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Às vésperas de novo 'Poderoso Chefão', livro é reeditado no Brasil

Clássico de Mario Puzo sobre a máfia italiana tem nova tradução enquanto o diretor Francis Ford Coppola se prepara para apresentar novo corte do último filme de sua trilogia

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2020 | 10h00

Às vésperas do lançamento de uma nova versão de O Poderoso Chefão - Parte III, intitulada pelo cineasta Francis Ford Coppola como O Poderoso Chefão de Mario Puzo - Desfecho: A Morte de Michael Corleone, uma nova edição do livro original que inspirou os filmes de Coppola chega ao Brasil.  A nova versão do longa conta com restauração e um corte diferente, que muda algumas tomadas e combinações musicais, e será lançada em 3 de dezembro nos cinemas e em 8 de dezembro em plataformas digitais. Já a reedição do livro pela Record conta com capa dura e nova tradução, de Denise Bottmann.

O Poderoso Chefão, de Mario Puzo, foi publicado nos Estados Unidos em 1969, mas aborda temas cada vez mais caros à sociedade brasileira contemporânea. Esse retrato da máfia italiana revela uma forma de exercício de poder que ocorre paralelamente ao Estado ao mesmo tempo em que comunga de relações promíscuas com esse mesmo Estado.

O império Corleone é, em última instância, baseado no enaltecimento idealizado dos valores tradicionais da família e validado pela fé cristã. Esse tripé político-familiar-religioso equivale à obsessão que tomou o poder no Brasil nos últimos anos.

Na obra de Puzo, Vito Corleone não tem um projeto de poder autoritário para seu país — não há, na figura do "Don", qualquer tipo de ambição para além de seu próprio feudo, sua família.

No entanto, a trilogia de Coppola, que expande os eventos narrados no livro de Puzo (retratados apenas no primeiro filme e em cenas do segundo filme sobre a infância de Vito), mostra mais claramente a relação promíscua da máfia Corleone com as altas esferas do congresso norte-americano e com o Vaticano — mais uma vez, a tripla obsessão se vê representada. 

A leitura do romance é um exercício particularmente interessante para o leitor brasileiro, que pode notar semelhanças e diferenças entre a máfia italiana na década de 1940 e a ascensão das milícias no Brasil contemporâneo. 

Entre as diferenças, por exemplo, está o elemento étnico fortemente demarcado: de origem siciliana, a família Corleone presta e cobra favores de seus conterrâneos ítalo-americanos, mas exibe pouca tolerância para com as pessoas de outras origens. É exemplar o caso de Tom Hagen, espécie de filho adotivo de Vito Corleone, mas que nunca pode almejar ascender na hierarquia familiar por sua ascendência teuto-irlandesa.

No entanto, são as semelhanças que mais saltam aos olhos. O poder paralelo Vito é apresentado desde o início como uma alternativa ao poder estatal. Quando o corrupto sistema judiciário americano falha com Amerigo Bonasera, cuja filha foi estuprada impunemente, é ao patriarca da família Corleone que ele recorre para obter justiça. Sobre essa questão, é lícito recordar uma declaração do então deputado Jair Bolsonaro em fevereiro de 2018, em entrevista à rádio Jovem Pan: "Tem gente que é favorável à milícia, que é a maneira que eles têm de se ver livres da violência. Naquela região onde a milícia é paga, não tem violência".

A corrupção do Estado em O Poderoso Chefão é contraposta à convicção dos valores de Don Vito Corleone - aliás, Vito e outros mafiosos seguem um rígido código de ética, a omertà, que estipula as regras do jogo e oferece as condições de sobrevivência do ecossistema da máfia nas brechas da lei.

No recém-lançado livro A República das Milícias, que forma um par instigante com a obra de Puzo, o jornalista Bruno Paes Manso demonstra por meio de depoimentos reais como esse código moral opera no Brasil: "Sua determinação homicida não decorria de uma pulsão nem fazia dele um assassino que matava para defender os próprios interesses. Considerava a violência que praticava instrumento em defesa de um ideal coletivo".

Manso mostra como, em bairros dominados pelas milícias, a sensação dos moradores é de que existe uma certa previsibilidade nos assassinatos, funcionando como punição justa a quem se desvia das regras estabelecidas. "Os roubos, estes sim, seriam ações intoleráveis e covardes. Por serem imprevisíveis e atingirem vítimas escolhidas aleatoriamente." 

Do mesmo modo, esses grupos de extermínio se colocam como oposição ao tráfico de drogas. É curioso que um dos principais gatilhos narrativos de O Poderoso Chefão é a recusa de Vito à proposta de Virgil Solozzo de se envolver na operação do comércio de heroína em Nova York. Se o Don se nega a vender narcóticos no início desse problema, nos anos 1940, hoje em dia as milícias brasileiras já estão, de acordo com o livro de Manso, envolvidas também nesse lucrativo negócio, a despeito de terem crescido sob o pretexto de combater o narcotráfico.

O Poderoso Chefão é um retrato das relações ambíguas e promíscuas entre Estado e crime organizado e de como os valores morais conservadores e a religiosidade permeiam e validam esse intercâmbio, formando a base da experiência contemporânea de violência urbana. Uma leitura reveladora para os tempos atuais.

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