Columbia Pictures
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As disputas eleitorais imaginárias na literatura e no cinema

Pleitos em romances de Sinclair Lewis, Nathanael West e Philip Roth ilustraram e anteciparam aspectos da realidade

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2020 | 16h00

Quando dia desses peguei Um Som de Trovão para reler, ainda me lembrava das cores da borboleta (verde, dourada e preta) esmigalhada por uma das botas que Eckels, protagonista da história, usara numa caçada na pré-história. Esse conto de Ray Bradbury, que muito me marcou na adolescência, foi minha escolha instantânea numa enquete da internet sobre “o que ler para acompanhar a eleição presidencial americana” da semana passada. 

Escolha aparentemente esdrúxula, na medida em que o conto se ocupa de um safári de dinossauros e outros animais jurássicos proporcionado por uma máquina do tempo, não uma aventura eleitoral. Ocorre que, no início da imaginosa narrativa, dois candidatos disputam a Casa Branca, e no seu desfecho descobrimos que afinal deu zebra — e o franco favorito perdeu, por obra do “efeito borboleta”. 

Foi assim: quase ao final do safári, Eckels, o caçador, pisara distraído numa borboleta não programada para morrer, alterando o curso natural das coisas, inclusive o resultado da eleição. Ao voltar ao tempo presente (no caso, a 2055), Eckels sentiu tudo, até o ar, meio estranho; e especialmente incômoda a vitória de Deutscher, o candidato com vocação ditatorial, sobre o democrático Keith, pule de dez no pleito. 

Creio ter sido o único da enquete a destacar um relato em que o tema eleição presidencial aparece de forma tão oblíqua e fugaz, embora com sucedâneos apreciáveis de Trump (Deustcher) e Biden (Keith). Desta vez, ninguém pisou numa borboleta, nem se ouviu um som de trovão.

As escolhas óbvias teriam sido os pleitos imaginários dos romances de Sinclair Lewis, Nathanael West e Philip Roth, sobre os quais já falei aqui, mas queria me desprender um pouco de distopias e, acima de tudo, evitar aquelas paráfrases ambientadas em autocracias siderais e relatos sobre sequestros de políticos de Washington por ETs. 

No calor do duelo entre Biden e Trump, boa parte do comentariado político polvilhou suas análises com referências literárias e cinematográficas que iam do previsível ao esotérico. A colunista Maureen Dowd, do New York Times, que não atravessa dois parágrafos sem um paralelismo cinematográfico, chegou a comparar a atual fase do governo republicano a “Sharknado—Parte 3”, tal a quantidade de metafóricos tubarões dentro e fora dele.

“Diabo a Quatro” (Duck Soup), com os Irmãos Marx, e “Doutor Fantástico”, de Stanley Kubrick, são os dois banzés da tela que mais se aproximam, a meu ver, do caos nacional há quatro anos promovido pelo ogro alaranjado. Trump é um Rufus T. Firefly sem a graça de Groucho e Peter Sellers seria seu mais autorizado intérprete numa paródia ainda a ser feita. Pena que Mel Brooks esteja aposentado. 

Às primeiras recusas histéricas de Trump a admitir sua derrota, Gail Collins, também colunista do Times, equiparou-o ao Coringa, enquanto um colega seu, mais literário, viu no presidente a reencarnação do negacionista Bartleby, o excêntrico escrivão de Herman Melville que sempre recusa serviço e o que não seja do seu agrado com o elusivo bordão “Eu preferia não fazer”. Donald “Bartleby” Trump prefere não admitir que Biden venceu e ele, Trump, é o “loser” (perdedor) mais estridente e ridicularizado da América.

Bons romances foram escritos sobre disputas eleitorais na América. O mais lido, Todos os Homens do Rei, de Robert Penn Warren, ganhou o Pulitzer e sua primeira adaptação ao cinema, um Oscar. Sua eleição, porém, não era presidencial, mas estadual. O que facilitaria a prevalência, nesse ranking, de O Candidato da Manchúria, também já filmado duas vezes. 

Tem de tudo o excitante thriller político de Richard Condon: conspiração comunista visando interferir na eleição presidencial americana, lavagem cerebral, um herói da Guerra da Coreia transformado em terrorista, e um misto de Jocasta e Lady Macbeth, mãe do terrorista, que, se tivesse tido outro filho, nem precisaria batizá-lo Donald John para ter em casa um segundo terrorista. 

Em geral são thrillers as ficções especulativas em torno de eleições à Casa Branca. Algumas com viés cômico e sob influência das paranoias da Guerra Fria. 

Em The Wanting of Levine, publicado em 1978, Michael Halberstam imaginou um auspicioso candidato à presidência que mata a mulher no meio da campanha, abrindo caminho para um um improvisado e obscuro correligionário, além do mais judeu, o Levine do título. Não darei spoiler. 

Imaginem um presidente popular indicando para sucessor um bem quisto colega de partido, Derek Townes, que descobrem ser, na verdade, um agente soviético—e, mais do que isso, um espião convicto de que é a reencarnação de Trotski. Era esse o ponto de partida de Trotsky’s Run, de Richard Hoyt, publicado em 1982. Calculem o pânico na Casa Branca. Calculem o pânico no Kremlin, com um vingativo avatar de Trotski à solta. 

Nove anos atrás, o prolífico Jim Lynch produziu um relato futurista das eleições de agora—The 2020 Players—que talvez valha a pena ler, por pura diversão, e confrontá-lo com o que realmente aconteceu nos últimos 12 meses deste ano, para nós praticamente encerrado com a derrocada de Trump e a patética ameaça de guerra de Bolsonaro aos Estados Unidos de Biden.

O elenco de “atores” de 2020 escalados por Lynch inclui um presidente que se recusa a concorrer à reeleição, um candidato casado com uma cantora e ativista política, um segundo candidato independente, um perigoso industrial chinês, uma agente da CIA, terroristas americanos e internacionais, e sobas de teocracias sentadas sobre a Bíblia e o Corão. Uma fauna tão ridícula quanto assustadora, como a que vimos e vemos todos os dias no noticiário.

 

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