Cayo de Oliveira Franco/IBGE
Cayo de Oliveira Franco/IBGE

Atlas literário do IBGE conta história da costa brasileira a partir de romances

Coleção está no quarto volume e já retratou sertões e Sul do País desde 2006

Amanda Calazans, Especial para o Estadão

05 de julho de 2021 | 10h00

Existem pessoas que só conhecem o mar pelo rumor que faz um livro quando tomba. A metáfora é da poeta Ana Martins Marques em O Livro das Semelhanças (2015), e se aplica ao Atlas das representações literárias de regiões brasileiras, edição Costa brasileira. Divulgado na última sexta-feira, 25, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o material é o quarto volume de uma coleção que pretende mapear o Brasil a partir da literatura.

A divisão da obra não segue a lógica das federações ou das grandes regiões brasileiras, mas faz um recorte analítico e reúne áreas litorâneas definidas pelas dinâmicas da ocupação do País, como os conflitos com povos originários, a exploração de disputas interétnicas por reinos europeus e o tráfico negreiro.

Por isso, a última edição do atlas literário escolheu retratar o sul da Bahia; Santos e o litoral paulista; Olinda, Recife e a costa dos Engenhos; Salvador e o recôncavo baiano; Rio de Janeiro e a baía da Guanabara; São Luís e a baía de São Marcos; Belém e a foz do rio Amazonas; o norte Fluminense; Rio Grande de São Pedro e a costa sul; e a ilha de Santa Catarina.

O quarto volume é o maior da série, com 297 páginas. Destinado principalmente à comunidade universitária, o material também pode contribuir na elaboração de roteiros turísticos, a exemplo de Grande Sertão: Veredas em Minas Gerais, e ser utilizado no último ano do ensino médio. “A gente deveria incorporar muito mais a literatura no processo de ensino-aprendizagem como um todo, ao longo das graduações e não só nas áreas de humanas”, afirma a coordenadora do projeto, a geógrafa Maria Lúcia Vilarinhos.

Para entender a história das regiões litorâneas, o leitor conta com guias como Jorge Amado, Ana Miranda, João Ubaldo Ribeiro, Maria Firmina dos Reis e José Lins do Rego, além do autor maior, Machado de Assis, cujo mês de nascimento foi escolhido pelo IBGE para lançar a edição.

Cada seção do atlas literário da costa brasileira possui um contexto histórico do local e dos romances que o retrataram. Depois, seguem-se diversos trechos acompanhados por mapas e fotografias. Compreendendo a região como espaço vivido, essas obras não foram eleitas por conterem uma descrição do espaço. “A fidelidade do romance para a gente, na Geografia, diz respeito à visibilidade dos processos que caracterizam a região”, explica Maria Lúcia. É possível encontrar menção a lugares e suas características, mas isso não é o mais importante. “O entendimento da região é sempre a vida de relações.”

O projeto já contemplou o Sul com o volume Brasil Meridional (2006) e o interior do País em Sertões Brasileiros I e II (2009 e 2016). Além da edição Costa Brasileira, está previsto um atlas das representações literárias sobre a Amazônia, ainda sem previsão de lançamento. Toda a coleção está disponível gratuitamente no site do IBGE.

Leia trechos selecionados pelo Atlas das representações literárias de regiões brasileiras, volume Costa brasileira:

Santos e o litoral paulista

“O capitão ordenou a um grupo de marujos, no qual estava Hans Staden, que descesse num bote para explorar a praia e a oresta que se levantava mais além. No navio, a espera foi angustiante. Estavam preocupados com as outras duas embarcações da frota, incluindo a San Miguel, a nau capitânea, e com seu próprio destino. Sabiam que o Brasil era habitado por nativos guerreiros - alguns dos quais inimigos dos portugueses e de seus aliados, como eram os espanhóis. Por isso, alguns dias depois, quando viram ao longe o bote de exploração voltar, colocaram-se em estado de alerta. Cercado de índios, com uma expressão séria e tensa. Hans Staden estava de pé no bote, à proa. A tripulação do navio começou a gritar: ‘Onde estavam os outros, que haviam partido com o alemão? Haviam sido mortos pelos índios? E já se preparavam para atirar quando Hans Staden, de longe, caiu na risada.’”

Luiz Antônio Aguiar

Hans Staden: viagens e aventuras no Brasil, 1988, p. 29

Olinda, Recife a a costa dos engenhos

“Ela escutava os sussurros do homem se apegando à Virgem, arrependido talvez das tristezas causadas à esposa, das festas que organizara em Monjope, quando ertava descaradamente com atrizes de passagem pelo Recife e que vinham ao Engenho trazidas por ele, em cabriolés alugados na Cocheira de Santo Amaro em nome da condessa. Maria Amália olhava aquilo, não ousando confessar para si própria que era uma traição. O conde ngia associar a esposa à apreciação das mulheres, abraçava-a diante das convidadas, perguntava-lhe se não era bela a esposa, cette petite brésilienne. As mulheres concordavam e Maria Amália lhes sorria, um riso triste de resignação.”

Luzilá Gonçalves Ferreira

No tempo frágil das horas, 2003, p. 92

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