Até quando o sol raiar

Com a casa alagada desde dezembro, seu Toninho e d. Onofra esperam por uma ajuda do céu

Ivan Marsiglia,

30 de janeiro de 2010 | 22h27

Eu não tenho inimizade nesse Romano. Trinta e oito anos a gente mora aqui. O povo da zona leste - Jardim Helena, Pantanal, Jardim Romano - tudo me conhece. Pode perguntar: "Conhece seu Toninho? O que que ele é?" Ali, pra d. Leonora, pro seu Jair... Vão dizer: "Seu Toninho é um palhaço, é nosso aqui". Eu brinco mesmo, dou risada. Tamo nesse mundo de passagem e não quero ter briga com ninguém. Mas olha lá a minha casa. Tenho carro, propriedade, tudo pago, não é terreno invadido. Debaixo d’água. Mas vou culpar prefeito, governador, presidente? Isso aí é a vontade de Deus, meu filho.

 

Minha terra mesmo é São José dos Peixes, Minas Gerais. Fui com 14 anos pra Governador Valadares tirar documento. Antônio Hipólito Siqueira, filho de José Hipólito Siqueira e Josefa Rocha de Jesus, nascido 19 de junho de 1946. Tenho 64 anos. Dos meus oito irmão, morreu um, ficou sete. Só eu vim pra São Paulo. Ela é Onofra do Nascimento Siqueira, nascida 4 de janeiro de 1947, filha de João do Nascimento e Dorzina Reginalda do Nascimento. Casemo lá em Minas Gerais. Quarenta anos junto.

 

Quando chegamos aqui foi por intermédio de arrumar emprego. Minha sogra já morava ali pegado. Trabalhei 27 anos em firma. Ih, meu filho, se eu mostrar minha carteira, você fica besta... A tanta profissão que eu tenho. Arrumador, tecelão, faxineiro, peão, ajudante-geral. Fiz tudo. Sempre com esse meu jeito assim, palhaço, que eu ganho simpatia. Depois, fui trabalhar por conta na minha barraca. Antes da enchente, ela ficava ali, ó, de frente de onde está o posto da Defesa Civil. Todo dia é uma fila danada pro atendimento. Pena que não tem um barco agora pra entrar lá em casa. Senão, te mostrava.

 

Tem nove carroça lá. E aqui ficava meu ponto. Uma barraca de melancia, outra de banana, cebola, batatinha... Em cima, punha amendoim, bala. Comprava no Ceasa e trazia de carro - que eu tenho três, uma Brasília, uma Kombi e um Fiat Uno. Os três no meu quintal. A perua ficou onde a água estava mais alta, então tirei o motor e coloquei em cima da mesa da sala pra não molhar. Se tá seco, já não sei. Estou desde dezembro sem poder entrar em casa. Nem vender nada. O que tinha de economia, vou gastando. Aluguemo um cômodo no Jardim Itaquá: 300 reais o mês.

 

Na correria, tiramo de casa só os documento, roupa, geladeira, sofá. Ficou o guarda-roupa, minhas ferramenta, máquina de costura, televisão, mesa, compressor... Tudo debaixo d’água. Um prejuízo. A Onofra tem problema de epilepsia. Não pode passar nervoso, cai toda hora. E a gente nessa agonia de lá pra cá, esperando pra ver se a água baixa e salvar mais alguma coisa.

 

Esse bairro aqui, vou explicar como ele era. Quem pode contar a história do Romano é eu e seu Zaná, que mora ali, um barrigudo. Quando nós viemos pra cá, em 1971, não encostava ônibus, não tinha água, nem luz. Era só mato e rio: a várzea. Tinha espaço, a gente jogava bola - eu mais os menino. Depois foi chegando gente que não acabava nunca mais.

 

Comprei o terreno por 240 cruzeiros. Paguei prestação, em seis anos. Tem escritura, imposto. Criemo os filhos tudinho aqui. Oito. Hoje, um é dono de pizzaria, outro tem distribuidora de doce, dono de lava-rápido... O caçula trabalha de salva-vida. Nenhum é bandido, maconheiro - nem fumar que nem eu eles fuma. Sabe o que é o carinho de pai e mãe. Depois casaram, foram embora. Ficou nós dois.

 

Aqui nunca vi tanta água. Pode perguntar: na casa daquele menino ali, o Betinho, nunca tinha entrado. Na da d. Joquina, também não. Na minha, então, dentro mesmo nunca veio enchente alta assim. É a primeira vez. Até ano passado, chovia e eu esperava passar. Aí pegava a carroça de fruta e ia.

E quando encheu no 4 de dezembro, dia de Santa Bárbara, quis ficar. Aguentemo. Peguei até lenha do forno e fiz uma passarela pro povo passar na rua. Depois veio tão forte que arrancou as madeiras tudo. Entrou na sala, passou do joelho, quase um metro de água. Falei: "Não tem jeito, vamo ter que sair". Já tem quase dois mês e a gente não consegue voltar.

 

Acontece que eu não gosto de ficar triste... Mas às vezes, quando tô sozinho, eu choro. Trabalhei tanto, adquiri minhas coisa, não tenho um centavo em casa roubado. Lutei pra ter aquilo ali. Mas pra que vou brigar, fazer protesto, queimar carro dos outro? Você num viu aquele balanço que deu nos prédio lá de, de... do Haiti? Quem segurou aquilo? Caiu tudo. Até aquela muié que cuidava das criança morreu debaixo do escombo. Entendeu?

 

Diz que no dia 8 de dezembro fecharam a represa, lá na Penha, e por isso a água subiu mais aqui. Mas a gente tem que pôr na cabeça que se a represa encheu foi porque choveu. E vou explicar uma verdade, que sou uma pessoa de experiência. Tá vendo aquele lixo ali? Põe sentido: se o lixeiro passa as 8 da manhã e eu dormi até 9, guardo em casa para pôr no outro dia. Mas, o quê? Tem gente que, morre um cachorro, pega e joga no rio. Destrói a carne dele, os osso vão tudo pro buraco. Tem gente que joga sofá, garrafa térmica... Que falta bueiro, falta. Mas a gente também tem que fazer a nossa parte, né?

 

O menino do meu compadre, Divino, tomou pedrada na cabeça, no dia da manifestação. A filha da Zezinha é que socorreu ele. Eu disse, "rapaz, entra nisso não". Tenho certeza que o prefeito da cidade não ia mandar essa água que caiu. Nem o governador, nem o presidente. Quando Deus quer as coisa, ninguém desmancha, meu filho.

 

Tristeza não paga dívida. É o que eu digo. Então vou brincando, sorrio. A única coisa que queria... Esse auxílio aluguel eu fui pedir ontem, perdi a viagem. Tinha muita gente, não podia mais dar senha. Hoje voltei de novo, tá completa a senha. Mas acredito que vem. Nem que depois que todo mundo fez, por último.

 

Então a gente espera, que um dia a chuva para e a água abaixa. Onofra morre de medo da parede cair antes. Mas nossa casa é de laje, bem feita. E bonita, rapaz! O terreno tem 7 de frente e 25 de fundo. Reformei tudo no começo do ano, vou arrumar de novo, se Deus quiser. Se eu topo vender para esse tal de Parque Linear, que querem fazer aqui? Vendo nada. Jamais eu tenho vontade de sair do meu bairro. Aqui é a minha terrinha, né? Conheço todo mundo, meus filhos foram tudo criado aqui, firmei comércio, fiz vida. O Romano é bom, meu filho. Aonde eu tô tem água, luz, tudo certinho. Olha aí o posto do bombeiro, polícia, pronto-socorro 24 horas. Vamo agradecer eles de não ter abandonado nós.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.