultura incapaz de conviver com o envelhecimento.” Banimos essa categoria, inclusive com Museus do Amanhã, em terra onde queimam os museus de nossos ontens. 

O plano futurístico se converte em conjunto de escombros. A tentativa de “botox urbano” abortou. Nas imagens de Giselle, precarizadas com traços e faixas de cor, vemos ao lado do elevado da Perimetral, que foi implodido, portentosos transatlânticos, estruturas flutuantes, mas muito mais sólidas do que o concreto e asfalto das ruas da orla.

Museus das Perdas para Nuvens de Esquecimentos, o quarto ensaio, recorda seu pioneiro site O Livro Depois do Livro (1999). Discute a quase impossibilidade de conservação de obras que logo se tornam obsoletas e mostra que tentativas de reproduzi-las, emulando o efeito original, anulam o contexto em que circularam originalmente. Fala da virada que ocorreu após o 11 de setembro, com a redução da web a gigantescos bancos de dados controlados por empresas. Na contramão desse processo, narra as técnicas usadas para conservar sua obra no MAC-USP. Para ela, não se trata de criar uma falsa restauração, mas de assumir os limites dessa transmissão, enfatizando o inacabado da tradução entre eras tecnológicas.

A última parte, Beleza Compulsiva Tropical, é dedicada ao desaparecimento da cultura. O deslocamento do convulsivo de Breton ao compulsivo indica o momento atual. O tema que desencadeia a reflexão é o incêndio do Museu Nacional. Ela fala de uma imagem-alarme dessa catástrofe, o que nos remete à ideia freudiana de um angústia preparatória que, para o pai da psicanálise, deveria nos proteger dos desastres. Enfrentar essas imagens é um dos desejos das artes que desafiam a lógica do esquecimento. É o que Giselle faz com as imagens desse crime. Para a autora-artista, nosso país, marcado pelas políticas de apagamento e impedimento da inscrição da violência, tende a obliterar seus traumas, a começar pela história da escravidão, que se desdobra em tantas outras não inscrições.

O caso do Museu Nacional é ilustrativo da nossa cultura do memoricídio: como era em vida um esquecido para a maior parte da população, o processo de apagar o incêndio da memória foi facilitado. Ativistas como Giselle Beiguelman trabalham no sentido de nos inspirar para que as mencionadas forças da embriaguez resistam à ditadura do esquecimento programado.

*MÁRCIO SELIGMANN-SILVA É TRADUTOR, TEÓRICO E CRÍTICO, PREMIADO COM O JABUTI EM 2006

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