As novas torres de Babel

Como menires, pagodes e catedrais, os arranha-céus são, ainda que disfarçados, locais de oração

Tomás Eloy Martínez*, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2007 | 18h00

Há pouco mais de uma década, quando o arquiteto argentino César Pelli elaborou o projeto e a maquete da torre mais alta do mundo, fui visitá-lo em seu estúdio em New Haven, Connecticut, cidade a duas horas rumo norte de Nova York. O colosso Miglin-Beitler seria levantado na esquina sudoeste das ruas Madison e Wells, em Chicago. Com 656 metros de altura, deveria ser o dobro do tamanho do mítico Empire State e superar com folga a altura dos arranha-céus da Sears, às margens do lago Michigan, cujos 442 metros dominavam as alturas do mundo desde 1974.Aquela maquete mostrava algo não apenas impressionante. Era belíssima. Uma estreita agulha branca de vidro e aço que desafiava os céus, culminando num mirante rodeado de nuvens. Jamais chegou a ser construída. A guerra do Golfo e o aumento vertiginoso dos preços do petróleo provocaram a ruína do mercado imobiliário nos Estados Unidos e o projeto foi cancelado.O mesmo preço do petróleo, no ano seguinte, veio em socorro de Pelli. A poderosa empresa Petronas, da Malásia, encomendou-lhe a construção de duas torres gêmeas, de 452 metros cada uma, em Kuala Lumpur. Em vez da garbosa agulha de Chicago, Pelli concebeu um desenho geométrico de concreto e vidro, uma evocação da arte islâmica e que ao mesmo tempo lembra a arquitetura da Sagrada Família, obra-prima do catalão Antoni Gaudí.Desde então verificou-se uma sucessão de projetos de arranha-céus cada vez mais ousados, a um ritmo de dois a três por ano, chegando hoje a 20, talvez mais, os que superam a altura dos 300 metros. A maioria deles foi construída em lugares onde sobra espaço: em Dubai, Riad, Atlanta, Taipei; outras torres foram erguidas em cidades-espetáculo, como Hong Kong e Shenzhen.As novas torres lembram a imagem, freqüente no cinema de Hollywood, de uma planície interminável e vazia, cortada por obeliscos no horizonte. Por trás desta paisagem paradoxal emana a sombra da Torre de Babel, a primeira tentativa do homem de contemplar o mundo da altura dos céus.As formações verticais multiplicaram desde o Gênese o desejo de um diálogo com Deus. Os seres humanos falam, suplicam. Deus silencia. Os ouvintes atribuem infinitos sentidos a esse silêncio: cólera, misericórdia, indiferença, ameaças de castigo. Os menires, os tótens, os pagodes, as catedrais, eles sempre foram lugares de oração. Nos arranha-céus persiste a aura dos campanários florentinos e dos minaretes muçulmanos, uma atitude de oração que remonta às origens da espécie.Com mais de 1,90 metros de altura, Pelli é um homem tão imponente e empertigado quanto suas torres. Cultiva um ligeiro sotaque provinciano. Há dez anos, quando conversei com ele em New Haven, ninguém poderia imaginar que os terroristas da Al-Qaeda destruiriam as Torres Gêmeas de Manhattan, em setembro de 2001, nem que um terremoto de 7 graus na escala Richter colocaria à prova, no início de abril de 2002, a solidez do edifício Taipei 101, que é, com seus 509 metros, o mais alto do mundo. Mas este recorde poderá cair em finais de 2008, quando o arranha-céu Burj Dubai romper o limite dos 800 metros. Será outra agulha deslumbrante. Seu desenho é inspirado na leveza e resistência dos ossos das aves, na flexibilidade das palmeiras e na capacidade do ser humano para se adaptar a qualquer ambiente.Três altas estruturas emblemáticas dominaram os últimos 120 anos: as três são símbolos de suas cidades. A mais famosa é a torre Eiffel, construída para se tornar o elemento central da Exposição de Paris de 1889, sem nenhuma razão prática. Serviu apenas para demonstrar o poder do ferro ante as rajadas de vento e para que os seres humanos subissem a uma altura de 300 m e contemplassem dali o esplendor da cidade. Outras duas estão em Nova York e não é fácil escolher uma delas. O Empire State concorre em beleza com o edifício Chrysler, que se não é o mais alto ou o mais estiloso, é o mais misterioso. Qualquer uma dessas torres reflete a alma da cidade.Embora a construção da torre da Chrysler tenha sido concluída em 1930, pode ser vista como um resumo da década anterior - a era do jazz, com suas linhas art déco e seus ângulos agudos inspirados no expressionismo alemão. O que mais surpreende nesse edifício é a cúpula de seis espirais marcadas por janelas triangulares cada vez menores. Pouca gente sabe que no pico da torre há um banheiro ínfimo, de dois metros por dois e de onde o primeiro proprietário, William P. Chrysler, costumava sentar-se para, do seu trono doméstico, observar a efervescência da cidade.Quando fui a New Haven, sabia de cor o versículo 4 do capítulo 11 do Livro do Gênese. "Bem, disseram os homens. Vamos edificar uma cidade com uma torre cujo cume rasgue os céus." Eu o repeti para César Pelli e lhe perguntei o que vinha a sua mente. "Estes homens queriam ouvir a voz da eternidade", respondeu. "Foi um ato de orgulho. Mas o que os moveu foi o desejo de se aproximar de Deus." Quanto mais subirão estas torres de Babel do século 21? Depois dos 800 metros do Burj Dubai, começará a marcha do projeto de uma cidade vertical que poderá ir além do quilômetro de altura. Ninguém espera mais um castigo como o da dispersão de línguas que destruiu Babel. Tampouco se espera uma fuga em massa da espécie humana depois da qual ninguém mais se encontrará com ninguém. O que os arquitetos esperam é que, à sua maneira, Deus nos dirá algo. E, quando o fizer, dirá algo que está muito além de nossa vã imaginação.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.