Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

As estratégias dos editores contemporâneos contra a crise do livro

Enquanto mercado encolhe, as particularidades do livro impresso devem ser utilizadas a seu favor por meio de experimentações com o formato

João Varella*, Especial para o Estado

22 de fevereiro de 2020 | 16h00

Entra e não deixa de entrar água no barco do livro. Os buracos se alastram. Aos números, marujos. 

Reino Unido, Espanha, Colômbia, México, EUA, França e Brasil apresentam queda no faturamento em comparação com dez anos atrás, levando em consideração a inflação do período, segundo a economista Mariana Bueno, da Fipe. Mesmo quando há alta nas vendas, ela está sempre abaixo do crescimento do PIB. No Brasil, há um rombo no casco do navio: queda de 21,9%. 

Se o Brasil dá a sensação de estar imerso em uma situação pior do que os países mencionados é porque… bem, é isso mesmo. Convertendo todas as moedas locais para uma mesma unidade, que aí considera as diferenças de custo de vida, rendimento e poder de compra, o Brasil encolheu 58% entre 2007 e 2017. Em 2008, o mercado brasileiro era seis vezes maior que mercado colombiano. Em 2016, essa relação mudou para 3,5 vezes, de acordo com Bueno. 

É difícil encontrar um caminho quando a própria tripulação se nega a reconhecer a conjuntura. Um buraquinho desse tamanho no casco? Deixa que a gente arruma no próximo porto. 

Algumas vozes respeitadas do mundo editorial juram que se trata de uma crise isolada, restrita a apenas duas empresas, Saraiva e Livraria Cultura, que, coincidentemente, ao mesmo tempo pediram concordata no final de 2018. 

Entendo que se trata de uma tática de boa-fé. Nos negócios, é importante ter otimismo. Quem não se aventura na seção de Economia aqui do jornal, ali onde o Celso Ming explica o que significa número X comparado com Y, talvez não saiba quão importante é este sentimento. Grosso modo, para alguém abrir a carteira e gastar precisa ter tranquilidade. Seja permanecendo no emprego ou obtendo retorno no investimento, o sentimento de “vai dar certo” é chave. 

Porém, tratar “apenas” da quebra da Livraria Cultura e da Saraiva é omitir o encerramento da Laselva, rede de livrarias antes presente em aeroportos, das gráficas Prol e RR Donnelley, ambas com maquinário robusto, BookPartners, distribuidora que tinha um conjunto enorme de serviços, do aporte de 10 milhões de euros da Penguim Random House para salvar o caixa da Companhia das Letras antes de tomar o controle da editora brasileira, a queda no número de cidades brasileiras que têm ao menos uma livraria (em 2001, as livrarias estavam presentes em 42,7% dos municípios; em 2018 caiu para 17,7%), constante queda na categoria Livros, Jornais, Revistas e Papelaria segundo a Pesquisa Mensal do Comércio… posso continuar, mas acho que não precisa. É por causa desses dados que vesti meu colete salva-vidas.

Livros vs. outras mídias

Muitos defendem que os livros perderam força em razão da concorrência feita por outras linguagens que disputam o tempo do leitor, que é também espectador, jogador, ouvinte. Vejamos como outros campos artísticos lidaram com suas próprias tempestades. 

A Netflix e demais serviços de streaming mudaram o audiovisual. O foco principal desses serviços são as séries, com todos os episódios da temporada disponíveis de uma vez só. É uma relação diferente do ritmo semanal ou diário da televisão, com horário rígido e estipulado. Também difere do longa-metragem típico do cinema.  

A música passou por situação similar, com a volta dos EPs (músicas lançadas individualmente) tomando o protagonismo do álbum em plataformas como Spotify e Deezer. Ao abrir um álbum nesse que é o mais popular aplicativo musical, a primeira e mais clara opção para dar play é em ordem aleatória. Chora, Pink Floyd. Agora o narrativo The Wall começa por onde o sorteio mandar, pode ser em Run Like Hell ou Comfortably Numb

Essas plataformas digitais propõem, em essência, uma nova maneira de distribuição. Uma mudança que influencia, sim, a criação. É preciso apagar de uma vez por todas a imaginária trincheira que separa a venda da concepção artística. Há uma ligação entre as duas pontas do processo. Essa influência acontece em outros artefatos ou produtos culturais, como livros, porém de maneira menos óbvia. 

O livro é a mídia de massa mais antiga, carrega um DNA analógico. Constitui-se em tinta e papel. Não há muito espaço para as forças disruptivas do Vale do Silício. 

Em 2007 houve uma tentativa de mudar essa relação milenar. Ainda com o eco da narrativa do Napster virando o mundo das gravadoras de cabeça para baixo, surge Jeff Bezos, o dono da Amazon, sorridente com o Kindle, um e-reader. Em vez dos jovens americanos que mal tinham idade para beber legalmente quando lançaram o Napster, esta revolução tinha tudo para ser mais forte. Afinal, teria a força da bilionária Amazon.

Os analistas compraram a ideia. O apocalipse do livro impresso era iminente. Faço um mea culpa. Se alguém buscar textos meus, então um jovem jornalista que mal tinha idade para beber legalmente, é capaz de me encontrar espalhando o cataclisma editorial.  Mais de dez anos depois, o apocalipse não aconteceu. Com mais de uma década do lançamento do Kindle, ebooks nunca conseguiram ameaçar a hegemonia do livro impresso. Na música, a escalada foi bem mais rápida. A revolução do Napster foi a primeira fagulha. Seguiu descentralizada, com cada computador que baixava música virando ao mesmo tempo servidor para mandar arquivos a outros. Um pensamento de rede. 

A Amazon agiu como empresa capitalista centralizadora. Quis um monopólio, criou um formato proprietário exclusivo para seu dispositivo, só funciona bem na sua própria loja. Não dá para comprar livros em outra livraria. A última atualização do sistema operacional do Kindle faz o usuário passar pela loja antes de entrar na própria biblioteca (há um botãozinho discreto para evitar isso).

Nos Estados Unidos, principal mercado global dos livros, as vendas de ebooks caem já há alguns anos. No Brasil, nem dá para falar se caiu, pois as vendas nunca se levantaram, representando cerca de 1% do faturamento, um pouco mais ou um pouco menos. Entidades do livro, eventos literários e especialistas promoviam conferências e pesquisas sobre o ebook, mas visivelmente esse assunto foi deixado de lado há alguns anos. Portanto, o caminho não parece ser mudando a constituição do livro. 

Livros para o século 21

Cabe ao livro se opor à digitalização. Servir como um porto seguro em meio ao maremoto. 

É fato que o leitor contemporâneo consome muito conteúdo em tela. O mundo é digital para diversas funções, da socialização à comunicação; do trabalho ao lazer, da alimentação à localização. Até a década anterior, havia pesquisas para saber quanto tempo as pessoas passavam conectadas durante o dia. A resposta de hoje é: 100% do tempo. 

Uma consequência está na posse de bens culturais. Na nuvem, a obra pode receber uma alteração silenciosa. Os filmes Star Wars no Disney Plus são diferentes dos originais exibidos nos cinemas nas décadas de 1970 e 1980; Artpop, da Lady Gaga, não tem mais a faixa Do What U Want; e cada vez mais difícil jogar uma versão anterior dos games, que sofrem constantes atualizações obrigatórias; os ebooks comprados pela loja da Microsoft foram apagados sumariamente. Um livro impresso, em contrapartida, permanece imutável, seguro.

A troca da posse pelo acesso não é o único problema do meio digital. Enquanto Mark Zuckerberg faz fortunas com seus aplicativos essenciais, cada vez mais as pessoas se ressentem da falta de privacidade e da cacofonia do fluxo eterno de postagens. Estamos estressados, com um número crescente de internações de crianças e adolescentes por transtornos mentais. Especialistas atribuem isso ao uso de redes sociais. O impresso é uma ilha de paz, com foco, sem sinetas com um número vermelho de notificações.

O sr. Montanha de Açúcar (na tradução literal do sobrenome de Zuckerberg surge uma substância altamente viciante) quer o monopólio dos apps de celular. Tal uma grande editora disfarçada em mil selos, WhatsApp, Instagram, Messenger e Facebook é Facebook, são bilhões de usuários dentro do mesmo sistema. 

O arranjo monopolista quita possibilidades expressivas do próprio meio digital. Em vez da profusão de formatos de páginas e blogs da virada do milênio, os perfis de rede social adotam um padrão. Já não é mais possível fazer hyperlinks com a mesma facilidade, elemento símbolo do HTTP, o protocolo de hipertexto expressado diante de cada endereço da web. A tipografia virou um elemento do passado. 

É nesse ponto que o livro cresce. Diante desse turbilhão pasteurizado, as publicações podem promover sua materialidade como força expressiva. Não é preciso reinventar a roda, mas as editoras podem e devem fazer escolhas tipográficas atraentes, margens confortáveis e, por que não, experimentar vez ou outra com o formato, papel e a encadernação que podem trazer outras camadas  para aquela narrativa. Se for para ler um livro feio, feito nas coxas, dentro de uma lógica de linha de produção, tratando J.K. Rowling como J. M. Coetzee só com uma capa diferente, é melhor ficar no Twitter mesmo. 

Talvez a maior parte dos leitores não se dê conta dessas coisas num nível consciente. Mas um livro bem editado e bem produzido causa uma boa impressão -- e escrevo isso depois ter presenciado de perto como as pessoas manuseiam e se relacionam com obras impressas em feiras e em outras instâncias de venda de livros diferentes das livrarias. Por mais que o amigo leitor não consiga formular o que lhe atraiu em determinada obra, tudo bem, a resistência (para usar uma palavra marcante dos debates atuais) é silenciosa e não carece de elogios. 

É um novo ciclo do livro, adaptado a tiragens menores e fazendo bom uso disso, como na exploração de técnicas artesanais. Uma salutar aproximação às artes visuais. Desce o orgulho de 1.378 semanas na lista dos mais vendidos, sobe o aviso de tiragem limitada, exemplar número 42 de 80. 

Há mais, muito mais a ser feito para reparar a situação. Desde os leitores fazendo mais postagens relacionadas a livros – façamos o algoritmo trabalhar a favor do que realmente é importante, por mais que isso em um primeiro momento não gere a quantidade desejável de curtidas --, ênfase em autores locais vivos, troca do modelo de consignação a livrarias para compra com direito a retorno e descontos maiores, entre outras. É o momento de testar, de fazer diferente. Louco é o sujeito que toma as mesmas atitudes e espera resultados diferentes. Torço para o mercado editorial brasileiro ter atingido o fundo do poço. É lá que encontramos terra fértil para plantar ideias e posturas novas. 

*João Varella é editor da Lote 42 e organizador da feira Miolo(s)

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