Kevin Flemin/Corbis
Kevin Flemin/Corbis

Autobiografia do físico Richard Feynman revela figura bem-humorada

Cientista premiado com o Nobel passou pelo Brasil e viveu aventuras tão malucas que são quase inacreditáveis

Paulo Nogueira*, Especial para o Estado

01 de junho de 2019 | 16h00

Acaba de sair no Brasil a autobiografia de um dos crânios da ciência universal, escrita em 1985. Embora fale de física quântica e outros babados, ela parece da autoria de Groucho Marx – e brinca em serviço até no título: Só Pode Ser Brincadeira, Sr. Feynman!. Hoje em dia, quando ninguém pode fazer xixi fora do penico, é provável que um livro assim fosse inconcebível. 

Comecemos pelo princípio: em 1959, o cientista inglês (e ficcionista!) C.P. Snow lançou Duas Culturas, um livro no qual deplorava o fosso entre ciências e humanidades. Segundo ele, os literatos surtam se um cientista ignora Shakespeare, mas acham normalíssimo um escritor nunca ter visto mais gorda a segunda lei da termodinâmica. A reação nas trincheiras estéticas foi colérica. De tal forma que, antes de publicar a beligerante réplica do crítico literário F.R. Leavis, a revista Spectator achou melhor pedir a Snow que prometesse não processá-los por difamação. A meu ver, porém, deu Snow na cabeça. Tanto que, em 1963, o físico Murray Gell-Mann procurava um nome para uma nova partícula subatômica. Xeretando no Finnegans Wake, de James Joyce, topou com “quark” na frase “Three quarks for Muster Mark!” (quark como o grito de uma gaivota). Lacrou.

De lá para cá, divulgadores proeminentes deram uma mãozinha para gente que, como eu, se interessa pela ciência, mas em matemática é (com trocadilho) um zero à esquerda. E nas mais variadas áreas, como atestam Stephen Jay Gould, Carl Sagan, Antônio Damásio, Steven Pinker, Edward O. Wilson, Stephen Hawking e outras figurinhas carimbadas. 

Embora contenha informação científica, Só Pode Ser Brincadeira, Sr. Feynman! não é uma obra de divulgação, mas umas memórias picarescas e uma gostosura verbal no nível de As Aventuras do Sr. Pickwick, de Dickens. Como diz o editor: “Às vezes é difícil acreditar que tantas coisas malucas e maravilhosas possam ter acontecido ao autor numa só vida.” Bill Gates realça no prefácio: “Richard Feynman foi uma das figuras mais apaixonantes de seu tempo, como indicam o grande respeito dos colegas, sua habilidade como arrombador de cofres e o seu talento com o bongô.” Da mãe, Feynman aprendeu que “as mais elevadas formas de compreensão humana que podemos alcançar são a risada e a compaixão”. Professor fabuloso (“Não sei o que faria se não lecionasse”), foi saudado por George Steiner em Lições de Mestres: “Só Pode Ser Brincadeira, Sr. Feynman! é um autorretrato jazzístico, aquilo que os astrofísicos chamam de ‘singularidade’”. 

Quase ainda dente de leite, Feynman foi convidado a dar um seminário em Princeton, onde estudava. Teve um treco quando viu que, na plateia, se acotovelavam sumidades como John Von Neumann e Wolfgang Pauli. Na hora H, o anfitrião lhe cochichou: “O professor Einstein vem muito raramente a seminários, mas seu trabalho é tão interessante que ele já chegou.” Claro que Feynman bombou, mesmo que às vezes fosse necessário improvisar: “Eu sempre tinha esse problema, de precisar demonstrar para aqueles caras alguma coisa em que eles não acreditavam – como quando discutimos se a urina saía simplesmente por gravidade, e tive de demonstrar que isso não era verdade, provando que se pode urinar de cabeça para baixo.”

Com 27 anos, ainda nem sequer formado, Feynman foi recrutado pelo Projeto Manhattan, em Los Alamos, Novo México. Primeiro recusou, depois reconsiderou: “Os alemães tinham Hitler, e a possibilidade de que aprontassem uma bomba atômica antes de nós era aterradora.” Num dos primeiros testes da bomba, no deserto, ele foi o único que teve peito para tirar os óculos escuros: “A única coisa que podia prejudicar os olhos era a luz ultravioleta. Postei-me atrás do para-brisa de um caminhão, pois ela não atravessa o vidro, e vi tudo a olho nu, em perfeita segurança.”

Numa noite de 1965,  estava de bobeira  quando toca o telefone, às 4 da matina. “Professor?” “Ei, por que estão me incomodando a essa hora?” “Achamos que gostaria de saber que ganhou o Nobel da física.” “Beleza. Mas agora estava dormindo.” Desligou e voltou para os braços de Morfeu. Esse esplêndido professor Pardal era também um mulherengo inveterado. Daí que tenha sido erroneamente atribuído a ele um epigrama do diretor do Projeto Manhattan, J. P. Oppenheimer: “A física é como o sexo: certamente dá alguma compensação prática, mas não é por isso que a fazemos.”

Na década de 1950, Feynman passou duas temporadas no Brasil, onde lecionou no Rio de Janeiro – e ralou para aprender português. Foi recebido pelo físico César Lattes, diretor do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas. “A rede nacional de TV queria gravar imagens do nosso encontro e começaram a filmar, mas sem nenhum som. ‘Finjam que estão conversando e digam qualquer coisa’, pediu o cinegrafista. Lattes me perguntou: “E aí, Richard: já tem um dicionário de pegação?” 

A seção do livro sobre as aventuras brasileiras de Feynman são hilárias – incluindo desfile num bloquinho do Leblon – e um tiquinho deprimentes. “Fui convidado para dar uma palestra na Academia Brasileira de Ciências. Achei que ia falar na língua local, e escrevi-a num português miserável. Dois alunos corrigiram minha gramática e treinaram comigo para que a pronúncia fosse correta. Bom, cheguei à Academia e o primeiro palestrante, um químico brasileiro, deu sua conferência em inglês. Não consegui entender patavina, pois sua pronúncia era horrível. Depois, levanta-se outra cara e dá sua palestra... em inglês! Quando chegou a minha vez, eu disse: ‘Desculpem, mas não havia compreendido que a língua oficial da Academia Brasileira de Ciências era o inglês. Me perdoem, mas terei de falar em português’. E foi o que fiz. E aí o cara seguinte se ergueu e disse: “Vou seguir o exemplo do colega dos EUA e dar minha palestra em português”. Até onde sei, mudei a tradição da língua usada na Academia Brasileira de Ciências.’”

No fim da estadia, Feynman proferiu outra palestra, e fez críticas demolidores ao sistema educacional brasileiro, que dava dó. “Quando acabei, o chefe do departamento de formação científica levantou-se e disse: ‘O sr. Feynman nos disse coisas difíceis de ouvir, mas ele ama a ciência e é sincero. Acho que devemos ouvi-lo. Cheguei aqui sabendo que temos algum mal-estar em nossa educação, mas agora vejo que temos um câncer!’ Em compensação, o próprio Departamento de Estado dos EUA, recebendo o mesmo relatório, discordou: ‘Isso só mostra como é perigoso mandar uma pessoa tão ingênua ao Brasil. Pobre sujeito: só causou confusão. Não entendeu nada.’” Enfim: desde o princípio o Brasil não é para principiantes.

Feynman morreu em 1988, aos 69 anos, de duas formas raras de câncer, após uma derradeira tentativa de cirurgia. Suas últimas palavras: “Eu odiaria morrer duas vezes. É tão tedioso.” E tedioso era tudo o que essa figuraça nunca foi.

*PAULO NOGUEIRA É AUTOR DE ‘O AMOR É UM LUGAR COMUM’ (INTERMEIOS)

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