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As duas vidas de Raimundo

O trilho caiu do guindaste e encerrou uma existência em obras - entre a periferia de São Paulo e o interior do Piauí

Ivan Marsiglia, de O Estado de S.Paulo,

19 de dezembro de 2009 | 16h18

SÃO PAULO - Raimundo tinha nome, sobrenome e dois endereços. Na segunda-feira, um trilho surgiu no caminho desse piauiense de Piracuruca. Um trilho de metrô, de 700 quilos e 12 metros de comprimento. A peça despencou do guindaste operado pelo baiano Genivaldo, natural de Jeremoabo, nas obras das futuras Estações Tamanduateí e Vila Prudente, em São Paulo. Bateu de ponta no chão e tombou em cima de um grupo de operários, que correram. Ao lado dele, o maranhense Lindomar, de Presidente Dutra, gritou. Mas Raimundo não pôde se desviar. Ergueu o braço, inutilmente, em instinto para proteger o rosto. Capacete, luvas e colete de segurança não serviram para amortecer o impacto, no lado da cabeça. Raimundo morreu na hora. Coisas que acontecem.

 

No boletim de ocorrência 5774/2009, lavrado no 56º Distrito Policial, de Vila Alpina, o "operário" das manchetes de jornal da última semana chamava-se Raimundo Maria de Almeida, 49 anos, carpinteiro, contratado pela construtora Galvão Engenharia, licitada pelo governo do Estado para executar a extensão do metrô.

 

Raimundo tinha duas casas, entre as quais se dividia ao longo do ano. Desde setembro, estava na batalha na capital paulista, enquanto a família o esperava 2.598 quilômetros rodoviários dali, no município de Batalha, no Piauí. Uma rotina que ele cumpria desde 1979 - e é prática de um contingente cada vez maior de migrantes temporários nordestinos, atraídos pelo boom da construção civil no País.

 

"Eu estava a um metro dele, para bem dizer. Por um milagre de Deus o trilho não me pegou", conta o também carpinteiro Raimundo Nonato Rodrigues de Moraes, de 33 anos, ex-vizinho da vítima em Batalha - um lugar onde quase todo mundo se chama Raimundo. "Fiquei tão nervoso que passei mal. Tiveram que me levar para a enfermaria." Raimundo Nonato conta que Raimundo Maria queria mudar de vida. Que em janeiro ia-se embora, ficar de vez no Piauí. Que trabalhava desse jeito, indo e voltando, desde os 19. "Mas aí veio a fatalidade, né, senhor?"

 

A palavra é a primeira a aparecer após um acidente de trabalho no Brasil. A nota divulgada na mesma noite pela Galvão Engenharia, prometendo apurar as "prováveis causas" do acidente, começa com uma sintomática redundância: "Comunicamos e lamentamos a fatalidade da morte de Raimundo Maria de Almeida..."

 

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil em São Paulo (Sintracon), o paraibano Antonio de Souza Ramalho, de 60 anos, não aceita essa hipótese. "Acidentes têm causa e culpados, seja por falha de equipamento, descuido da empresa ou desatenção do trabalhador." E, embora considere cedo para se tirar qualquer conclusão, estranha o fato de que a área sob o guindaste não estivesse completamente isolada durante sua operação - prática que consta, diz, da Norma Regulamentadora NR 18, do Ministério do Trabalho e Emprego. A empresa afirma ter seguido "estritamente" essas regras. Mas o sindicalista relembra: "Em 1999, uma pedestre morreu em frente a uma obra, em plena Avenida Paulista, dessa forma."

 

Ramalho se refere à estudante Milene Modesto, de 28 anos, que perdeu a vida ao ser atingida por um carrinho de construção de 40 quilos na calçada, que caiu de uma grua a 92 metros de altura. Após quase uma década de litígio na Justiça, o artista plástico Wagner Morales, marido de Milene, obteve uma sentença favorável na 16ª Vara Cível do Foro Central da Capital, mas a empresa responsável pela obra, a construtora Romeu Chap Chap, e a operadora do guindaste, a Grumont, recorreram. "Decidi que não faria nenhum acordo financeiro, porque quero uma condenação exemplar, que leve a uma responsabilização de fato", diz Wagner.

 

Aparentemente, um impasse semelhante se desenha no caso do operário Raimundo. "Se ficar comprovado que houve falha, a cadeia de responsabilidade começa pela empresa que operava a grua, a Verbel Guindastes, depois a Galvão Engenharia e, só então, a administração do Metrô", explica o delegado Marcos Gomes de Moura, da 3ª Delegacia do Meio Ambiente e Relações de Trabalho (DMART), para onde a investigação foi encaminhada. O laudo que o Instituto de Criminalística de São Paulo prepara sobre as circunstâncias do acidente fica pronto em trinta dias.

 

Enquanto a Justiça caminha lentamente, os acidentes de trabalho apertam o passo. Para ficar somente nas obras do metrô, em outubro de 2006, o operário José Alves de Souza, de 56 anos, morreu soterrado em um túnel da futura Estação Oscar Freire. Três meses depois, o desabamento do canteiro de obras da Estação Pinheiros matou outras 7 pessoas.

 

Uma pesquisa do Sintracon revelou que o número de óbitos na construção civil na cidade de São Paulo saltou de 7 em 2008 para 23, até agora, em 2009. E a divulgação, esta semana, do Anuário Estatístico de Acidentes de Trabalho 2008, pelo Ministério da Previdência Social, revelou um aumento de 13,4% no número de ocorrências - das mais corriqueiras às mais graves - em todo o País em relação a 2007. Entre as capitais, São Paulo é a primeira do ranking.

 

MATADOURO, BATALHA (PI)

 

De alvenaria, com duas salas, dois quartos, cozinha, banheiro e varanda, a casa da família de Raimundo é boa para os padrões da cidade. Fica no bairro de Matadouro, um do mais carentes do município de 25.791 habitantes localizado 155 quilômetros ao norte de Teresina. A residência na Rua Fausto Rocha, nº 83, foi construída aos poucos e com esmero pelo carpinteiro. Em uma das laterais da fachada funciona o pequeno comércio que Raimundo sonhava tocar após sua aposentadoria. "Fiquei sem chão", diz a viúva, Maria da Conceição Carvalho Franco, de 44 anos, 28 dos quais vividos com o marido, com quem se casou apenas na Igreja. Os dois tiveram três filhas: Marta, de 25 anos, Juliana, de 23 anos, e Juliete, de 20. Marta deu duas netas ao casal e Juliete está grávida de cinco meses. Juliana nasceu com síndrome de Down e tem problemas de saúde. "Desde os 5 anos ela tem que tomar umas injeções que a gente não tinha como pagar. Aqui não tem emprego e vivemos somente com o que o Raimundo nos mandava", diz Conceição.

 

O velório e enterro na quinta-feira, e também o traslado do corpo, foram pagos pela construtora, que enviou um representante para fazer os acertos trabalhistas. Trouxe os cerca de R$ 1.000 de salário que Raimundo tinha a receber na terça-feira, 15, um dia após o acidente. O funcionário da Galvão garantiu que, em um prazo de 30 dias, a família receberá o seguro de vida contratado pela empresa. Sobre indenização, nada ainda foi conversado.

 

A empresa informou ao Aliás, por e-mail, que com o seguro, "a família do sr. Raimundo terá direito ao recebimento de uma indenização pelo trágico acontecimento, sem ter que recorrer ao Judiciário. Não obstante esse fato, a empresa vem mantendo contato direto com os familiares, a fim de suprir qualquer necessidade financeira ou de ordem pessoal nestes primeiros dias". D. Conceição, no entanto, ainda não sabe o que vai fazer sem os R$ 300 a R$ 500 que chegavam de São Paulo a cada mês.

 

Wagner Soares, o Pedal, genro de Raimundo, conta que toda quinta-feira dois ônibus deixam a cidade com destino ao Sudeste, repletos de jovens candidatos a emprego na construção civil. Agiotas oferecem dinheiro para as despesas da viagem. "É coisa de R$ 200 a R$ 300 para a passagem, o lanche e para se manter uns dias até achar trabalho. Depois cobram juros de 15 a 20%. Aqui tem gente que vive só disso."

 

VILA CARMOSINA, ZONA LESTE DE SÃO PAULO (SP)

 

A Rua Luís Pereira Brandão é uma ladeira estreita, com pouco mais de 100 metros, ladeada por uma sucessão de casebres de bloco, madeira e alvenaria. Entre a Vila Carmosina e Itaquera, na zona leste da cidade, desfilam ruas de nomes familiares a boa parte dos moradores, como Campinas do Piauí e São Félix do Piauí. Raimundo morava com outros três colegas nos fundos da casa de número 20A, em um ambiente de dois cômodos, sem janelas e banheiro com piso de cimento. Um portão de grades, fechado com cadeado, servia de porta. Os trabalhadores rachavam o aluguel mensal, de R$ 250.

 

Todo dia, Raimundo caminhava até a Estação Dom Bosco, em Itaquera, ia até a Luz e de lá seguia de metrô. Entrava na obra as 13h30 e ficava até as 22h. Os vizinhos contam que era homem de poucas palavras. "Tudo pra ele era a família, não era pessoa de andar em festa. Quando a gente fazia churrasco no domingo, nem beber ele bebia. Eu dizia: ‘Tá fraco, seu Raimundo!’", conta Teliane da Silva, de 23 anos, outra conterrânea de Batalha, balconista da pequena venda que fica no final da rua.

 

O carpinteiro José Veloso, de 43 anos, é outro que mora ali, e o conhecia desde moço, no Piauí. "A única coisa de que ele gostava era do Flamengo. Eu sou palmeirense, e no dia que ganharam o campeonato brasileiro ele nem mangou de mim. Era sujeito direito."

 

Na quarta-feira, as roupas que Raimundo pôs para secar continuavam penduradas no varal. Na cômoda, deixou um vidro de perfume e o rádio de pilhas. Já os quatro DVDs infantis que havia comprado para a filha Juliana, pôde despachar antes da tragédia. "Ele falava muito dessa filha que não era muito boa, a bichinha", lembra seu Veloso. "Eu chorei, já... Mas o senhor sabe, quando é para acontecer as coisas, não tem jeito."

 

Colaborou Luciano Coelho, de Batalha

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