Márcio Fernandes/Estadão
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Sérgio Telles
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Artistas da fome

Magreza e obesidade podem ser formas defensivas contra a angústia pela perda do corpo infantil e assunção do corpo adulto, afirma psicanalista

Sérgio Telles, O Estado de S. Paulo

18 Abril 2015 | 16h00

Freud diz que nós, forçados a abandonar a onipotência narcísica, ficamos fascinados por aqueles seres que não passaram por isso, como as crianças, as mulheres muito belas e os grandes felinos, tigres e leões. Eles são tão autocentrados, tão satisfeitos consigo mesmos, que não se dão ao trabalho de nos dar atenção. Eles simplesmente nos ignoram. 

Uma fascinação desse tipo ocorre num desfile de moda. As lindas modelos não estabelecem contato visual com ninguém, parecem estar absorvidas em seus mundos particulares, fechadas em redomas indevassáveis. São entes de uma outra espécie, distantes, inatingíveis. Sua artificiosa forma de se movimentar, seus gestos estudados, as distanciam ainda mais das pessoas comuns.

Num desfile, o narcisismo das modelos é reforçado pelo prazer exibicionista de ser olhada e admirada pelo público, que, por sua vez, goza de forma voyeurista. Mas não só. Como os desfiles se constituem em concorridos acontecimentos sociais, os espectadores e convidados também estão ali para ver e serem vistos. Narcisismo, exibicionismo e voyeurismo são os elementos constituintes de um bom desfile de moda.

Os desfiles ressaltam a carga simbólica que reveste as roupagens, que de há muito se afastaram de sua função básica original de nos proteger das intempéries e passaram a ser indicadores significantes de classe social, poder econômico, raízes étnicas e culturais. 

Mais ainda: as roupas se prestam para marcar a diferença sexual, estimulando o olhar erótico ao mostrar e/ou ocultar determinadas partes do corpo, aquela estranha parte de nós mesmos da qual, apesar de sua materialidade espessa, visível e mensurável, temos uma apreensão evanescente e pouco definida. O corpo não é redutível a uma forma orgânica tangível. Ele está transpassado pela fantasia e pelo desejo, e a imagem mental que cada um faz de seu próprio corpo frequentemente não corresponde à sua realidade física. 

Os padrões atuais de beleza - mulheres magras, homens sarados - obcecam especialmente os adolescentes, que perderam a imagem corporal infantil e, em função das mudanças características da idade, estão à procura de uma nova. As preocupações com a aparência do corpo não se encerram na adolescência. Continuam pela vida afora, agravadas pelo inexorável envelhecimento, o que abre espaço para as cirurgias estéticas rejuvenescedoras, muitas delas com resultados desastrosos, senão mutiladores. 

Muitas vezes, ao observar as modelos dos desfiles, constatamos que, apesar de sua beleza extraordinária, elas parecem seres andróginos. A excessiva magreza anula os volumes dos seios e nádegas, as curvas e reentrâncias próprias de seu sexo. O gestual duro e mecânico que adotam na passarela não condiz com a doçura e a sedução tidas como atributos femininos, dando-lhes um aspecto levemente masculinizado. 

Esses seres de sexo indefinido nos evocam a saída da infância, quando tivemos de fazer o luto pelo corpo infantil e pelas fantasias bissexuais, assumindo de uma vez por todas as diferenças entre os sexos, com todas suas complexas consequências. 

A magreza e a obesidade podem ser formas defensivas contra as angústias trazidas pela perda do corpo infantil e assunção do corpo adulto. Os muito magros e os muito gordos igualmente ocultam as formas próprias de cada sexo, numa tentativa de driblar a castração, passagem momentosa pela qual temos necessariamente de transitar para atingir a nossa identidade sexual. 

Comer muito em lautos banquetes ou jejuar piedosamente são hábitos opostos arraigados em todas as culturas. O primeiro é uma das formas mais consagradas de festejo entre as pessoas; o segundo é prática religiosa purificadora, que propicia a superação dos aguilhões da carne. 

Anorexia e obesidade são variações desses hábitos universais, distúrbios alimentares de larga prevalência na clínica de hoje. O que era comemoração e congraçamento social se encaminhou para um solitário empanturrar-se de comida, a elevação espiritual do jejum degradou-se numa exigência fútil da moda. 

Ambos os quadros têm vinculação com a mídia. A anorexia, pela veiculação impositiva de padrões de beleza; a obesidade, pela propaganda de alimentos pouco saudáveis. 

Muito mais decisivo que esses fatores que influenciam a patologia alimentar são os mecanismos psíquicos ligados às experiências primárias com nosso primeiro alimento, o leite materno, e ao mundo fantasmático que então o envolvia. 

Kafka, em seu conto Um Artista da Fome, mostra aspectos importantes da dinâmica inconsciente em jogo na alimentação. Do inicio do século 18 até final do século 19, jejuadores profissionais, que se intitulavam “artistas da fome”, se exibiam em cidades da Europa e América do Norte em turnês muito populares. Os espectadores se divertiam apostando por quanto tempo eles manteriam o jejum ou se o fraudariam, pois muitos eram vistos como farsantes.

O artista da fome de Kafka tem características muito especiais. Ele efetivamente cumpre com seu jejum e jamais tenta enganar o público. Lamenta quando o tempo determinado se esgota e tem de sair de sua jaula para retomar a vida normal. Ele se sente incompreendido, pois, ao contrário do que pensam, para ele o jejuar não é nenhum sacrifício, pois despreza o alimento e gostaria de continuar a jejuar indefinidamente. 

Com o tempo, aquele tipo de espetáculo cai em desgraça, e o artista da fome, antes renomado e gozando de grande prestígio, se vê obrigado a trabalhar humildemente num circo. Em vez de ocupar o centro do palco como antes, sua jaula é colocada perto dos estábulos e dos animais. Ninguém mais se interessa por suas façanhas. As pessoas percebem sua existência apenas porque ele está no trajeto onde ficam as feras que elas vão olhar. Em completo ostracismo, um funcionário do circo o encontra num monte de palha apodrecida no chão de sua jaula, em seus estertores. Antes de morrer, ele diz para o funcionário que jejuava não por não gostar de comer, mas por nunca ter encontrado um alimento que o agradasse. Em seguida, o lugar que ocupava é substituído pela jaula de uma pantera estuante de vida, que se alimenta ruidosamente de grandes pedaços de carne, como, de resto, todas as demais feras do circo.

O artista da fome passou a vida afirmando seu desprezo pelo alimento. Acreditava poder prescindir dele e ser capaz de jejuar sem nenhum limite, como se com isso não colocasse sua vida em risco. Sua arrogância ocultava a infelicidade de nunca ter encontrado o alimento almejado. 

Podemos supor que o alimento desejado e jamais encontrado tenha alguma relação com o seio materno, o primeiro alimento, aquele que representa a relação constituinte com a mãe. Ao dizer que nunca encontrou esse alimento, o artista da fome sinaliza quão insatisfatório foi sua relação com o seio, seja por dificuldades da mãe, que nunca pode lhe dar de forma adequada e prazerosa o “alimento” (amor, carinho, cuidados), seja por dificuldades dele mesmo, pela forma invejosa e voraz, como diria Melanie Klein, com que teria recebido a oferenda materna. De uma forma ou de outra, o resultado foi uma grande frustração, desencadeadora de ódios e culpas, condição possivelmente agravada com o posterior aparecimento do pai. 

O artista da fome age como uma criança ressentida com a “crueldade” da mãe que lhe “recusou” a alimentação desejada. Ele se mostra incapaz de elaborar a perda do seio e substituí-lo por seus derivados e substitutos. 

Ao jejuar, o artista da fome veicula vários e contraditórios sentimentos. Mostra a insatisfação com o alimento oferecido na atualidade, que é desvalorizado por estar muito aquém daquele perdido, idealizado e inacessível. De forma reativa, expressa sua onipotência, afirmando prescindir do alimento, da mãe. Controla a voracidade despertada pelo falta do alimento desejado. Transforma no contrário o desejo canibalesco de devorar vingativamente tudo a seu redor, especialmente aqueles que considera como responsáveis por sua fome insaciável. 

No conto, esses elementos de agressividade oral são representados pela pantera que o substitui na jaula após sua morte. A pantera jamais esconde seu apetite e seu prazer em comer. 

É importante notar que a relação do artista da fome com os animais antecede o aparecimento da pantera. Desde o início do conto o lugar que ocupa durante o espetáculo da fome é chamado de “jaula”. Com o declínio de sua arte, ao ir para o circo, sua jaula é colocada longe do picadeiro, perto da dos animais, das bestas e das feras. Vemos então que, enquanto ele tem de inibir completamente o prazer com a comida, as feras podem satisfazê-lo plenamente - elas comem grandes nacos de carne crua e rugem de satisfação durante a alimentação. 

Essa significativa proximidade com os animais e a atitude oposta frente à maneira como eles se alimentavam denunciam o real motivo de seu jejum. O artista da fome não pode satisfazer seus desejos orais por temer que eles desencadeiem uma voracidade canibalesca que a tudo e a todos destruiria, tendo consequentemente de ser inibida. A melancolia provocada pela introjeção da agressividade o desvitaliza e o transforma num amontoado de “palha apodrecida”, o que inicialmente afasta seu público e termina por lhe roubar a vida. 

O conto de Kafka pode ser entendido como uma elaboração metafórica dos conflitos arcaicos da criança com a mãe. Os sintomas que mais tarde aparecerão no adulto sob a forma de distúrbios da alimentação, como em suas duas vertentes extremas de anorexia e obesidade mórbida, são resquícios desses antigos e decisivos embates. 

SÉRGIO TELLES É PSICANALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE VISITA ÀS CASAS DE FREUD E OUTRAS VIAGENS (EDITORA CASA DO PSICÓLOGO)

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