As civilizações também morrem: poucos aceitam que a próxima cultura a sumir pode ser a ocidental

Egito faraônico, Mesopotâmia, Grécia e Roma antigas, astecas, incas e maias. Todos lembram das culturas que sumiram, mas poucos aceitam que o Ocidente pode estar caminhando a passos largos para isso

Hilário Franco Junior, Impresso

31 Dezembro 2016 | 16h00

Para os contemporâneos de qualquer época é sempre difícil fazer balanços, falta a indispensável perspectiva histórica que só o tempo fornecerá. Mas a insatisfação e a inquietude do mundo ocidental são hoje bem palpáveis. Em quase todos os países a maioria da população está descontente, deseja mudanças, por isso opta pelo Brexit, elege Trump, flerta com os extremismos. Ao mesmo tempo, o medo de reformas é inegável: no recente referendo italiano, dos 58% que votaram “não” à reforma constitucional, metade sequer sabia claramente o que rejeitava. Na Europa e nos EUA os povos buscam um passado idealizado, na América Latina um futuro que nunca chega.

Em todo o Ocidente um grupo soi-disant bem-pensante critica os populismos, sem reconhecer sua participação na emergência deles. Nas últimas décadas ele quis acreditar que poderia obter a inclusão social dos desfavorecidos, nacionais ou estrangeiros, por meio de decretos, patrulhamentos comportamentais e discursos agressivos e censórios, justificados por uma suposta superioridade moral. Essa doutrina do politicamente correto, autoritarismo de boas intenções, não poderia deixar, mais cedo ou mais tarde, de gerar reações na maioria silenciosa, que tem dificuldade em aceitar um multiculturalismo cujos benefícios ainda estão por provar, e que lhe é impingido com ardor por uma minoria engajada. Por não perceber isso, é que houve estupefação diante dos 59 milhões de votos de personagem tão inculto, truculento, misógino, homofóbico e racista como Trump.

A divisão ocidental é profunda, a democracia tal como a conhecemos, advertiu Obama recentemente, pode estar em vias de extinção. E de fato, a cada nova eleição ou referendo com estreita vantagem do vencedor o resultado tem sido o aprofundamento das cisões. Foi assim com a escolha de Dilma, Trump, Rajoy, os referendos do Brexit e de Renzi. No dia seguinte a este último, o editorial do La Repubblica diagnosticou um país em “clima de guerra civil sem armas”. A necessidade de rever as regras da democracia é óbvia, porém trata-se de vaca sagrada que ninguém quer tocar mesmo morrendo de fome diante dela.

A França é bom exemplo: nenhum governo consegue fazer as reformas estruturais necessárias, pois a cada decisão importante “a rua se manifesta”, alguma fração da sociedade questiona fortemente, ocorrem manifestações e contramanifestações que comprometem a harmonia social. A democracia representativa é posta em causa, porém a democracia direta defendida por alguns e que foi viável nas pequenas cidades-Estado da Grécia antiga, não o é nos Estados modernos de dezenas ou centenas de milhões de cidadãos.

Na Europa do sul, alguns partidos advogam o não pagamento da dívida externa, “imoralidade” que sufoca suas economias e o padrão de vida de seus povos, sem reconhecer a imoralidade de tomar algo e não devolver, sem admitir que os gastos eleitoreiros dos governos (isso também não é populismo?) geram a dívida. Contudo os governantes são reflexo de seus cidadãos. E estes querem mais direitos que obrigações, todos vivem mais tempo e não pretendem trabalhar mais, todos exigem serviços públicos gratuitos de qualidade e impostos baixos: que paguem hoje os credores estrangeiros e amanhã as próximas gerações nacionais.

Em toda parte o discurso predominante acusa as elites de todos os males, sem perceber que o problema é exatamente o inverso – faltam verdadeiras elites, literalmente entendidas como “os melhores, os mais qualificados” de uma comunidade, de uma nação. Como carecem verdadeiros homens de Estado, cultos e corajosos, seus pobres substitutos limitam-se a aprofundar a velha política romana do “pão e circo”. O pão, mais do que conquistado pelo bíblico “suor do rosto”, é fornecido pelo Estado sob a forma de inúmeras alocações sociais e, no futuro, se a ideia em estudo em vários países vingar, um “rendimento universal” pago desde o nascimento a todo cidadão sem necessidade de contrapartida! O circo é estimulado por programas de auditório, reality shows, imprensa cor-de-rosa, competições esportivas, redes sociais. Os avanços do presente não são sociais, políticos, éticos, culturais, são tecnológicos, e várias vezes estes comprometem aqueles: qualquer indivíduo se sente em condições de opinar sobre tudo, de divulgar meias mentiras e mentiras inteiras, de recrutar terroristas, e pode fazê-lo em escala global.

Egito faraônico, Mesopotâmia, Grécia e Roma antigas, astecas, incas e maias. Todos lembram destas civilizações brilhantes que desapareceram, poucos talvez aceitem que a civilização ocidental pode estar caminhando a passos largos para isso. A trajetória é semelhante à daquelas: interesses de pequenos grupos sobrepostos aos do todo; apatia que redunda em retração cultural, demográfica e econômica; penetração, admitida numa fase, sujeitada noutra, de povos com outros comportamentos, valores, idiomas, religiões. A necessidade de o Ocidente se autorreformar em profundidade é urgente, embora não se deva colocar nisso muita ilusão, como advertiu Tomás More exatos 500 anos atrás, na sua Utopia: “reconheço de boa vontade que existem na república utopiana muitas coisas que eu desejaria ver nas nossas terras, coisas que desejo, mais do que espero”.

HILÁRIO FRANCO JÚNIOR PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA DA USP E AUTOR DE A IDADE MÉDIA, NASCIMENTO DO OCIDENTE (BRASILIENSE)

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.