As gravatas coloridas do exílio

Liberação de presos é sinal para acalmar pressões internacionais

Anthony de Palma

17 de julho de 2010 | 16h00

Figurino. Dissidentes receberam calças sociais, camisas de manga comprida e gravatas coloridas. A mensagem foi de que eles não seriam bem recebidos de volta pela sociedade cubana

 

 

Antes de seguirem de Havana para Madri, na semana passada, os sete prisioneiros de consciência cubanos foram retirados de suas fétidas celas e levados para um hospital onde, por três dias, foram examinados, banhados e alimentados. Então, antes de subirem a bordo do jato que os levaria para a Espanha, lhes deram calças sociais, camisas de manga comprida e gravatas coloridas. Um traje que pode ser padrão em muitas partes do mundo, mas quase não se vê no calor tropical de Havana. Claramente, a mensagem foi de que esses homens não seriam bem recebidos de volta pela sociedade cubana. Estavam partindo para o exílio, e uma borracha foi passada em sua história.

 

"Eles nos deram frango para comer e tínhamos ar condicionado no hospital", disse Ricardo González Alfonso, jornalista independente, de 60 anos, um dos sete, que estava preso desde a chamada Primavera Negra de 2003. "Era como se eles quisessem remover, em três dias, os sete anos em que não nos consideraram gente de carne e osso."

 

A repentina libertação dos sete, que deve ser seguida da libertação de outros 45 prisioneiros políticos nos próximos meses, foi vista em partes do mundo como uma tentativa de Raúl Castro e da turma de velhos que governam Cuba de diminuir o repúdio contra eles depois que um preso de consciência, Orlando Zapata Tamayo, morreu na prisão, quando em greve de fome por melhores condições para todos os prisioneiros políticos. A morte de Zapata desencadeou cólera e preocupação em todos os cantos do globo, levando a uma quase condenação universal (o presidente Lula foi exceção. Defendeu o direito de Cuba à autodeterminação).

 

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Não tenha dúvida: essa pressão externa foi a principal razão de o governo Castro concordar em se reunir com líderes da Igreja Católica. Como resultado das primeiras conversações, alguns presos foram transferidos para prisões mais próximas de suas casas, para facilitar a visita de familiares. E um detento muito enfermo foi libertado.

 

No início de junho, o ministro das Relações Exteriores da Espanha, Miguel Ángel Moratinos, chegou a Havana no momento em que um outro preso político, Guillermo Fariñas, estava à beira da morte por causa de prolongada greve de fome. O governo espanhol, quando ocupou a presidência rotativa da União Europeia, insistiu num reexame pela Europa da sua política em relação a Cuba. Desde 1996 a UE mantém uma "posição comum" no tocante à ilha, com base na qual uma melhora de relações só ocorrerá quando o governo Castro oferecer garantias maiores de democracia e respeito aos direitos humanos no país. Mas o governo espanhol reconhece que essa estratégia ajudou muito pouco. No entanto, as negociações entre as autoridades cubanas, líderes da Igreja e o ministro espanhol resultaram nesse acordo para libertar 52 prisioneiros, o que levou Guillermo Fariñas a encerrar sua greve de fome.

 

O papel da Espanha na libertação dos presos poderia sugerir uma influência crescente da nação fundadora de Cuba. Mas, se a história for um indicador, não deve ser este o caso. No passado, outras nações, como Canadá e México, interferiram nos assuntos domésticos de Cuba, apenas para ser rechaçadas mais tarde por Havana. A verdade é que os irmãos Castro têm usado a libertação de presos como moeda de troca desde pelo menos 1961, quando mandaram de volta para casa 1.100 combatentes capturados na fracassada invasão da Baía dos Porcos. O primeiro lance da negociação foram 500 tratores. Mas Fidel Castro rapidamente subiu a exigência para US$ 28 milhões. No final, os prisioneiros foram libertados em troca de US$ 53 milhões em alimentos e remédios.

 

O que os irmãos Castro estão procurando agora? Cinco cubanos estão presos em penitenciárias americanas, acusados de espionagem, e os dois irmãos gostariam muito de tê-los de volta. Talvez Raúl espere que a Espanha interceda em seu nome quando a União Europeia reavaliar sua posição sobre Cuba. Ou talvez esses fatos positivos encorajem o Congresso dos EUA a afrouxar as restrições ao comércio americano com Cuba, como foi votado por uma comissão da Câmara dos Representantes no mês passado.

 

Independentemente dos motivos dos Castros, é importante não perder de vista as deploráveis condições que estão obrigando Raúl a ser mais receptivo. Furacões no ano passado e uma infraestrutura cada vez mais deteriorada arrasaram a raquítica economia cubana e tornaram piores condições já horrendas. Na mesma semana em que os prisioneiros aterrissaram na Espanha, um cubano desesperado foi tirado das águas na costa da Flórida após passar três semanas numa balsa de isopor. Ele definhava, mas estava feliz com a liberdade. Os cubanos na Espanha disseram que são refugiados e não estão livres.

 

O que sucederá com os prisioneiros políticos que rejeitarem o exílio e insistem em permanecer em Cuba, como um deles, Óscar Elias Biscet, já anunciou? Os irmãos Castro, que foram exilados pelo ditador Fulgêncio Batista em 1955, sabem dos benefícios que teriam livrando-se dos dissidentes e dos perigos de viver com eles. Com os olhos do mundo agora vendo sinais de uma real mudança, estarão eles dispostos a permitir que dissidentes políticos em liberdade fiquem em Cuba e retornem à sociedade ou sua resposta será entregar-lhes também uma camisa social e gravata?

 

* Tradução de Terezinha Martino

 

* Anthony De Palma é jornalista e autor de 'O Homem Que Inventou Fidel' (Companhia das Letras)

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