REUTERS/Eric Miller
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Autores analisam origens do Black Lives Matter

A desigualdade, a frustração, o sofrimento e o trabalho que levaram aos protestos do ano passado

Bennett Capers, The Washington Post

16 de dezembro de 2021 | 10h00

“Então, considerando tudo o que está acontecendo, você está otimista quanto a uma mudança de verdade? Está pessimista? Ou ainda não saiu o veredito?”. Esta foi a pergunta que ouvi repetidas vezes no verão de 2020, quando os protestos contra o assassinato de George Floyd pela polícia pareciam ocorrências diárias.

De certa forma, mesmo vindo depois dos assassinatos de Eric Garner, Michael Brown, Breonna Taylor e tantos outros, foi o vídeo de Floyd que gerou milhares de protestos. Na verdade, segundo uma estimativa, houve mais de 4.700 diferentes manifestações nos Estados Unidos no mês seguinte ao assassinato de Floyd, uma média de 140 protestos por dia. No final do verão, as evidências sugeriam que cerca de 26 milhões de pessoas haviam participado de manifestações contra o assassinato de Floyd, levando alguns especialistas a caracterizar os protestos e as palavras de ordem do Black Lives Matter como o maior movimento da história dos Estados Unidos.

E, claro, não foi só um movimento americano. Os protestos ganharam escala internacional, ocorrendo em toda a Europa, África e Ásia. De repente, todos pareciam saber o que os negros americanos já sabiam: que a polícia mata cerca de mil pessoas todos os anos nos Estados Unidos, que as vítimas dessas mortes são desproporcionalmente negras e que quase todas estão desarmadas. Além disso, a maioria dos assassinatos não chega a ser denunciada e a maioria dos policiais escapa até mesmo da responsabilidade civil, por causa da doutrina da imunidade qualificada. Daí a questão insistente: “Então, considerando tudo o que está acontecendo, você está otimista quanto a uma mudança de verdade? Está pessimista? Ou ainda não saiu o veredito?”.

Say Their Names: How Black Lives Came to Matter in America talvez não responda a essa pergunta. Mas faz outra coisa. Ao reunir cinco jornalistas, cada um com uma perspectiva sobre aquele verão, o livro funciona como uma cápsula do tempo que, com alguma esperança, será útil para futuros historiadores avaliarem não apenas o impacto dos protestos, mas também a história da violência policial e a organização que os possibilitou.

No capítulo “Por que o Black Lives Matter importa”, o jornalista Curtis Bunn conta parte da história dos protestos do ponto de vista de Alicia Garza, Patrisse Cullors e Opal Tometi, as mulheres negras que lançaram o que mais tarde chamariam de “vontade e movimento político centrado nos negros”. Em consonância com sua visão de que o movimento devia ser construído de baixo para cima – uma adocracia – Bunn também conta as histórias de organizadores menores, entre eles estudantes do ensino médio que ministraram aulas, fundaram suas próprias organizações para a mudança e lideraram marchas, uma delas com mais de 10 mil participantes.

No seu capítulo, o jornalista Keith Harriston usa as histórias de algumas famílias para descrever o fardo cotidiano de ser negro na América e viver com medo da violência policial. O autor fala também sobre a crescente frustração com os papéis que a imunidade qualificada, os sindicatos de polícia e a Declaração de Direitos dos Agentes da Lei desempenham na proteção de oficiais criminosos. Ao mesmo tempo, Harriston tem o cuidado de observar que o policiamento desigual foi apenas uma das muitas patologias que desencadearam os protestos: havia também a pandemia de coronavírus e seu impacto desproporcional sobre as pessoas não brancas, a desigualdade em termos de moradia e emprego e tudo o mais.

A jornalista Patrice Gaines volta ainda mais no passado, enfatizando nosso longuíssimo histórico de desigualdade no policiamento e na detenção de pessoas negras. Numa das partes mais sóbrias do livro, ela explora algumas das primeiras prisões do país – a Cadeia e Casa Penitenciária de Walnut Street, fundada em 1790, e a Penitenciária Estadual do Leste, estabelecida em 1829, ambas na Filadélfia. Eram prisões do Norte, observa Gaines, e mesmo assim ambas refletiam um policiamento desigual, funcionavam como “o novo método de controle de corpos negros”. Se você visitar a Penitenciária Estadual do Leste, hoje um museu, vai ver o primeiro prisioneiro descrito desta forma: “Charles Williams, Prisioneiro Número Um. Ladrão. Pele negra clara. Condenado a dois anos de confinamento com trabalho forçado”.

Outro capítulo de destaque é intitulado “A Igreja na Era do Movimento BLM”. Nele, o jornalista Nick Charles responde a uma pergunta que eu nem sabia que seria importante, mas que parece necessária para qualquer história que fale sobre aquele verão de reconhecimento da luta racial: onde estava a igreja negra? Bateu em retirada durante o maior movimento da história? Dado que muitas das primeiras líderes do Black Lives Matter são homossexuais, a igreja era bem-vinda? A resposta é complicada.

O livro é envolvente, sem dúvida. A única desvantagem é que, às vezes, parece que os cinco jornalistas se dispuseram a simplesmente contribuir com capítulos sobre o tema Black Lives Matter, sem nenhuma narrativa unificadora. Ao mesmo tempo, os capítulos são estranhamente semelhantes em termos de estilo. O leitor pode pensar que o livro foi escrito por um único autor, talvez reformulado a partir de um artigo publicado em algum jornal.

Dito isso, chegando num momento em que parece que estamos experimentando mais uma reação contra o progresso racial – de que outra forma deveríamos interpretar a histeria sobre o suposto ensino da teoria crítica da raça nas escolas? – o livro é um bem-vindo lembrete do que é possível fazer. E embora diga que reconta “Como o Black Lives Matter surgiu na América”, é muito mais do que isso, por causa de seus capítulos sobre como o coronavírus causou estragos nas comunidades negras, como a história do policiamento moderno é inseparável da história das patrulhas de escravos, organização que data dos anos 1940, além de questões mais amplas, como a desigualdade de renda. Talvez o ponto seja este. Todas essas coisas estão conectadas ao verão do reconhecimento da luta racial na América.

SERVIÇO 

Say Their Names: How Black Lives Came to Matter in America

Curtis Bunn, Michael H. Cottman, Patrice Gaines, Nick Charles e Keith Harriston

Grand Central Publishing - 352 páginas - US $30

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Bennett Capers é professor de direito na Fordham Law School e diretor do Centro de Raça, Lei e Justiça. Ele é o autor do livro The Prosecutor’s Turn. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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