Asfalto selvagem

Carioca-ipanemense, não necessariamente nessa ordem. Bel Pedrosa, cria do fotojornalismo e colaboradora de El País, Le Monde, The New York Times, tirou um tempo para a desordem. Nada de horizonte. Olhou pra baixo, mergulhou no asfalto e voltou cheia de linhas, cores, geometrias e colagens. Nada cabisbaixa. O trabalho se chama No Chão. Sim, é fotografia. E da boa. É fotografia de rua, só que não. Para ver, sentir, deixar-se conduzir ao novo ano que vem aí.

CHRISTIAN CARVALHO CRUZ, O Estado de S.Paulo

29 de dezembro de 2013 | 02h06

Por que fotografar o chão?

Em 2012 estive em Santiago, Chile, e fiquei impressionada com os quebra-molas, ou lombadas. Ao contrário daqui, eles eram muito visíveis, pintados de amarelo, branco e preto, bem gráficos. Resolvi fotografá-los, mas decompondo-os, porque gostei das cores e das formas. De volta ao Rio, nas caminhadas dominicais no calçadão de Ipanema, reparei na sinalização no asfalto, tão precária, quase sempre em branco, mas que também poderia resultar em abstrações legais. A partir desse momento passei a olhar atentamente para o chão nosso de cada dia.

Mas fotografar era só o começo da brincadeira, certo? Depois veio a edição.

Nunca começo um trabalho sabendo aonde quero chegar. Foi ao ver as imagens todas juntas no computador que percebi que poderia fazer uma colagem com elas, e que isso me levaria a outra coisa ainda mais bacana. Agrupei-as por cor, por bairro e comecei a construir as novas imagens. Trabalho árduo, cheio de tentativas, acertos e erros, mas ao mesmo tempo emocionante por permitir que a criatividade e a intuição se manifestassem.

Você gosta mais de fotografar ou de editar?

Fotografar! Me sinto livre, posso fazer o que quiser. O inconsciente vai trabalhando por trás do olhar, desencadeando lembranças, associações, possibilidades. Meu processo de criação não é racional. É visual, intuitivo. Editar é dúvida, angústia.

Se inspirou em alguém?

Não, pelo menos conscientemente. Mas talvez lembre vagamente o trabalho do Sean Scully, apesar de o dele ser pintura e a composição ser mais formal e perfeita. Tem todos os artistas geométricos, a arte abstrata, concreta que sempre fizeram parte de minha vida. Então deve ter um monte de influência inconsciente.

Qual o maior poder da fotografia?

Ih, que duro responder a essa! Bom, não existe "a" fotografia. Existem vários tipos de fotografia. Mas no geral acho que o poder dela é o de comunicar o que o fotógrafo vê. Por trás desse olhar tem todo um conjunto de referencias adquirido ao longo da vida, não importa se o fotógrafo é jovem, velho, de onde vem. Uma fotografia dita universal seria aquela capaz de ser compreendida por qualquer cultura - o que não é fácil. Por exemplo, nesta minha série, os cariocas vão imediatamente associar as fotos azuis com as faixas seletivas de ônibus. Mas o que vão achar os paulistas, os mineiros, os baianos? Aí está a graça: cada um poder ver e sentir o que quiser.

Eis o maior poder da fotografia.

Da arte em geral. Deveríamos acreditar mais na emoção que ela desperta em nós e achar que isso basta. Porque basta!

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