Ken Regan/Camera 5
Ken Regan/Camera 5

As contradições do Festival de Woodstock, 50 anos depois

Nem tudo em Woodstock foi paz, amor e música, como o lema do festival pretendia

Jon Pareles, The New York Times

10 de agosto de 2019 | 03h00

Cinquenta anos depois, ainda guardo dois ingressos do Woodstock Music and Art Fair de 1969. Cada um custou US$ 18. Na época, meu irmão (que, ao contrário de mim, tinha idade para dirigir) e eu caminhamos até o festival do local onde deixamos o carro, à beira de uma estrada rural congestionada. Ninguém possuía ingresso e as cercas instaladas pelos organizadores em torno da fazenda de Max Yasgur em White Lake, subdivisão de Bethel, no Estado de Nova York, foram logo derrubadas. Assoberbados e despreparados, os promotores do evento declararam que Woodstock era um festival gratuito e deram as boas vindas para as hordas que não conseguiram expulsar.

À medida que centenas de milhares de pessoas continuavam a chegar, a música e a mística tiveram início, junto com a chuva, a lama, a sensação inebriante de fazer parte de uma multidão inesperada, as previsões de desastre, os helicópteros – trazendo músicos e alimentos, prestando socorro médico –, os shows desequilibrados, as ondas de euforia e desconforto, a natureza implausível de todo o evento.

Como crítico de música, estive em dezenas de festivais desde então, e nenhum foi tão improvisado, precário e revelador. Woodstock era um experimento que, como todos pareciam perceber, podia dar errado a qualquer momento – apenas quatro meses depois, realmente tudo deu errado com seu sucessor na Costa Oeste, o festival de Altamont. Mas Woodstock foi uma epifania. Muitos dos melhores artistas da época estavam na lista: Jimi Hendrix, The Grateful Dead, Creedence Clearwater Revival, Janis Joplin, Sly & the Family Stone e Jefferson Airplane, além de um set explosivo do Who, recebido como um bônus britânico.

Eu estava bem próximo do palco para assistir aos concertos e ali permaneci, de modo que perdi muitas atividades idílicas e hedonísticas que me foram relatadas por outros presentes. Woodstock foi um breve momento que ofereceria lições contraditórias para as gerações futuras. Era entretenimento que momentaneamente tinha ares de uma rebelião – um “festival de paz e música” que pressupunha a arte como uma realidade alternativa. Os concertos de rock, os happenings, o “estar-junto” e as manifestações de amor – tudo isso fazia parte da revolução cultural dos anos 1960, mas eram eventos locais e não reuniões do tamanho de uma cidade. Woodstock estava numa escala diferente. Fez jus ao lema “paz e música” ao reunir uma comunidade inesperadamente grande e fraternal; e tinha em perspectiva o prazer como uma solução para a discórdia social e não apenas um desvio dela. (O que não avançou.)

Mas Woodstock também lembrou as pessoas mortas no Vietnã; as contínuas viagens de helicóptero, audível nas gravações de música ao vivo, eram lembranças constantes da tecnologia militar. A melhor música sobre o festival, Woodstock, de Joni Mitchel (ela não estava entre as atrações) imagina aviões bombardeiros transformados em “borboletas”.

E, mais importante, Woodstock mostrou para pessoas que se achavam bizarras que elas não eram uma pequena minoria como imaginavam. Robin Williamson, da Incredible String Band, durante uma passagem de som, disse, maravilhado: “A coisa que me surpreende é quantos somos.”

Para os que estavam friamente vendo apenas os números, mesmo em 1969, Woodstock permitiu identificar um segmento enorme e promissor do mercado jovem, pronto para ser explorado comercialmente, o que se seguiu quase que imediatamente. A “Woodstock Nation”, apesar das esperanças de Abbie Hoffman quando cunhou o termo, transformou-se em força demográfica e nãoem uma força política.

Em cada festival deste Woodstock – Bonnaroo, Reading, Coachella, Electric Zoo, Rock in Rio, mesmo o primeiro Lollapalooza –, o público tem sido tratado mais como consumidor do que como cruzada. Woodstock foi diferente, uma experiência que ainda estava amplamente em formação. Mas uma das principais lições que ofereceu foi uma das mais óbvias: as pessoas gostam do que é grátis.

Eu tive de reajustar minhas lembranças distantes à luz de uma cuidadosa documentação do 50.º aniversário do festival. O filme de 1970, Woodstock, dirigido por Michael Wadleigh – que ajudou a recuperar os prejuízos financeiros do festival – foi editado, disseminando imagens comemorativas e reforçando a aura de Woodstock que já tinha sido difundida pelo boca a boca. Mas este ano uma réplica bem mais completa de Woodstock está disponível. Um projeto heroico de recuperação de todas as fitas de áudio preservadas do evento; Rhino está lançando 10 CDs, cinco LPs, três compilações em CD e um pacote fascinante, exaustivo e às vezes extenuante de 38 CDs. Para mim, depois de 50 anos, é um déjà vu revisionista e alarmante.

O conjunto de CDs tem a vantagem dos microfones ao vivo e das gravações feitas constantemente dos bastidores e do palco. Os produtores de Woodstock não calcularam exatamente os problemas de tráfego, segurança, iluminação, alimentação, assistência médica ou toaletes, mas a filmagem e as gravações do evento foram meticulosas.

Todos os anúncios entre as apresentações eram uma crônica de indivíduos tentando encontrar um ou outro (não havia celulares em 1969) e apelos para a multidão se controlar; para que aqueles que vinham para o festival ficassem fora das estradas de acesso, das torres de som, das frágeis tubulações de água. A voz exasperada e cansada de Chip Monck ficava cada vez mais alta.

Deixando de lado a lenda, Woodstock não significou apenas boas vibrações. Delinquentes distribuíam ácido ruim em múltiplas cores, não só as marrons como mostrou o filme. As fitas recuperadas capturaram as tensões entre as pessoas de pé na frente e aquelas sentadas atrás que não conseguiam ver o palco. Como ocorreu no Woodstock’99, havia um profundo descontentamento com os preços dos vendedores de comida. Em 1969, a Hog Farm, comunidade hippie, providenciou comida nos três dias. Tínhamos a segurança de que, pelo menos minimamente, alguém cuidaria de nós. E isto foi essencial em Woodstock. Ilusória ou não, alguma abundância estava garantida. Era o fim de uma década próspera e de uma economia otimista impulsionada pelos gastos domésticos e, ironicamente para os pacifistas, pelo boom da manufatura da guerra do Vietnã.

Estatisticamente, 1969 foi o último ano em que os Estados Unidos registraram um superávit orçamentário até 1998, e a mentalidade estrita que se implantara com a recessão vivida na década de 1970 não retornou, em absoluto. O ideal hippie era ignorar ou escapar do sistema, não entrar no jogo dele. E a noção de que toda transação é um jogo de soma zero – se alguém ganha, o outro perde – não se fixou. Nos anos 1960, o sentimento era de que não havia o suficiente para todos. Mas os que participaram do festival de Woodstock não eram egoístas, existia uma solidariedade pateta. A ciência social define como “uma tragédia dos comuns” quando recursos de uma sociedade sustentável são consumidos no curto prazo por interesses egoístas individuais, mas Woodstock, durante aquele longo fim de semana de 1969, foi mais uma comédia dos comuns. Juntas na lama, muitas pessoas riam dos desconfortos e compartilhavam. As drogas provavelmente ajudaram.

Mas deixemos de lado a nostalgia. Os millenials têm direito de enfatizar como Woodstock representou os privilégios dos baby boomers de forma cristalina. Tivemos uma maratona de concertos de grandes estrelas gratuitamente. Superlotamos uma fazenda de laticínios e os arredores. E achávamos que estávamos no centro do universo. E depois alguém teria de limpar a gigantesca imundície que deixamos para trás. Mas não importa; sinto-me um felizardo por ter estado em Woodstock. Nunca mais vivenciaríamos momentos tão livres e soltos novamente. / TRADUÇÃO TEREZINHA MARTINO

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