As brumas de Mianmar

O olhar de um diplomata brasileiro sobre o país onde o budismo une e radicaliza a sociedade

Marcos Caramuru de Paiva*, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2007 | 23h05

Ouvi o comentário de um guia birmanês na viagem de charrete no trajeto entre Amanpura e Ava, no centro de Mianmar: "Num monastério budista", disse-me Win, "há sempre um monge que guarda a autoridade máxima. É ele quem decide o que será feito. Os demais podem opinar, mas não mandam. A coisa funciona mais ou menos como na vida política. Nós temos um Parlamento, mas não o usamos". Foi exatamente essa a expressão: we do not use it.O tema de que falávamos nada tinha a ver com política. Acabávamos de sair do monastério de Mahagandanyon, o maior do país, onde havíamos parado para assitir à procissão do meio-dia. Cerca de mil monges, descalços e com suas túnicas vermelhas, enfileiram-se nas ruas em torno da área monástica para coletar o alimento do dia. A cerimônia carrega, a um só tempo, um tom solene e simples. As famílias mais abastadas de Amanpura disputam o privilégio de ofertar a comida. Com isso, crêem acumular méritos. Os monges recebem o que lhes é dado sem qualquer reverência ou agradecimento.Win e eu discutíamos por que admitir turistas num momento de convivência coletiva e prazer individual, quando cada um quer comer em paz. Eu achava que os ocidentais comportávamo-nos como intrusos, verdadeiros voyeurs num ambiente que não nos pertencia. Win concordava, mas não sabia bem como evitar as visitas turísticas. Em minha opinião, caberia aos guias assumir o compromisso de não mais levar visitantes a Mahagandanyon. Para ele, a decisão de barrar os intrusos era do monge superior. Em outras palavras, eu partia da visão de que só o entendimento coletivo poderia mudar uma prática equivocada. Win, como bom asiático, acreditava apenas na força da autoridade. DILEMA DEMOCRÁTICONo dia anterior à visita a Mahagandonyon, havíamos trocado impressões genéricas sobre a vida em Mianmar. Win havia feito um comentário que me pareceu merecer uma longa reflexão: "Num país budista nesta região do mundo", disse ele, "é difícil fazer vigorar um regime político aberto. Os budistas rejeitam a confrontação, o desentendimento, e a democracia pressupõe o debate aberto e a disputa permanentes".Quem vive na Ásia dá-se conta de que os asiáticos tendem a ter baixo apetite pelo confronto direto. Mesmo assim, o comentário surpreendeu. O budismo, em essência, nada tem de conformação. Além disso, Mianmar tem uma história de conflitos que contraria o lema pacífico do budismo. Lutou três guerras contra os ingleses, antes de render-se à posição de colônia; esteve por longos períodos mergulhada em conflitos externos e em disputas entre as várias etnias que compõem sua população: os shans, os chins, os kachins, os kayahs, os kayins, os mons, os nagas, os rakhains, os was e a etnia dominante que, por muito tempo, deu o nome ao país: os bamares ou birmaneses. Mianmar é o lugar mais intrigante do Sudeste Asiático. Desperta o prazer estético e a reflexão. O país vive ensimesmado, sem relação direta com o mundo de hoje. A era da globalização e dos mercados sem fronteiras ainda não teve vez ali. O campo guarda práticas medievais; a indústria funciona com teares e máquinas que remetem aos primeiros tempos da Revolução Industrial. Ao lado disso, as grandes cidades vivem um ambiente de desorganização com ar de anos 50. À noite as ruas são escuras. De dia, sobretudo na cidade de Rangum, vêem-se milhares de pessoas à cata de emprego ou de resolver problemas burocráticos, em prédios públicos maltratados, ainda da época da colônia, ou recorrendo a despachantes de rua, que lhes preenchem formulários com máquinas de escrever anteriores às elétricas, que há mais de três décadas estão fora de mercado. Theravada, a corrente budista mais conservadora de Mianmar, é a grande força de coesão da sociedade e satisfação do indivíduo. Cerca de 90% da população é budista. Toda a vida se passa em torno de templos, imagens múltiplas de Lord Budha, construções em sua homenagem, algumas monumentais, como o templo principal de Rangum, Shwedagon, onde a torre central, em forma cônica com o cume arredondado, leva 60 toneladas de ouro. A paisagem humana e arquitetônica surpreende o visitante mais cético. A vista dos mil pagodes e estupas na área arqueológica de Bagan, cobertas de cal ou tijolo, contra a vegetação desigual da planície, é estonteante. Deixa poucas dúvidas de que o visitante esteja diante de um dos grandes monumentos da humanidade. Bagan teve seu apogeu nos séculos 11 a 12, antes de ser invadida pelos mongóis. Suas construções históricas só se comparam na região, em beleza e imponência, às ruinas Khmer de Angkor, no Camboja, também dos primeiros 200 anos do segundo milênio. O TEMPO PÁRAO interior do país guarda práticas e costumes centenários. A vida comunitária é tudo e o compromisso religioso central. Todas as famílias mandam seus filhos para um monastério em algum momento da infância ou da adolescência. Os mais ricos celebram a ocasião patrocinando uma festa, com banda e comida gratuitas para o povoado local e os vizinhos. Nelas, os meninos se vestem de príncipes e desfilam em cavalos engalanados, antes de raspar a cabeça, vestir o pano vermelho dos monges, seguindo o exemplo do próprio Buda, que deixou um ambiente abastado, mulher e filho para procurar sua verdade com despojamento. Alguns dos noviços ficam apenas alguns dias nos mosteiros e regressam às casas paternas. Outros alongam o tempo e, em algum momento, retomam a vida secular. Outros, ainda, os que verdadeiramente orgulham os pais, passam de noviços a monges e se dedicam à compreensão dos textos budistas e à meditação. Os monastérios são escolas de aprendizado intelectual e de formação da disciplina e valores individuais.Em todo o país a indumentária é local. Os homens vestem-se com longjis de algodão e sandálias de dedo. As mulheres também privilegiam os longjis (a diferença está na forma de amarrar o sarong), embora às vezes apresentem-se com cortes ocidentais. Estão quase sempre bastante maquiadas ou passam no rosto um creme de proteção solar e amaciamento da pele chamado tanaka, que se lhes fixa com a aparência de uma pincelada de tinta dada a esmo numa parede, apenas para testar a cor e a textura. Há mercados em toda parte, vendendo comida, roupas, escrituras antigas e só aparentemente antigas, histórias de Gautam Data com quadrinhos coloridos e texto, objetos de bronze, colares de jade, tecidos de seda e algodão, laca de poucas camadas. A boa laca tem que levar 7 a 14 camadas de tinta. É excelente em Mianmar, mas só é possível encontrá-la em locais especializados. Cartão de crédito tem quase nenhuma aceitação. Telefones celulares há tão poucos que não são visíveis no dia-a-dia. Computadores são peças raras. A internet funciona com muitas falhas e permanente controle.Tudo isso num território do tamanho da França, com uma população de 52 milhões, o país mais rico do Sudeste Asiático até o final dos anos 40, enquanto alguns de seus vizinhos, hoje prósperos e avançados, viviam mergulhados no atraso.DISTANTE DO TODOO que mais faz refletir sobre Mianmar é a distância da modernidade. Em seu entorno, a China, a Índia, a Tailândia e, um pouco adiante, a Malásia e Cingapura abraçaram os rumos da mudança, crescem a taxas elevadíssimas, transformam radicalmente suas realidades internas. Há outros países no Sudeste Asiático, como o Laos e o Camboja, que estão igualmente atrás dos que avançaram, mas eles não têm a história de prosperidade de Mianmar. Não saíram da liderança em matéria de geração de riqueza e passaram para o fim da fila. É aí que o tema levantado por Win pode ter algum significado.No Sudeste Asiático, a oferta de liberdades individuais e de democracia liberal nos moldes ocidentais é limitada. Na verdade, a própria demanda é limitada. A oferta responde, em parte, à falta de procura. O asiático do sudeste tem dificuldade em conviver em um mundo em que não há limites ao indivíduo. Em todos os países onde se registram diversas etnias, com culturas e religiões arraigadas - sejam budistas, taoístas, muçulmanos, hinduístas ou mesmo cristãos - tolerância e respeito mútuo são pontos capitais, mais importantes que a proposta de garantir ao indivíduo espaço livre para a expressão de suas idéias. Ao mesmo tempo, a diversidade torna difícil formar consensos. A expectativa é que a liderança estabelecida, no melhor espírito confucionista, tome as rédeas da vida nacional e trace o caminho a ser seguido.AS MUITAS NAÇÕESEntender a vida em sociedades com muitas etnias e pouca mescla não é trivial para um cidadão brasileiro. Por mais que tenhamos uma multietnicidade, e ainda que recentemente se tenha ampliado entre nós a discussão sobre a abertura de oportunidades para as etnias menos favorecidas, há uma uniformidade na nossa cultura, resultante de séculos de miscigenação. Estamos longe das realidades asiáticas, onde a diversidade é tão forte e tão presente que se tornou um valor a preservar. O próprio conceito de nacionalismo é obscurecido. E a organização política assume uma forma obviamente diferenciada da democracia liberal do Ocidente. "A democracia é quase impossível num país composto por nacionalidades distintas." A frase é de John Stuart Mill, mas não está distante do que se vê no mundo de hoje do Sudeste Asiático.Mianmar tornou-se independente em 1948. Quatorze anos depois, em março de 1962, o Governo democrático foi deposto por um golpe militar. Os estudantes que, naquele momento, saíram às ruas em protesto foram contidos à bala. Nunca se determinou exatamente quantos perderam a vida: se 14, a estimativa oficial, ou 100, o cálculo dos manifestantes que sobreviveram. Vinte e seis anos depois, os estudantes voltaram a protestar. Naquele momento, houve uma mudança na liderança do partido no poder, e o Partido do Programa Socialista da Birmânia (BSPP) passou a aceitar a realização de eleições. Outros 20 anos e, em 2007, os monges ocuparam a rua para pedir mudanças. Na essência da discussão política em e sobre Mianmar está o fato de que os militares perderam as eleições de 1990 e se mantiveram no poder, sem ceder o comando da nação, reprimindo duramente a crítica e levando à prisão a líder vencedora, Aung San Suu Kyi. Ao lado disso, coloca-se a questão da ética no Estado, ou seja, avaliar o grau de compromisso dos governantes com o bem-estar dos cidadãos. Este é um tema universal, mas, em Mianmar, ganha dimensão própria, dado o baixo grau de desenvolvimento e seu distanciamento do resto do mundo. O TETO, O CHÃODentro de Mianmar, o debate sobre essas matérias tem complexidade. Sua base está nos ensinamentos budistas. É inconcebível reduzi-lo à perspectiva puramente secular que domina o debate fora das fronteiras. Isso, por si só, torna difícil compatibilizar as visões interna e externa sobre o país, já que muitos dos que, no Ocidente, abraçam a causa da liberdade em Mianmar desconhecem os fundamentos budistas. Protestam em solidariedade, tomando como referência valores ocidentais de proteção do indivíduo e direito à manifestação. Shway Yoe, pseudônimo de J.G. Scott, britânico que residiu no país no final do século 19 e se tornou o mais importante comentarista da vida e dos costumes locais, disse uma vez que o maior presente que um birmanês podia dar a um inglês era desejar-lhe que, em recompensa por suas boas ações, ele renascesse budista e, de preferência, na Birmânia. No cidadão de Mianmar há um espírito de orgulho por sua terra e sua cultura que impressiona e usualmente se sobrepõe às dificuldades do dia-a-dia. Vivendo num país que enfrenta anualmente o período de monções, o birmanês, contrariando o senso comum, costuma dizer que é no teto, e não na base, que está o risco da casa. Quando chove muito, o teto vaza e põe a construção em perigo. Em outras palavras, é no topo que as reformas têm que ser empreendidas. Os que não estão no comando podem motivá-las, mas elas têm que vir sempre dos que detêm a autoridade. Isso explica talvez o protesto silencioso de San S Kyi, à espera de mudanças, confessadamente dedicada à meditação, dentro da visão budista de que se os líderes aprimorarem o espírito, exercerão melhor seu papel. Isso esclarece também tudo que o meu guia birmanês quis me transmitir e, no melhor padrão ocidental, eu contestei, sem entender o verdadeiro sentido da mensagem. * Marcos Caramuru de Paiva é embaixador do Brasil na Malásia e no Brunei. Seu artigo não reflete posições oficiais

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