As pequenas vozes de Obama

Esforços individuais multiplicados e repetidos numa progressão quase infinita, a busca incessante de um voto a mais, a importância da fala mínima de cada indivíduo, asseguraram a vitória do presidente

ARIEL DORFMAN - ESCRITOR CHILENO; É AUTOR, ENTRE OUTROS, DE ENTRE SUEÑOS Y TRAIDORES: UN STRIPTEASE DEL EXILIO (SEIX BARRAL), O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2012 | 02h08

São muitos os comentaristas que asseguram que a reeleição de Barack Obama se deveu à Frankenstorm, o furacão que açoitou a costa leste dos Estados Unidos, uma semana antes das eleições. E de fato a megatormenta atormentou Romney ao mesmo tempo que infligia sofrimento a milhões de americanos: o tema político do dia deixou de ser a fraca recuperação econômica dos Estados Unidos e passou a concentrar-se na resposta que o governo deve e pode dar a uma crise gigantesca (o oposto da tese dos republicanos que querem privatizar tudo, inclusive a ajuda em caso de catástrofes), permitindo ao presidente mostrar sua capacidade de liderança.

Mas o verdadeiro furacão que salvou Obama foi outro. Com o risco de parecer lírico e até mesmo utópico, permito-me declarar que foram as pessoas, uma tempestade humana, uma multidão de milhões de militantes, que deram a vitória ao presidente afro-americano. Minha própria experiência limitada o comprova.

Durante intermináveis horas no dia da votação, minha mulher, Angélica, e eu fizemos um modesto trabalho eleitoral em Durham, Carolina do Norte, a cidade onde moramos. Tivemos de percorrer, enfrentando um vento polar contrário e sob um intermitente chuvisco, cerca de 40 residências de pessoas de baixa renda espalhadas numa extensa área, procurando garantir que seus moradores - que já haviam sido contactados duas vezes - fossem votar naquele dia. Conferimos os que já haviam votado (a maioria), deixamos material eleitoral nas casas onde ninguém respondia e, em um caso, conseguimos transporte para uma mulher negra que não iria votar e finalmente votou em Obama.

Pode-se pensar que esse resultado, um solitário voto depois de horas de incansável trabalho, não valia a pena. Mas, se não tivéssemos feito a peregrinação, teria se perdido aquele voto, aquela voz de apoio a Obama, aquele repúdio às mentiras e arrogância de Romney. Uma situação semelhante à nossa, o resgate de um eleitor, de outro e mais outro, estava acontecendo em milhares e milhares de lugares em Ohio, Virgínia, Nevada, Colorado, Iowa, Wisconsin, New Hampshire, os Estados nos quais Obama ganhou, apesar de uma propaganda milionária contra e de uma situação econômica precária. Foram pequenos esforços como o nosso, multiplicados, repetidos e repisados numa réplica quase infinita, que asseguraram sua vitória.

Enquanto ia com Angélica de porta em porta, subindo e descendo escadas, percorrendo paisagens desoladas entre os edifícios de apartamentos, lembrávamos outros trabalhos "de porta em porta" dos quais havíamos participado, nas campanhas de Salvador Allende, entre 1958 e 1973, a luta contra o medo durante a ditadura de Pinochet, que culminou com o plebiscito em 1988, o penoso restabelecimento da democracia no Chile, em 1990. Sobretudo, lembramos - uma boa maneira de combater o frio da Carolina do Norte - de uma noite de agosto de 1964 que passamos na casa do próprio Allende, convidados por suas filhas, Taty e Isabel, para montar listas de votantes que era preciso transferir de localidades do sul para seus lugares de sufrágio no norte (e vice-versa), identificando quem precisava de ajuda para poder votar. A certa altura, na madrugada, entrou Allende e cumprimentou o grupo de jovens, espalhados com seus apontamentos e papéis sobre o tapete embaixo dos quadros de Matta e Guayasamín e uma gravura de Miró."Olá, meninos", ele nos disse. "Vejo que estão ocupados, portanto não vou incomodá-los."

Ele acabara de percorrer povoados e campos, com o pó do Chile em seus sapatos e a fadiga nos olhos, uma fadiga que, entretanto, reluzia de alegria, sabendo que tantos jovens como nós faziam tudo por sua vitória. Naquele ano ele não ganhou. Mas o trabalho não foi em vão: seis anos mais tarde, em 1970, conquistou a presidência.

E agora estávamos, eu e Angélica, novamente dando tudo que podíamos em um mundo em que Allende estava morto e Barack Obama, com todos os seus erros e imperfeições, representava a mínima esperança de um mundo melhor. Assegurávamos, como tantas décadas atrás, a importância de um voto a mais, da pequena voz de cada pequeno ser humano.

Se Barack Obama falhou em alguma coisa em seu primeiro mandato foi em esquecer demasiadamente essas vozes, confiar que era possível fazer mudanças significativas num país regido por uma plutocracia e paralisado por um sistema político disfuncional sem recorrer diretamente ao poder persuasivo do povo.

Tomara que nos próximos quatro anos o presidente guarde a lição que aprendeu durante sua última campanha eleitoral. Tomara que a cada dia, antes de começar sua árdua jornada na Casa Branca, ele visite, com a mente, pelo menos, com o coração, talvez, os milhões de portas que o esperam, que se abriram como uma doce tormenta nessas eleições e voltarão a se abrir, uma após outra, para dar-lhe ensolaradas boas-vindas se estiver disposto a viajar com seus concidadãos para um mundo mais justo e belo. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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ARIEL DORFMAN. ESCRITOR CHILENO. É AUTOR, ENTRE OUTROS, DE ENTRE SUEÑOS Y TRAIDORES: UN STRIPTEASE DEL EXILIO (SEIX BARRAL)

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