Ryan Pfluger/The New York Times
Ryan Pfluger/The New York Times

Autor de 'Psicopata Americano', Bret Easton Ellis lança livro de ensaios

Polemista estreia na não ficção em seu primeiro livro publicado em nove anos

Lauren Christensen, The New York Times

06 de abril de 2019 | 16h00

Bret Easton Ellis sabe o que é má publicidade. Desde que seu livro de estreia, Less Than Zero, de 1985, fez dele uma sensação literária, sua ficção violentamente niilista e sua persona publica politicamente incorreta têm lhe valido tanto aclamações quanto fúria. Após três décadas de carreira, com cinco romances, uma coleção de contos, um podcast e sucessivas polêmicas na mídia, Ellis ainda tem o que dizer. No dia 16 ele publica seu primeiro livro em nove anos – também sua estreia em  não ficção -, uma coletânea de ensaios denominada White. Nem todos vão gostar, mas ele não liga.

“Sinto-me muito à vontade”, disse ele. “É o tipo de livro para obsessivos por Bert Easton Ellis.”

Refrescando a memória dos não obsessivos: o sucesso sem igual de estreia de 1985, sobre as escapadas amorais dos ricos, mexeu com os jovens de Los Angeles, transformando estudantes de faculdades comunitárias em acessórios da cena nova-iorquina, retratando de premiações da MTV ao nightclub Nell’s, frequentemente com seu amigo Jay McInereey, do “Brat Pack literário”. Ellis lembra seu apartamento da época no East Village como “antro de imoralidade”. Críticos, ele era o enfant terrible; para os fãs, ele definiu sua geração. 

Foi durante esses anos de prodigalidade, depois  de um segundo romance, mais convencional, ser recebido com indiferença, que Ellis escreveu o noir nova-iorquino O Psicopata Americano, sobre um impiedoso materialista de 26 anos, operador do mercado financeiro, que sofre um breackdown e comete horrendos estupros e assassinatos.    

Sombrias passagens ligando o filme às revistas Time e Spy causaram indignação e, em novembro de 1990, a editora Simon & Schuster cancelou a publicação do livro dois meses antes do lançamento programado. Os editores Sonny Mehta e Gary Fisketjon, da Alfred A. Knopf foram imediatamente atrás dos direitos e o publicararam como brochura em março de 1991.

“Entregamos um best seller à Knopf”, disse Robert Asahina, o editor da Simon & Schuster que havia comprado inicialmente os direitos. “Todo mundo lucrou com ele, menos nós. Bret merece o sucesso que teve.”

Mas não foi só sucesso. Bret recebeu ameaças de morte pelo correio. Gloria Steinem denunciou o livro. A presidente da filial de Los Angeles da Organização Nacional das Mulheres, Tammy Bruce, pediu boicote, afirmando no New York Times: “Isso não é arte. Ellis é um homem confuso e doente que nutre um profundo ódio pelas mulheres.” Norman Mailer escreveu na Vanity Fair: “Escrito pela pena de um jovem narcisista  só parcialmente competente. Um trabalho que veio apenas para perturbar.” Roger Rosenblat descreveu o romance no Times Book Review como “o diário que Dorian Gray teria escrito se estudasse no segundo ano de ginásio”. A revista Spy acusou Ellis de falta de talento  a ponto de provocar um escândalo para vender um livro. “Pouca coisa poderia ser mais doentia que o barbarismo misógino desse romance”, disse o crítico da revista Todd Stiles , “mas quase tão repelente é o cinismo de Ellis ao justificá-lo.”

Essa tem sido uma pergunta central na carreira de Ellis: ele é talentoso ou só provocador?

“Maçante certamente ele não é, e as pessoas gostam de falar de gente que não é maçante”, disse a romancista Ottessa Moshfegh (uma admiradora). 

Para Ellis, fama e controvérsia sempre andaram juntas. Mas ele jura que nunca pretendeu ofender ninguém – visou apenas à arte, e se alguém se aborreceu com isso, paciência. 

“Nunca tencionei chatear ninguém”, disse ele, “isso é perda de tempo. Sempre cuidei apenas de me expressar, sem pensar na audiência.”

 O ultraje coletivo sobre O Psicopata Americano serviu de contexto para os ensaios de White, cujos tópicos vão da infância sem supervisão nos anos 1970 na alta classe média de Sherman Oaks, Califórnia, a suas críticas de filmes e astros de cinema, ao presidente Donald Trump e à câmara de eco digital. Seus pontos de vista nem sempre são agradáveis, mas isso nunca o deteve. Em um dos ensaios, Liking, Ellis denuncia “o terrível florescer da ‘identificação’ – a inclusão de todos  na mesma mentalidade ... a ideologia que propõe que todo mundo esteja na mesma página, a melhor página”.

McInerney encontra as raízes de tais posições nos “aprendizes de censor”  que atacaram Ellis durante as reações a O Psicopata Americano. Segundo ele, “essas reações  moldaram em parte os conceitos que Ellis tem hoje sobre o politicamente correto e a liberdade de expressão”.

Na última década, Ellis, de 55 anos, criou mais manchetes com suas opiniões  sem  freio que com qualquer produção criativa. Num tuíte de 2013, ele disse que “Kathryn Bigelow despertaria algum interesse como cineasta se fosse homem, mas como é uma mulher muito sensual, ela apenas extrapola”-  o que causou tal furor que ele pediu desculpas formais no site The Daily Beast. Ellis se queixa dos liberais que o acham um apologista de Trump – e em seguida defende as simpatias conservadoras de Kanye West. Ele foi chamado de racista ao dizer que Pantera Negra  foi uma colher de chá à “ânsia de diversidade” de Hollywood.  “O Black witter é da pesada”,  afirmou.

“O que vem me irritando ultimamente é o mundo do Twitter. Como esse mundo não tem contexto nem nuances e todo mundo fica histérico, você é tachado do que não é e acusado de coisas que não fez”, disse Ellis. “A polícia da linguagem é algo difícil de lidar quando se é criativo.” Ele propõe que todo mundo simplesmente baixe um pouco a bola. 

De certo modo, Ellis já fez isso. Segurando um saco de lixo na porta do elevador de seu apartamento em West Hollywood, o homem alto, de cabelos prateados, com uma elegante camisa polo negra, parece muito distante da locomotiva social que costumava ser. “Não vou mais a festas. Acho que já passei dessa  fase”, disse ele.

Ele também superou seu fatalismo juvenil sobre fatos atuais, preferindo tratar as notícias mais como acontecimentos passageiros que como o fim do mundo (“Jared Kushner parece realmente ótimo em calção de banho.”)  Esse tipo de frivolidade soa como uma extensão de seu tom blasé em White, em que trata a política como mero enchimento de um solilóquio estilizado.  Mas a nova apatia não agrada necessariamente a seus amigos.

“Estou meio espantado com seu afastamento da elite costeira, da qual ele é, em muitos aspectos, sócio de carteirinha”, disse McInerney.

Ellis faz questão de dizer que não votou em Trump e, na verdade, sempre alertou sobre seu poder ameaçador de celebridade capitalista. Quando estava escrevendo O Psicopata Americano, recordou Ellis, “todos em Wall Street estavam lendo A Arte da Negociação, e Trump me aborreceu tanto que decidir fazer dele a figura do pai de Patrick Baterman”.

No entanto, ele admite que só pôde ser “tenazmente apolítico” por ser “um Homem Branco Privilegiado”, o que, segundo ele, “o protegeu das realidades do mundo político”.

Isolamento não é apenas uma escolha mental de Ellis, mas seu próprio mantra artístico. “Neutralidade, distância, reserva: sempre acreditei nessas coisas como meus guias estéticos”, disse ele.  

Em White, “minha abordagem foi a mesma dos romances -  literária”, disse Ellis. Mas, ao contrário dos romances, insistiu ele, “White nunca pretendeu ser um mergulho profundo em coisa alguma”. Durante anos, Ellis resistiu à ideia de escrever não ficção, até finalmente ceder a seu agente.  

“Não sei como as pessoas vão receber minha atitude de laissez-faire sobre Trump no momento em que vivemos”, disse ele. Ellis é admirador do New Journalism – o título White é uma homenagem a The White Album, de Joan Didion.

A despreocupação cool de Ellis aplica-se também a sua vida pessoal. “Eu realmente não me preocupo”, disse ele. “Liberdade é não se procupar com o que as pessoas pensem de você, não se preocupar se você é ou não atraente, não se procupar com sexo.”

Ellis  está no mais longo relacionamento que já teve, com um músico de 32 anos chamado Todd Schultz. O namoro, que começou dez anos atrás num jantar em que Shultz era namorado da anfitriã, pôs  fim ao que o escritor chamou de seus “alegres anos de solteirão”. 

Em contraste com os subtons conscientemente homoeróticos de seus primeiros romances, escritos quando ele ainda estava no armário, as referências de Ellis ao parceiro têm uma pegada quase cômica. Para o escritor, Todd é “um monstro político que vive assistindo à MSNBC, mas se recupera rapidamente”. 

Apesar de toda sua postura de relíquia fatigada de meia-idade, Ellis mantém o mesmo espírito jovem de sempre – de um contentamento irreverente e infatigável curiosidade artística. O trabalho de sua vida tem sido nos confrontar com os absurdos deste mundo, suas tristezas, suas comédias, sua beleza. 

Mas Ellis não quer que nos preocupemos muito pensando a respeito. Para ele, literatura, Twitter, política, relacionamentos, a própria vida – nada disso deve ser levado muito a sério. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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