JF Diorio/Estadão
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As 11 tendências que mudaram a maneira como lemos nos anos 2010

Audiolivros, falência de grandes livrarias, graphic novels e novos protagonismos marcaram a década

Ron Charles, The Washington Post

04 de janeiro de 2020 | 16h00

Cerca de 3 mil anos atrás, um pregador em Eclesiastes proclamou: “Para a feitura de livros não há fim”. Mas a maneira como esses livros são publicados e apreciados mudou drasticamente. Na última década, testemunhamos a indústria se transformar por causa de novas forças econômicas, inovações tecnológicas e hábitos dos consumidores. Aqui estão 11 tendências que mudaram a forma como lemos nos últimos dez anos:

1. As cadeias desmoronaram e as livrarias independentes se reconstruíram. Muito sangue de varejo foi derramado nesta década. A Borders faliu em 2011 e fechou mais de 600 lojas nos Estados Unidos. A Barnes & Noble cambaleou, mas foi salva este ano pela Elliott Management Corporation, que opera a Waterstones na Grã-Bretanha. Para a surpresa geral, o ponto alto desta década de destruição no varejo foi a ressurreição das livrarias independentes. Do fundo do poço em 2009, suas posições subiram mais de 50%. Determinados a não terem meros showrooms para a Amazon, os novos e audaciosos livreiros descobriram como criar conexões com suas comunidades e oferecer uma experiência artesanal que seu inimigo online não consegue proporcionar. A B&N tenta sobreviver imitando o modelo independente e dando mais poder aos gerentes das lojas. Mais uma ironia: a Amazon agora tem 21 livrarias em todo o país – e muitas outras vêm por aí. 

2. Todo mundo começou a ouvir audiolivros. Em 2009, a versão em áudio do best-seller Sob a Redoma, de Stephen King, foi lançada em uma caixa muito prática com apenas 30 CDs. Mas este formato físico já estava condenado. Os downloads digitais vinham crescendo rapidamente. À medida que as plataformas e os dispositivos se tornaram mais convenientes, o mercado de audiolivros teve aumentos de dois dígitos em quase todos os anos da última década. Este ano, metade dos americanos com 12 anos ou mais disse ter ouvido pelo menos um audiolivro. Os editores responderam com produções novas e elegantes que rivalizam com a era de ouro do drama de rádio. No caso mais extremo, o audiolivro de Lincoln no Limbo, de George Saunders, empregou um elenco recorde de 166 pessoas, entre elas Ben Stiller, Julianne Moore e Susan Sarandon.

3. As garotas tomaram o poder. Em 2005, a editora sueca do primeiro romance de Stieg Larsson o batizou Man som hatar kvinnor, ou Os homens que não amavam as mulheres. Mas, quando o livro apareceu em inglês, o título na capa dizia A garota com a tatuagem do dragão. Essa mudança definiu uma tendência que se espalharia pela próxima década. Em 2012, Garota exemplar, de Gillian Flynn, vendeu mais de 2 milhões de cópias. Paula Hawkins impulsionou esse movimento com A garota no trem, que vendeu mais de 15 milhões de cópias em 2016. Esse sucesso atraiu hordas de imitadores pensando no marketing. Mas o fenômeno “Garota” não foi apenas um caso de plagiadores a todo vapor: também anunciou a chegada de uma nova geração de mulheres talentosas invadindo o velho clube da literatura de suspense e mudando as regras do jogo.

4. As graphic novels se tornaram os super-heróis do mundo das letras. Muito tempo depois que Maus, de Art Spiegelman, ganhou o Prêmio Pulitzer em 1992, as graphic novels ainda lutavam para conquistar respeito no mainstream. Mas, na década de 2010, a condescendência desinformada se transformou em entusiasmo radical. Como as vendas se aceleraram mais que bala de revólver, editores, professores, bibliotecários e especialmente Hollywood notaram. Histórias antigas, como To Kill a Mockingbird [no Brasil, O sol é para todos], de Harper Lee, ganharam adaptações gráficas, e escritores tradicionais de ficção e não-ficção, como Roxane Gay, Anthony Bourdain e Ta-Nehisi Coates, se sentiram atraídos pelo gênero. Em 2016, March, o terceiro volume da experiência do deputado John Lewis durante o movimento dos Direitos Civis, se tornou a primeira graphic novel a receber o National Book Award. E, poucas semanas antes do final da década, o Washington Post publicou sua primeira graphic novel: The Mueller Report Illustrated [O relatório Mueller ilustrado].

5. A literatura infantil tomou partido. Os livros para crianças – de fato ou não – se tornaram a mais recente arma na aquecida batalha política dos Estados Unidos. Goodnight Trump, baseado no clássico de Margaret Wise Brown, foi uma das muitas paródias que zombaram do presidente. Mas um segmento diferente desses livros infantis politizados teve a séria intenção de despertar as crianças. Innosanto Nagara publicou A is for Activist [A de Ativista] para tirar as crianças de seus cadeirões e colocá-las nas ruas. Livros sobre Hillary Clinton, Ruth Bader Ginsburg e outros heróis liberais foram agressivamente comercializados para pais liberais. Do outro lado, Rush Limbaugh publicou uma série de romances de viagem no tempo que levam “Rush Reverencia” a momentos patrióticos da história americana. Mas ele volta, infelizmente.

6. EL James tirou a literatura erótica do fundo da gaveta. Desde seu humilde começo postando fanfiction de Crepúsculo sob o pseudônimo de Snowqueens Icedragon, James criou um império literário inestimável. Sua trilogia Cinquenta Tons, originalmente publicada por uma pequena editora australiana, já era um fenômeno quando a Vintage a comprou em 2012 e ampliou seu alcance para todo o mundo. Naquele ano, a Random House ganhou tanto dinheiro com Cinquenta tons que todos os funcionários receberam um bônus de US $ 5.000. No total, James vendeu mais de 152 milhões de cópias, e seus romances foram os livros mais vendidos da década. Mais importante, porém, é que seu sucesso ajudou a desenvolver um mercado viável para inúmeros outros romancistas que escreviam ficção erótica. Observando a enorme audiência que James atraiu, editores e livreiros aumentaram o escopo de suas ofertas para incluir categorias adultas que há muito tempo ficavam nas sombras.

7. A impressão instantânea finalmente se tornou realidade. Durante anos, a promessa de impressão instantânea de livros pairou no horizonte, como a promessa de carros voadores. Nesta década, finalmente aconteceu. Em 2011, a Politics & Prose se juntou a uma crescente coleção de livrarias que podiam imprimir livros de bolso sob demanda, a partir de um catálogo de vários milhões de títulos. A impressão sob demanda combinada às plataformas de e-book de autopublicação foi ainda mais significativa para autores que não conseguiam – ou não queriam – uma editora tradicional. Embora a maioria dos títulos tenha vendido (muito) poucas cópias, alguns escritores de gênero – como Andy Weir e Amanda Hocking – encontraram um sucesso imenso. E a nova tecnologia também permitiu que os editores tradicionais respondessem muito mais rapidamente à demanda inesperada, o que ajudou a reduzir o período em que os livros populares ficam esgotados.

8. Os editores infantis finalmente se interessaram pela diversidade. Em 2014, a Escola de Educação de Madison, da Universidade de Wisconsin, descobriu que menos de 3% dos livros infantis recém-publicados eram sobre negros. Para um grupo de autores minoritários e especialistas em publicações, era hora de enfrentar a insuportável brancura do ser. Usando a hashtag #WeNeedDiverseBooks [Precisamos de livros com diversidade], eles lançaram uma campanha de mídia social que levou à criação de uma organização sem fins lucrativos dedicada a aumentar a representação das minorias nos livros para jovens. Editores e bibliotecários expressaram uma nova determinação para apresentar livros e autores que se parecem mais com os Estados Unidos como um todo. Dados divulgados no mês passado pela Universidade de Wisconsin indicam um aumento de quatro vezes no número de livros infantis sobre pessoas negras e aumentos similares no número de livros de e sobre latinos. #Estamoschegandolá.

9. Os livros políticos se tornaram emblemas políticos. O extraordinário partidarismo desta década alimentou um tremendo mercado para livros polêmicos. Durante o governo Obama, os escritores conservadores Edward Klein, Dinesh D'Souza, David Limbaugh e outros fizeram uma denúncia atrás da outra. Quando Donald Trump assumiu o cargo, esse mercado, apoiado pela TV a cabo, estava muito quente à esquerda e à direita. As glórias ou males que se atribuem a Trump impulsionaram as vendas de denúncias, hagiografias e memórias, quase todas projetadas para confirmar, em vez de fundamentar ou desafiar a lealdade de alguém. O efeito, em muitos casos, foi transformar esses tomos efêmeros em bandeiras de papel, emblemas para proclamar obediências. Essa tendência chegou ao auge nas semanas finais da década, quando o Comitê Nacional Republicano comprou milhares de cópias de Triggered, de Don Trump Jr., para dar aos doadores do partido: o livro como uma lembrancinha de campanha.

10. Os produtores de TV devoraram romances. Sob o modelo antigo, os autores tentavam vender os direitos de seus romances para produtores de cinema, mas a proliferação de plataformas de streaming de TV durante esta década criou novas e vastas oportunidades para escritores de ficção. Game of Thrones, The Handmaid's Tale - O Conto da Aia e Outlander se tornaram programas obrigatórios para milhões. Memórias como Orange Is The New Black, de Piper Kerman, e Shrill, de Lindy West, encontraram vida nova nas telinhas. Os fãs de ficção científica e fantasia foram recompensados com uma galáxia de novas séries, entre elas The Expanse, de James S. A. Corey, American Gods, de Neil Gaiman, e The Magicians, de Lev Grossman. Essa tendência se acelerou no fim da década, com anúncios de que Trust Exercise [Exercício de confiança], de Susan Choi, vencedora do National Book Award, e Narrow Road to the Deep North [Estrada estreita para o norte profundo],de Richard Flanagan, vencedor do Booker, serão transformados em séries. O mais encorajador é a maneira como esses programas de TV remetem as pessoas de volta aos livros originais, criando um círculo virtuoso entre assistir e ler.

11. Bibliotecas e editores entraram em conflito. Na década passada, milhões de leitores descobriram a conveniência de baixar e-books de bibliotecas públicas. Mas nem todo mundo ficou feliz com isso: os editores se preocuparam com a perda nas vendas. Este ano, a Macmillan, uma das cinco maiores editoras dos Estados Unidos, impôs um embargo às compras, restringindo as bibliotecas a apenas uma única cópia de cada e-book durante os dois primeiros meses de publicação – quando a demanda por determinado título normalmente é mais forte. Essa ação provocou críticas generalizadas de bibliotecários e um boicote contra e-books da Macmillan por dezenas de sistemas de bibliotecas em todo o país. Ambos os lados afirmam que o outro está ameaçando sua sobrevivência. (Alerta de ironia: embora uma porcentagem significativa desses downloads de bibliotecas ocorra em Kindles, selos de propriedade da Amazon se recusam a vender e-books para bibliotecas públicas). A Penguin Random House se distanciou da Macmillan e proclamou seu apoio às bibliotecas, por serem agentes promotoras da leitura e da descoberta de livros. Mas essa batalha ainda está esquentando à medida que avançamos para a próxima década. / Tradução de Renato Prelorentzou.

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