Vincent Tullo/The New York Times
Vincent Tullo/The New York Times

Artista polonês ressignifica monumentos públicos em instalações

Krzysztof Wodiczko faz obras fortemente políticas expostas em Nova York

Dirce Waltrick do Amarante*, Especial para o Estado

29 de fevereiro de 2020 | 16h00

Ao refletir sobre a invisibilidade dos monumentos públicos, Robert Musil (1880-1942) conclui que “tudo que é duradouro perde seu poder de impressionar” e, por isso, ao cabo de poucas horas deixamos de percebê-los. Para reverter essa desaparição, Musil acreditava que era possível exigir “mais dos monumentos”, a fim de que não permanecessem apenas imóveis no meio do nosso caminho.

Duas novas obras exibidas atualmente em Nova York parecem dialogar diretamente com as ideias de Musil e mostrar que de fato se pode exigir mais dos monumentos: Monument (Monumento), que poderá ser vista de janeiro a maio no Madison Square Park, e A House Divided... (Uma casa dividida), que ganha uma sala na Galerie Lelong até o mês de março. Ambas são de Krzysztof Wodiczko, artista polonês radicado nos Estados Unidos.

Em Monument, Wodiczko projeta na estátua erguida em 1881 em homenagem ao Almirante David Glasgow Farragut, que, entre outros feitos, lutou na guerra entre o México e os Estados Unidos, a imagem e a voz de refugiados de diferentes partes do mundo que relatam as dificuldades de tentar uma nova vida na América e descrevem o desespero que os levou a essa decisão. As projeções iniciam ao entardecer, e à medida que escurece o monumento parece se mover. Os refugiados incorporados em Farragut instigam ainda a uma revisão histórica da figura do Almirante. 

 Wodiczko afirma que o objetivo do seu trabalho é romper o silêncio daqueles “negligenciados ou não reconhecidos por questões sociais e culturais”. Não há melhor lugar para fazer isso, ao que parece, do que um espaço público. Monument chama a atenção das pessoas que cruzam a praça e muitas param para ouvir pela primeira vez, talvez, o discurso dos silenciados. 

Em A House Divided..., numa das salas da Galerie Lelong, duas estátuas de Abraham Lincoln estão de frente para a outra e nelas são projetados vozes e corpos de cidadãos de Staten Island, com posições políticas diferentes, remetendo à divisão dos americanos e ao antagonismo de pensamento entre democratas e republicanos, que vem se acentuando após a ascensão de Donald Trump. O diálogo possível e necessário parece ser a tônica da obra de Wodiczko, na qual todos são convidados a escutar o outro antes de se manifestar livremente. O visitante, entre as duas estátuas e as duas vozes dissonantes de “Lincoln” que se intercalam (nunca se sobrepõem), pode refletir sobre as razões de cada fala. 

Segundo o artista polonês, “falando um com o outro, eles explicam suas posições e seus desacordos enquanto expressam seu desejo mútuo por atenção e respeito ao ouvir o lado oposto”. O título da obra vem de uma frase de Abraham Lincoln, que, em 1858, citou Mateus, versículo 12, em um discurso durante uma eleição fracassada ao Senado: “Toda casa dividida contra si mesma não subsistirá”. Musil e Wodiczko parecem ter razão quando propõem relativizar os monumentos. Aliás, a obra do artista polonês chegaria em boa hora no Brasil.

*DIRCE WALTRICK DO AMARANTE É PROFESSORA DO CURSO DE ARTES CÊNICAS DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA

Tudo o que sabemos sobre:
artes plásticas

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.