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As mal-amadas

Por que as mais respeitáveis universidades brasileiras são preteridas no apreço público em favor da Disneylândia?

José de Souza Martins, O Estado de S. Paulo

19 Setembro 2015 | 16h00

Um certo desapreço pela universidade brasileira vem acompanhado de uma sobrevalorização primária e turística de universidades em outros países, em especial nos países prósperos. Algumas são universidades de merecida reputação, sem dúvida. Em parte o desapreço decorre de um lento e progressivo declínio do histórico ufanismo brasileiro. A deturpação da concepção de pátria e de tudo o que é dela próprio, crescente nos últimos anos, gerou o sentimento negativo de que o que é nosso e o que fazemos está aquém daquilo que os outros supostamente são e fazem. A universidade é uma das vítimas dessa concepção. Estamos ficando cegos para a nossa competência na criação de conhecimento e na sua difusão. Já ouvi gente importante e responsável dizer que as universidades públicas paulistas custam muito aos cofres públicos, em detrimento da educação primária. Eu diria que a escola primária é que custa muito ao país em função de seus fracos e melancólicos resultados, como o divulgado nesta semana pelo Ministério da Educação: um em cada cinco alunos do terceiro ano não está alfabetizado. 

Já ouvi gente com poder de decisão sobre essas matérias perguntar se não seria mais barato copiar o conhecimento científico que os americanos produzem do que gastar dinheiro em criar e manter aqui centros de pesquisa original. Quando se chega a esse ponto, é fácil entender por que respeitáveis universidades brasileiras são preteridas no apreço público em favor da Disneylândia e em favor daquilo que se pode comprar e não daquilo que se pode fazer e criar. A cultura do saber está sendo superada pela cultura da goma de mascar. 

Várias iniciativas se combinam para configurar esse desapreço por nossas universidades. Escolas ricas de nível médio estão promovendo excursões de seus alunos aos países ricos para que “conheçam” universidades famosas e, eventualmente, no devido tempo possam optar por uma delas. É claro que não basta ter dinheiro para que um jovem brasileiro ingresse em Universidades como Harvard, Cambridge ou a Sorbonne. Não basta ter frequentado escolas abonadas daqui para ter ingresso nas boas universidades de lá. Ingressar é apenas um dos aspectos da organização de uma Universidade como a de Cambridge, com sua coleção de 91 Prêmios Nobel. O problema é nela permanecer. A reprovação numa única disciplina do curso implica em expulsão do aluno. Ser aprovado não é um direito, é um dever. 

Uma variante do desapreço pelas universidades brasileiras, que penam com verbas insuficientes, é a dos dispêndios descabidos com programas oficiais como o Ciência sem Fronteiras. A concessão de bolsas no exterior para estágio de alunos que aqui sequer concluíram o curso de graduação expressa uma concepção equivocada de universidade. Do mesmo modo, se é para estudantes de ensino médio fazerem visitas turísticas a câmpus de boas universidades de outros países, para que tenham consciência do que é o grande e diferente mundo da produção e difusão do conhecimento de alto nível, nós as temos por aqui mesmo. Não me refiro apenas à Universidade de São Paulo, que se destaca de longe como a melhor universidade brasileira e até como a melhor universidade latino-americana, entre as 150 melhores do mundo. Mas me refiro, também, a universidades como a Unicamp, a Federal do Rio de Janeiro, a Federal de Minas Gerais, a Federal do Rio Grande do Sul e a Unesp, que tem comparecido a essas listagens entre as melhores quinhentas do planeta. O curso de Matemática da USP está entre os cem melhores e o da Unicamp entre os duzentos. O de Química da USP está entre os duzentos melhores.

Os índices elaborados anualmente por instituições especializadas destinam-se, justamente, a munir os interessados com as informações subsidiárias para que escolham a universidade que os preparará profissionalmente e completará a formação de sua personalidade. Esses índices incluem universidades brasileiras que, graças à competência e ao trabalho mal reconhecido de seus docentes e pesquisadores, alcançaram reconhecimento internacional. Uma concepção futebolística do que é uma universidade de alto nível domina a interpretação local da classificação de universidades brasileiras nos rankings internacionais de competência e prestígio. Aqui no Brasil, é muito claro que se uma universidade brasileira logra um resultado positivo na pesquisa e na descoberta científicas ou obtém conquistas de destaque no ensino e na extensão universitária, certamente não será notícia. Se uma universidade pública, como a Universidade de São Paulo, cair um ponto no ranking comparativo em relação a outras universidades do mundo ou em relação a si mesma, de um ano para outro, será notícia de primeira página dos jornais. No clima geral de pessimismo em que vivemos, o desempenho de várias de nossas universidades, que na média geral vem alcançando padrões internacionais de excelência, acaba alimentando o prazer enfermo por eventuais oscilações para baixo e não o prazer sadio por oscilações para cima.

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