As lições de George Orwell para a geração millenial

As lições de George Orwell para a geração millenial

A Flor da Inglaterra, romance que o escritor inglês publicou em 1936, tem muito a dizer para os que precisam optar entre “viver no aperto” ou “vender-se” para o mercado

The Economist

02 Setembro 2017 | 16h00

É comum atualmente, tendo em vista a atmosfera política reinante, apontar o caráter profético de 1984 (1949). Há também quem veja ecos de A Revolução dos Bichos (1945) na retórica política moderna. Mas George Orwell tem uma obra menos conhecida que também voltou a ter relevância para os dias de hoje: A Flor da Inglaterra (1936)* — romance que Orwell considerava mal resolvido — retrata uma situação de aperto financeiro semelhante à experimentada por muitos dos que chegaram à vida adulta na virada do século 20.

Apesar da fama de perdulários e acomodados, os jovens da geração do milênio na realidade são tão econômicos e avessos ao risco quanto seus antepassados da geração de 1930. É o que mostra levantamento realizado pela Standard and Poor’s. Uns e outros caíram na vida em meio a uma conjuntura de turbulência econômica e austeridade. Em razão disso, aceitam salários mais baixos, jornadas de trabalho mais longas e empregos muito inferiores àqueles para os quais sua formação os capacita. Segundo Beth Kobliner, autora de Get a Financial Life: Personal Finance in Your Twenties and Thirties (Leve uma Vida Financeira: Finanças Pessoais para os que Estão na Casa dos Vinte e dos Trinta) é a “mentalidade da grande depressão”.

É contra essa mentalidade e “o deus do dinheiro” que o protagonista de A Flor da Inglaterra, Gordon Comstock, decide se rebelar para realizar seu sonho de escrever poesia. Abandonando o que chama desdenhosamente de “um bom emprego” no ramo publicitário (“a fraude mais sórdida que o capitalismo já produziu”), Comstock vai trabalhar numa livraria e tem que se virar para sobreviver com duas libras por semana — aproximadamente £ 130 (ou US$ 170) hoje. “Talvez pareça uma ideia interessante quando você é rico e solicitado”, diz ele amargamente, “mas quanta diferença, quando você vive assim por necessidade!”

Na época de Comstock, descer alguns degraus na hierarquia social era realmente desastroso. Como ele não vinha de família rica, a única fonte de amparo financeiro a que podia recorrer era o seu endinheirado amigo Ravelston. O seguro-desemprego pagava quantias irrisórias e durava apenas seis meses; o NHS, serviço nacional de saúde britânico, ainda não havia sido criado. Por sua vez, a geração do milênio enfrenta diversas outras pressões financeiras, que sobrecarregam seus orçamentos. O diploma universitário ainda é pré-requisito para “um bom emprego”; e o canudo deixa o pessoal de beca e capelo com uma dívida de £ 44 mil, em média. Sem ajuda substancial dos pais, comprar uma casa continua a ser extremamente difícil.

Rosemary, namorada de Comstock, tem atitude bem mais realista em se tratando de dinheiro. Por “maldito” que seja o lugar, ela prefere permanecer na agência de publicidade, e não está disposta a casar e ter filhos enquanto perdurarem as dificuldades financeiras. Nisso ela lembra os jovens atuais: em 2013, pela primeira vez na história, a idade média das mães britânicas chegou a 30 anos. “Pessoas como nós não podem se dar ao luxo de ter princípios”, diz Rosemary. “Isso é que o Gordon parece não entender.”

Mesmo quando finalmente entende, Comstock não se importa de viver na pindaíba, contanto que possa “respirar um ar mais puro, livre do fedor do dinheiro”. Acaba indo morar numa quitinete, afirmando querer “soltar as amarras do seu amor-próprio, submergir — naufragar” naquele “imenso submundo do descuido e do descaso, onde o fracasso e o sucesso nada significam”.

É só quando Rosemary engravida e se vê sem alternativa, senão “ir para a casa dos meus pais”, que Comstock cede e volta para o antigo emprego. Isto não é O Caminho para Wigan Pier (1937) nem Na Pior em Paris e Londres (1933), livros em que Orwell registra a vida das classes trabalhadoras e dos marginalizados. Com sua boa formação educacional, Comstock não está sujeito ao verdadeiro limbo da obliteração, mas se dá conta, como toda uma geração atualmente, que precisa abrir mão de suas ilusões e admitir que nunca conseguirá sobreviver escrevendo poesia. Sua revolta suicida contra “o código do dinheiro” resultou apenas em sofrimento. “Mais cedo ou mais tarde todo mundo acaba cedendo”, conclui ele.

Alguns leitores talvez sejam levados a acreditar que A Flor da Inglaterra acaba bem: na última cena, Comstock se ajoelha diante de Rosemary e apoia a cabeça em seu ventre para ouvir os movimentos do bebê. O problema é que Comstock passa a maior parte do livro atacando a moralidade da classe média. Assim, mais do que aceitação do conforto burguês, o final do livro lembra o último capítulo de 1984, em que a revolta secreta de Winston Smith se transmuda em conformidade e lealdade para com o Partido. “Em algum canto de sua mente”, conclui Comstock, “ele sempre soubera que aquilo acabaria acontecendo.” Afinal de contas, “era aquilo que, no mais íntimo do seu coração, ele de fato desejava”. Dessa maneira, A Flor da Inglaterra antecipa o dilema dos jovens da geração do milênio.

Com tão pouca margem de manobra, e tendo de pagar preço tão alto por qualquer inclinação mais inconformista, seu aparente comodismo esconde uma devastadora perda de liberdade, um esmagamento do espírito com o qual apenas seus bisavós poderiam se identificar.

(*) Publicado no Brasil em 2007 pela Companhia das Letras, com tradução de Sergio Flaksman. As citações incluídas no texto foram extraídas desta edição.

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