Ás indomável?

Avião que caiu numa casa no Maranhão matando 5 estava irregular e piloto tinha fama de correr riscos

Clodoaldo Corrêa, SÃO LUÍS / MA

09 Agosto 2014 | 16h00

Uma vez, Delano conseguiu improvisar. Na segunda, chegou a cair. Não driblou a morte na terceira. Às 6h20 do domingo passado, seu monomotor Embraer-720C desabou sobre uma casa em Balsas, no Maranhão. No avião estavam mais quatro: a namorada dele, de 22 anos, uma senhora de 84, a filha dela, de idade não informada, e o neto, de 32 anos. Safou-se Augusto, de 11 anos, que mora na casa fatídica atingida e, na noite anterior, pedira para dormir no quarto dos pais. O monomotor acertou em cheio seu quarto e incendiou o carro da família. “Ele pediu: ‘Mãe, quero dormir com você’, e eu disse ‘não, você tem seu quarto, dorme nele’. Mas assim, do nada, eu peguei o colchão dele e coloquei no chão. Deus ilumina a cabeça da gente nessa hora”, contou Sabrina, mãe de Augusto, meio aérea com aquele susto todo.

Delano Martins Coelho tinha 36 anos e uma árvore genealógica com raízes na política. Nascido em Uruçuí, no Piauí, era filho da ex-prefeita da cidade Maria do Espírito Santo Bringel Coelho e do médico, ex-diretor do Hospital Regional Senador Dirceu Arcoverde e candidato a deputado pelo PPS no Piauí Wagner Coelho. Seu irmão, Erlano Coelho, é prefeito de Nova Colinas, no Maranhão. 

Muitos empresários da região voavam com Delano, que cobrava R$ 3 mil para fazer a ponte aérea Balsas-Teresina, por exemplo. Nenhum, no entanto, admitiu ser passageiro regular ou eventual do piloto. O brevê do piauiense estava em dia, mas a aeronave voava na clandestinidade. No Registro Aeronáutico Brasileiro (RAB), o monomotor tinha o Certificado de Aeronavegabilidade (CA) cancelado e a Inspeção Anual de Manutenção (IAM) vencida. 

Um deputado, que chamaremos de MC, assumiu ter voado muitas horas com Delano na campanha de 2010. Disse que o piloto às vezes se atrasava, por ser muito requisitado na região. Balsas, a 810 quilômetros de São Luís, é o maior município do Maranhão e um dos municípios mais ascendentes do Nordeste. A efervescente economia da soja faz com que os voos fretados sejam uma opção rápida para os empresários e/ou políticos do local. Daí a longa lista de clientes de Delano, que era bem-visto pelos passageiros, embora provocasse em alguns deles certa inquietação. O motivo: excesso de autoconfiança. 

“Ele pilotava bem, era rápido, mas o cuidado com a manutenção sempre era deixado um pouco mais pra frente. Porque com o carro, quando temos que fazer a manutenção com 10 mil km rodados, deixamos pra fazer com 12 ou 13. Com o avião não dá pra fazer isso. Mas ele mesmo arrumava alguma coisa que precisasse. Ele arriscava”, revelou o deputado MC. 

Em 2011, a ousadia foi pousar o monomotor a três quilômetros do Aeroporto Internacional Prefeito Dr. João Silva Filho, em Parnaíba, Piauí. Mais precisamente na Av. Francisco Borges dos Santos, que liga as BRs-402 e 343. Na época, ele teria dito aos policiais que dera uma parada ali para pegar um documento que uma pessoa estava levando de carro pela avenida. 

Em fevereiro, Delano caiu sobre uma casa três minutos depois de decolar de Araguaína, no Tocantins. No acidente morreu uma menina de 8 anos de idade, Thaiane Feitosa de Brito. O piloto precisou dos policiais para escapar do ódio da população, que queria linchá-lo. Acabou preso por homicídio culposo e lesão corporal. Foi solto após pagamento de fiança. 

O presidente do Aeroclube do Maranhão, José Batista Holanda, afirmou que o aeroclube forma pilotos com padrão de excelência e capacidade reconhecidos. Disse que não conhecia Delano, formado há muito tempo e morador no interior do Estado, mas que o aeroclube não poderia responder por qualquer irregularidade cometida por ex-aluno. “O aeroclube é uma escola que forma com toda a capacitação necessária. Nós fazemos cursos de reciclagem, palestras e ajudamos todos os pilotos da melhor forma possível, embora não seja possível obrigar os habilitados a participar. Quanto ao acidente, todo o controle é feito pela Anac (Agência Nacional de Aviação Civil)”, argumento.

A Anac diz o seguinte: após um acidente, o piloto passa por vários processos, o primeiro para reavaliar o Certificado Médico Aeronáutico (CMA). Concluídas as investigações sobre as causas do sinistro pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), da Aeronáutica, a Anac poderá receber uma recomendação do órgão se ficar constatado que o piloto envolvido tenha contribuído para a queda. Daí se decide sobre aplicação de eventual penalidade ao profissional. No caso de Araguaína, as investigações ainda não estão encerradas. 

A renovação do brevê, outra ponta dessa história, depende do modelo da aeronave na qual o piloto é habilitado. No caso de Delano, cujo brevê estava em dia, ele tinha de revalidar a habilitação a cada dois anos e ainda renovar o Certificado Médico Aeronáutico (CMA). Para pilotos privados abaixo de 40 anos, isso ocorre a cada 60 meses. 

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