Sasha Arutyunova/The New York Times
Sasha Arutyunova/The New York Times

Artista Titus Kaphar cria espaço para descobrir novos talentos

Em ascensão, pintor que fez o retrato oficial de Barack Obama tem exposição dedicada à sua obra

Patricia Leigh Brown, The New York Times

20 de abril de 2019 | 16h00

NEW HAVEN - Como muitas cidades universitárias, New Haven é uma comunidade de histórias paralelas, como a celebrada Elm City que abriga a Universidade de Yale, suas torres com um carrilhão de sinos, janelas envidraçadas e praças exuberantes por trás dos portões de ferro. Mas o artista Titus Kaphar quer mudar a narrativa para uma parte da cidade pouco conhecida dos estrangeiros, o outrora próspero bairro afro-americano chamado Dixwell, onde ele e sua família vivem há mais de uma década.

Kaphar, 42 anos, tem uma profunda ligação com os povos esquecidos, desde os escravos de propriedade dos Pais Fundadores da nação até a onipresença de afro-americanos no sistema penal, incluindo o próprio pai. Vencedor de um prêmio MacArthur recentemente, o artista tem questionado o racismo num conjunto vigoroso de obras que já fazem parte de coleções permanentes do MoMA, do museu do Brooklyn e da Galeria de Arte da Universidade de Yale, e foram recentemente expostas na National Portrait Gallery. Kaphar é conhecido por se apropriar de imagens da arte europeia e americana e subvertê-las, desconstruindo-as nas suas telas para abrir a cortina de veludo da história. Ele utiliza materiais como alcatrão, arame, folhas de ouro e pregos para revelar as verdades inconvenientes do passado e irradiar uma luz restauradora naqueles que vivem nas sombras.

Em Dixwell, um bairro carente na sombra de Yale, ele criou a NXTHVN (consoantes de “Next Haven”), uma incubadora de artes sem fins lucrativos, de US$ 12 milhões e um programa de bolsas, que ele fundou para nutrir talentos em ascensão. A Next Haven está instalada em duas fábricas abandonadas que foram remodeladas pela arquiteta Deborah Berke, reitora da Faculdade de Arquitetura de Yale. “New Haven tem alguns dos mais apreciados artistas do mundo”, disse Kaphar. “Como cidade, fizemos muito pouco para mantê-los aqui.”

No primeiro semestre, estúdios para sete artistas bolsistas estarão em funcionamento em uma antiga fábrica de sorvetes, repleta de luz natural. O segundo edifício, onde equipamentos de laboratório eram fabricados, está sendo renovado e os operários estão por toda a parte. O complexo será aberto em fases e incluirá um café, um espaço de galeria e coworking combinados, um teatro e mais uma área anexa de três andares com claraboias e apartamentos tipo loft para artistas visitantes em regime de residência.

O financiamento do projeto veio do Estado (US$ 3 milhões) e da cidade (US$ 1 milhão para melhorias na fachada), com o resto fornecido por fundações e entidades filantrópicas privadas. Colecionadores do trabalho do artista ajudam a subsidiar o programa de bolsas.

Há muito tempo um centro cultural para moradores negros, com um clube de jazz onde Miles Davis e outros luminares tocaram, o bairro foi devastado pela renovação urbana e o fechamento, em 2006, da Winchester Repeating Arms Factory, que outrora chegou a empregar 26 mil funcionários. “Recolhemos o que as pessoas abandonam – a mochila descartada, o prédio que a cidade não sabe como utilizar”, disse Kaphar.

A ideia de um programa de bolsas competitivo internacionalmente foi inspirado pelos anos de residência de Kaphar no Studio Museum, no Harlem, em Nova York, um programa criado em 1968 por William T. Williams, artista que ele venera. Os sete artistas escolhidos no NXTHVN foram selecionados entre 166 candidatos. Eles aprendem ali os conceitos básicos da indústria da arte, desde negociar com galerias até falar em público. “O mundo das arte é repleto de segredos”, disse Vaughn Spann, que concluiu seu mestrado em 2018, em Yale. “Titus está abrindo o cofre”.

Jovens talentosos de escolas secundárias locais trabalham como aprendizes remunerados, aprendendo a lixar e aplicar gesso em painéis ou editar imagens online. Historicamente os artistas aprendem seu ofício aprendendo com mestres, observa Kaphar. “Diego Velázquez jamais foi a uma escola de graduação.” E Velázquez nunca fez uma TED Talk importante – como é o caso de Kaphar, demonstrando como artistas unem riqueza e privilégio fazendo uma cópia de um retrato de Franz Hals de uma família de aristocratas do século 16 e cobrindo com cal as principais figuras para mudar o olhar para o criado negro no fundo. A pintura será tema da mostra One: Titus Kaphar, no Brooklyn Museum, a partir de 21 de junho.

Em seu quadro de 2018, Seeing Through Times, pendurado sobre duas latas de tinta na NXTHVN, Kaphar expôs personagens europeus em uma tela que em seguida descascou, criando espaço para uma menina negra, com um vestido de veludo usando pérolas que surge ao lado de uma poderosa mulher contemporânea. A menina invade as camadas de tinta e com isto as correntes monoraciais e patriarcais do cânone ocidental. “Durante 400 anos a menina ao lado esteve sempre lá. Mas jamais se supôs que você contemplaria sua persona – o que ela quer, necessita e deseja”.

Kaphar só descobriu arte por volta dos seus 20 anos, quando tentava impressionar uma jovem chamada Julianne, hoje sua esposa. Ele se matriculou em um curso de pesquisa de arte numa faculdade na Califórnia e ficou indignado quando o professor anunciou que seriam omitidas as aulas sobre os “negros na arte”. Formado, ele examinou atentamente as pinturas e esculturas na galeria de arte da universidade de Yale. Convenientemente, seu próprio trabalho hoje está ali exposto: Shadows of Liberty (2016) é um retrato de George Washington em que seu torso e seu rosto são obscurecidos por faixas na tela, cada uma com a inscrição dos nomes dos escravos dos quais foi proprietário.

Em muitos aspectos o NXTHVN representa o próprio “ver através do tempo” de Kaphar, remontando à própria história pessoal do pintor para dar a jovens promissores um presente que nunca tiveram. Seu pai entrou e saiu da prisão durante a maior parte da infância de Kaphar. Em Kalamazoo, Michigan, onde nasceu, a família conseguia algum dinheiro extra no bairro transportando com uma carroça canos de metal queimado para os lixões. Durante anos, Kaphar de uma casa para outra entre os membros da família e, num determinado momento, viveu num porão. 

Em New Haven, o estúdio do artista no quintal se destaca pela picape GMC, ano 1956, cor de cereja, que está na entrada. Mudar-se para ali depois de dois anos em Nova York lhe ofereceu o espaço necessário para e assumir riscos como o The Vesper Project, uma iniciativa lançada há cinco anos envolvendo a construção de uma casa em vários estados de decadência para refletir a derrocada mental de um personagem fictício.

Kaphar e sua mulher vivem a três quadras do NXTHVN com seus dois filhos, Savion, 12 anos, e Daven, 10. Eles escolheram o bairro “de modo que as crianças consigam ver os reflexos delas próprias”, disse ele. Um tour rápido de algumas obsessões do artista começou com um sorvete artesanal, seguindo por um churrasco de costeletas de porco. Ele chama pelo primeiro nome os guardas da galeria de arte da universidade de Yale que “passam mais tempo com as pinturas do que os curadores”, afirmou. A cidade (com 130 mil habitantes) é tão familiar que as pessoas se conhecem. Kaphar e Jason Price, profissional da área de private equity e é um dos fundadores do NXTHVN se encontram quando seus filhos participam de jogos. Ele encontrou Betts pela primeira vez num jantar onde discutiam sobre um livro de Ta-Nehisi Coates.

O artista mantém um relacionamento pessoal com os colecionadores que têm feito doações para o NXTHVN. “É muito inusitado um colecionador olhar além do seu nariz”, disse Jack Reynolds, diretor recentemente aposentado da galeria de arte da universidade, que conhece Kaphar desde que ele era estudante e é membro da incubadora de arte.

“Ele não pede auxilio abertamente”, disse Barbara Shuster, filantropa e colecionadora de Nova York. “Por causa da sua personalidade e sua seriedade, você ouve falar do que ele vem criando e tem vontade de participar”.

Kaphar e sua equipe estão bem cientes do que pode detonar uma gentrificação do bairro. Mas também sabem os efeitos negativos da falta de investimento na região, onde os imóveis ficaram vazios durante anos depois de serem usados como depósito ilegal de produtos pirateados. Ele planeja construir o NXTHVN em etapas, pois é “uma maneira cordial de conectar com a comunidade”, disse Berke. O projeto engloba um café, espaço de galerias e para trabalhos conjuntos, e os aprendizes se encarregarão das visitas guiadas de mostras itinerantes. “New Haven tem uma história afro-americana rica, com muita depressão econômica”, disse a poeta Elizabeth Alexander, presidente da Andrew W. Mellon Foundation e ex-presidente do programa de estudos afro-americanos em Yale. 

O Projeto reúne muitas iniciativas de artistas urbanos no país, especialmente o conhecido Project Row Houses, pioneiro, de Rick Lowe, que transformou 39 estruturas dentro de uma área de cinco prédios em Houston. Lowe inspirou artistas de renome como Theaster Gates, cuja Rebuild Foundation adquiriu e reformou dezenas de imóveis no South Side de Chicago, e Mark Bradford, cujo campus chamado Art+Practice, em Leimert Park, Los Angeles, tem casas e programas de emprego e educação para incentivar os jovens, incluindo cursos de formação nos seus programas de arte contemporânea.

Com futuras exposições, Kaphar tenta equilibrar o tempo livre em seu estúdio com o estímulo que tem dos jovens aprendizes e camaradas, dos quais é o mentor, o incentivador e crítico. Ele deseja que os jovens do bairro “vivam a experiência de uma peça de arquitetura de Deborah Berke e comecem a refletir sobre espaço, luz e o potencial da arte para fazer com que uma pessoa supere as circunstâncias difíceis”, como sucedeu com ele. “O que venho sugerindo é que existe espaço para excelência e qualidade na nossa comunidade – e acho que merecemos isto.” 

Em muitas manhãs você o encontra no clube de boxe local, Elephant in the Room, onde sua abordagem do saco de pancada reflete seu ponto de vista. “Ele improvisa seus golpes. Parece errado, mas funciona”, disse seu treinador, Solomon Maye. “Titus vê uma coisa, mas enxerga para além do que está à frente.” / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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