Isabel Fonseca/Reuters
Isabel Fonseca/Reuters

Autoficção de Martin Amis mostra sua relação com Philip Larkin, Saul Bellow e Christopher Hitchens

Autor começou a escrever 'Inside Story' após uma ex-namorada ter dito que descobriu que Kingsley Amis não era seu pai biológico

Parul Sehgal, The New York Times

24 de outubro de 2020 | 16h00

Há cerca de 20 anos, Martin Amis - o escritor com complicações psicológicas decorrentes de problemas familiares que fazem lembrar a Sylvia Plath - recebeu uma carta particularmente angustiante de uma ex-namorada.

Seu pai não é quem você pensa, ela dizia. O pai de Amis, ela afirmava, não era o romancista Kingsley Amis, mas o melhor amigo de Kingsley, o poeta Philip Larkin - um homem tão tímido com as mulheres que certa vez brincou dizendo: "Sexo é bom demais para compartilhar com qualquer outra pessoa."

Ela dizia a Amis que tinha conseguido esse furo enquanto dormia com Kingsley. Acho que devo mencionar aqui que a notícia chegou em 11 de setembro de 2001.

Deste mistério brota a narrativa confusa de Inside Story, o novo livro de Amis. Com 523 páginas, é um de seus romances mais longos. Ele nos diz que provavelmente será o último.

O livro é uma “autobiografia romanceada” - uma combinação instável e carismática de fatos e ficção. Amis revisita as histórias que ele contou em seu livro de memórias Experiência. Algumas outras passagens foram enxertadas de seus ensaios e discursos. Ele reproduz um artigo da New Yorker na íntegra.

O mistério em si é um pouco provocador. A ex - a quem ele chama de Phoebe Phelps e descreve como um amálgama das mulheres que conheceu - é notoriamente indigna de confiança. Ainda assim, a confusão sobre sua origem serve ao seu propósito - uma isca suculenta - como a verdadeira e mais sombria história, de certo modo, das mortes de três escritores amados por Amis: um poeta (Larkin), um romancista (Saul Bellow) e um ensaísta (Christopher Hitchens).

Por 20 anos Amis tentou escrever este livro. Ele chegou a terminar uma primeira versão antes, mas a declarou como sem vida, desesperada. Em Inside Story, ele descreve considerando o quadro geral, histericamente se examinando em busca de uma pulsação de inspiração. Para qualquer escritor, seria uma perspectiva assustadora. Para este escritor, foi uma tortura especial. Era um momento que ele vinha esperando.

Lucian Freud disse certa vez que qualquer comentário que fizesse em relação a suas pinturas era tão relevante para elas quanto o som que um jogador de tênis produz involuntariamente ao fazer uma jogada. Essa tem sido a visão de Amis. Examinar a prosa, não a vida, ele repreende. E, no entanto, a marca registrada de sua própria crítica literária é seu interesse nas pressões que a vida e a arte exercem uma sobre a outra, a marca que o vício e a pensão alimentícia deixam nas sentenças  - julgamentos que ele faz com a confiança serena de filho de um escritor.

Em sua coleção de ensaios mais recente, The Rub of Time (Pressão do tempo, em tradução livre), Amis se dedica a essa “contribuição da ciência médica” singularmente duvidosa, o escritor envelhecido. Os escritores agora vivem mais que seus talentos, diz ele. Eles entram em decadência aos olhos do público. “É evidente que a compreensão e o dom se desgastam”, explicou ele. “Não vejo muitas exceções a essa regra.”

O que o tempo rouba dos escritores, de acordo com Amis? Roubou a “delicadeza moral” de Vladimir Nabokov (seus últimos romances estão “infestados”, Amis argumenta, com garotas de 12 anos). Diminuiu a audição de John Updike - e roubou a própria fala de Kingsley, do romancista Iris Murdoch, do herói de Amis, Bellow, que morreu de Alzheimer.

As ansiedades de Amis estão implícitas: o que o tempo vai tirar de mim? Já tirou alguma coisa de mim? Como eu vou saber?

Sua reputação já está em uma posição curiosa. Deixa para o rolo de memórias. A casa da infância de Amis era aconchegante, caótica e generosamente permissiva. Não teria sido notado, disse ele uma vez, se tivesse acendido um cigarro debaixo da árvore de Natal aos 5 anos de idade.

Depois da universidade, sua ascensão foi rápida e profundamente alarmante para um pai rival. Ele publicou seu primeiro livro - The Rachel Papers (Notas sobre Rachel, em tradução livre) - aos 24 anos e assumiu o cargo de editor literário da revista The New Statesman, onde seu círculo íntimo incluía Hitchens, Ian McEwan, Ian Hamilton, Julian Barnes.

Seu pequeno grupo alimentava a paranoia em todos os bairros previsíveis. Norman Mailer, sensato como sempre, anunciou que a Inglaterra literária estava nas garras de uma cabala gay liderada por Amis, Hitchens e Hamilton. Hitchens mais tarde abordou Mailer em uma festa. “Acho isso muito injusto”, disse ele, “com Ian Hamilton”.

Escrevo sob a influência de Amis. Você não pode escolher suas influências decisivas tão cedo quanto sua mão dominante. Amis descreveu o encontro com o trabalho de Bellow com um choque de reconhecimento: Ele está escrevendo apenas para mim. Então é isso. As frases incisivas de Amis me agarraram pela nuca e me levaram embora para sempre. A insolência dos romances, a tolice elevada, a vergonha, as piadas: “Depois de um tempo, o casamento é uma relação de irmãos - marcada por episódios ocasionais e bastante lamentáveis de incesto”.

Por que nem todo mundo escreve assim? Eu pensava. Não vem à mente deles ser rude assim, engraçado dessa forma?

Amis parece um pouco como um vício amado atualmente. Você o lê por entre os dedos. Como crítico, ele permanece forte e original. Seu livro de memórias é um modelo do formato. A trilogia não oficial de romances - Campos de Londres, Grana e A informação - perdurará. Mas há suas declarações horríveis a respeito dos muçulmanos após o 11 de setembro. Existem suas tentativas enfadonhas de escrever sobre uma tragédia histórica (Koba, o terrível, Casa de encontros). Há mulheres em seus romances, sempre um pouco caricaturadas, mas agora frequentemente tão tolas, tão extremas (apenas em suas proporções físicas) que até Robert Crumb poderia aconselhar um pouco de moderação.

Inside Story baseia-se em todos os itens acima. Há uma femme fatale ridícula (Phoebe Phelps), os retratos íntimos do passado, muita conversinha em relação a geopolítica. Longas seções de orientações sobre como escrever interrompem a narrativa. A estrutura não imita a memória tanto quanto a maratona de conversas entre Amis e Hitchens, algumas replicadas aqui, que vagam entre história, fofoca, profissão e jargões do ofício.

Não seja desconcertante, não seja indigesto, ele avisa ao jovem escritor. Use moderação ao escrever a respeito de sonhos, sexo e religião. Seja um bom anfitrião para seus leitores.

É um bom conselho. Por que ele não o segue?

Inside Story está repleto de sonhos, fantasias sexuais e divagações sobre o judaísmo, uma obsessão de longa data. O livro parece construído para confundir. É uma orgia de inconsistências e escolhas técnicas inexplicáveis. Por que alguns personagens são referidos por seus nomes reais (amigos de Amis, por exemplo) e outros recebem pseudônimos (sua esposa, a escritora Isabel Fonseca, é referida por seu nome do meio, Elena)? Qual é a lógica por trás das mudanças repentinas no “tapa-sexo” da terceira pessoa? Por que um escritor que, em uma página, critica Joseph Conrad por clichê, pelo pecado de "num piscar de olhos", tão brandamente usa "olhos brilhantes e cauda espessa" - e pior? Qual ... é ... o objetivo ... da ... quantidade ... insana ... de elipses?

O mais enlouquecedor de tudo é que Inside Story também inclui alguns dos melhores textos de Amis até hoje.

As seções a respeito de Bellow e Larkin, sobre as quais ele escreveu exaustivamente, são calorosas e familiares. Há cenas da desorientação de seus últimos dias juntos, de Bellow assistindo compulsivamente a Piratas do Caribe. Ele é um menino muito corajoso, ele diria em relação a Jack Sparrow, com emoção genuína.

É ao escrever a respeito de Hitchens que Amis mostra um novo registro. Um escritor tão elogiado por seu estilo (mas também ridicularizado pelo mesmo motivo), Amis acessa uma profundidade de sentimento e uma clareza de linguagem inteiramente nova a sua obra. Ele se maravilha com a capacidade do amigo de enfrentar a morte com coragem. Ele fica intrigado com o que ainda não entende - principalmente o apoio de Hitchens à Guerra do Iraque, que ele afirma que Hitchens lamentava profundamente.

Em uma cena, Amis ajuda Hitchens enquanto ele dá um mergulho. "Você se importa?", Hitchens perguntou, agora doente. Nadando ao lado dele, Amis se lembrou de ter ajudado seu filho a aprender a andar com sapatos apropriados. “Não”, ele respondeu. "Eu amo fazer isso."

Nada em Amis me preparou para tais cenas, para a quietude e simplicidade delas. Martin Amis, como Phoebe Phelps, tem conservado o poder de surpreender. Uma vantagem inesperada do envelhecimento? Ele nunca vai admitir isso. Mas podemos dizer dele, como ele diz de Phoebe: “Ela é como uma personagem de um romance em que você quer pular as páginas e ver como ficou. De qualquer forma. Não posso desistir agora." / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

Tudo o que sabemos sobre:
Martin Amisliteratura

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.