Richard Perry/The New York Times
Richard Perry/The New York Times

Autobiografia revela detalhes do pianista prodígio Evgeny Kissin

'Memórias e Reflexões' aborda opiniões políticas, infância e obra do músico russo

João Marcos Coelho*, Colaboração para o Estado

26 Agosto 2017 | 16h00

“Me dê sua ansiedade”. Foi assim que Emília, a mãe do pianista russo Evgeny Kissin, sempre o preservou do “mundo lá fora”. E, ao mesmo tempo, deu-lhe condições para afirmar planetariamente seu incrível talento já revelado aos precoces 11 meses, quando cantarolava o tema da fuga em lá maior do segundo livro do Cravo Bem Temperado, de Bach, que sua irmã mais velha Alochka estudava ao piano. 

Kissin é um dos mais recentes fenômenos de criança prodígio ao piano, longa linhagem que começou (e teve seu ápice) com o pequenino Wolfgang Amadeus Mozart compondo sinfonias antes dos dez anos de idade. Se aos 11 meses cantarolava, aos 2 anos o menino já apelidado de Zhenya improvisava ao piano, afirmam testemunhas familiares (Emília é professora de piano). Aos 6 anos começou a estudar com sua professora Anna Pavlovna Kantor, na Escola Gnessin, em Moscou, onde nasceu. Ela o acompanha até hoje. Aos dez solou o concerto de Mozart K. 466; aos 11, realizou seu primeiro recital em Moscou. E, em 1984, aos 13 aninhos, estreou na prestigiadíssima Grande Sala do Conservatório de Moscou como solista dos dois concertos para piano de Chopin, ao lado da Filarmônica Estatal de Moscou regida por Dmitri Kitaenko. 

Nos meses seguintes, cinco discos gravados de apresentações ao vivo foram lançados na URSS. Em 1987, aos 16 anos, já se apresentara na Europa Oriental, Japão e culminou no Festival de Berlim, ao lado dos Virtuoses de Moscou, liderados por Vladimir Spivakov, em 1988 – mesmo ano em que, em dezembro, estreou com a Filarmônica de Berlim e Herbert von Karajan. 

Contratado exclusivo da Deutsche Grammophon, Kissin permaneceu uma espécie de esfinge para o grande público. Pianista de notável talento, legítimo sucessor dos grandes do piano russo, como Richter e Gilels, escondeu até o limite sua vida pessoal. 

Em sua última passagem pelo Brasil, um melômano paulistano acostumado a frequentar os mais seletos festivais europeus de verão disse que ele estava “virando gente”, crescera como ser humano, “está até namorando”. O casamento, em 11 de março passado, em Praga, com Karina Arzumanova, e a publicação deste buquê de revelações pessoais e artísticas completam seu “selfie” atual.

Em suas recém-lançadas Memórias e Reflexões, livro dividido em três partes – Childhood, Youth e Varia –, há desde passagens como “dizem que me obrigaram a tocar piano logo cedo. Mentira. Eu é que sempre queria estar num piano, brincando, improvisando” até “Sempre me perguntam o que eu seria se não fosse pianista: guia turístico ou jornalista freelancer. Elas têm em comum o fato de que compartilham com outras pessoas o que amam, o que lhes é caro, importante e interessante.” Mais do que conhecê-lo na intimidade, é importante saber como Kissin constrói suas interpretações tão pessoais. Todos que o assistiram em recital na Sala São Paulo, dois anos atrás, viram como ele assume todos os riscos. 

Levou o dramatismo de Beethoven ao limite, acentuando os já enormes contrastes entre o lírico e o tempestuoso que se sucedem numa leitura sanguínea da Appassionata (sonata 23, opus 57), mas ao mesmo tempo de tensão assustadora. 

Desde o recital me pergunto a razão de uma interpretação tão selvagem (e por isso mesmo notável). A resposta está neste livro. A certa altura, Kissin diz que se sabe que Beethoven, ao tocar suas sonatas, mudava o tempo conforme o clima da música. “Mas na Rússia, e até entre os músicos mais respeitados, há até hoje o forte preconceito de que ‘os clássicos vienenses devem sempre ser tocados no mesmo tempo’.

Em outro trecho, revela que “gosto de recitar. Em casa tenho gravações minhas recitando, aos 3 anos, os três ursos de Tolstoi, fazendo as três vozes de modo diferente. Tenho feito eventos poéticos, lendo poemas em russo e iídiche. Uma dessas noitadas aconteceu com Gérard Depardieu: eu lia poemas russos e judeus no original e ele lia as traduções em francês.” Foi Depardieu que o estimulou a isso. Curioso, mas Kissin não canta, e sim recita artigos e poemas embaixo do chuveiro: “Este é meu método de relaxamento.”

Um desses artigos é o virulento Two Cheers for Colonialism, duas vezes mais longo do que o artigo que você está lendo, escrito em 2002 pelo cineasta indiano Dinesh D’Souza. “Ele desmonta de modo brilhante os mitos marxistas de que o Ocidente cresceu às custas dos saques nas colônias e de que sem o imperialismo ocidental os países do Terceiro Mundo supostamente poderiam ter se desenvolvido mais rapidamente e as população viveria melhor. D’Souza demole um a um estes estereótipos, incrustados no consciente e também no subconsciente dos muitos devotos da esquerda politicamente correta.” 

Desculpe-se sua ingenuidade política. Afinal, “em casa os adultos jamais falavam de política perto das crianças”. Ele só foi saber que “Stalin era um cara ruim” na escola, ocasião em que igualmente aprendeu, ora veja, a montar e desmontar um Kalashnikov, o famoso fuzil AK-47. Ah, as contradições que se vive em regimes repressivos são universais. Desmancha-se constrangedoramente em elogios a Khrennikov, o “Sarney” mais sinuoso da música russa no período soviético, por ter arrumado um apartamento mais amplo do que o de 36 metros quadrados onde se espremera por décadas toda a família (seis pessoas). Gestos como este “ganharam” o jovem prodígio.

Esse Khrennikov é o mesmo crápula que ajudou Jdanov a reprimir Shostakovich e Prokofiev em 1948; e sempre se manteve próximo ao poder, manipulando os cordões da política musical até sua morte, em 2007, aos 94 anos. 

Há cerca de 20 anos Kissin carrega no bolso um talismã sempre que pisa num palco. “Foi Eva, a filha mais velha de Arthur Rubinstein, que me deu logo depois de meu recital no Carnegie Hall: um lenço com as iniciais A.R. com a seguinte frase: ‘Você é o único pianista cujo toque me lembra meu pai’.” 

Ele também carrega outro talismã, que felizmente compartilhará mais uma vez em setembro, em sua volta à Deutsche Grammophon, após 25 anos na Sony Classical, da maneira que mais gosta: um álbum duplo dedicado a Beethoven só com performances ao vivo captadas em recitais pelo planeta.

No repertório, claro, a selvagem leitura da Appassionata (Amsterdã, 2016), além de outras quatro entre as mais conhecidas sonatas do compositor: Ao Luar, op. 27, no. 2 (Nova York, 2012), Les Adieux, no. 26, op. 81 (Viena, 2006), no. 3, op. 2 (Seul, 2006), as 32 Variações sobre um tema original WoO 80 (Montpellier, 2007) e a sonata-testamento, no. 32, opus 111 (Festival de Verbier, 2013).

*João Marcos Coelho é jornalista e crítico musical. Coautor do livreto-DVD 'A Democracia das Madeiras' (Selo Sesc, 2016), entre outros 

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