Acervo Pessoal
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Autores de manifesto defendem que a História é o remédio da desinformação

Historiadores David Armitage e Jo Guldi acreditam na capacidade da historiografia de reverter a popularização das fake news

Elias Thomé Saliba*, Especial para o Estado

23 de fevereiro de 2019 | 16h00

“A informação digital dura por toda a eternidade – ou por cinco anos, o que acontecer primeiro”. Cinco anos é muito tempo para a incrível velocidade da atual inovação tecnológica, e até a blague já envelheceu. Mas ela é ainda bastante sintomática da urgência em confrontar o excesso de deslumbramento tecnológico e reconhecer que vivemos a época áurea da mídia morta, do excesso de informação e sofremos mundialmente da doença do curto prazo. Quase todo aspecto da vida humana é demarcado e julgado, empacotado e pago, em escala temporal de poucos meses e anos e, numa era de campanhas eleitorais permanentes, os políticos não planejam além de alguns anos de suas apostas eleitorais. Como a História e os historiadores podem contribuir, com seu olhar para a longa duração do passado – e frente a esta escalada de transformação digital à nossa frente, para vislumbrar um futuro para as sociedades? Escrito em dupla, pelo historiador David Armitage e pela historiadora Jo Guldi, este é o tema do Manifesto pela História, uma abordagem lúcida de como a historiografia, adaptada aos tempos digitais, pode se transformar num remédio para a atual doença do curto prazo.

A longa duração foi batizada e utilizada, em grande estilo, por Fernand Braudel, que utilizou o termo pela primeira vez em 1958 e depois exercitou-a em livros que se tornaram clássicos da historiografia. Mas Guldi e Armitage não propõem uma retorno puro e simples à temporalidade braudeliana em sua encarnação original, mesmo porque hoje os historiadores mantêm uma relação com as fontes bastante diferente da época de Braudel. Brincando um pouco, imaginem o que o historiador francês não faria com o enorme disponibilidade de fontes desta era digital? Enfim, depois de uma certa ressaca dos estudos de micro-história e, postos diante de um enorme incremento de evidência possibilitado pelas abundantes fontes dos big data, os historiadores começam a se voltar para estudos mais abrangentes. Muitas pesquisas, nos últimos anos, sobre a longa história da mudança climática, as consequências do comércio de escravos, ou sobre a variedade e os destinos do direito à propriedade no ocidente, já utilizaram sofisticadas técnicas de computação, vislumbrando novas perspectivas para desafios do presente, combatendo o short-termism de nossa época com aquela amplitude de visão de longo alcance que somente os historiadores podem proporcionar. 

Braudel tinha mesmo algo de visionário mas, hoje, dificilmente um pesquisador de história pode ignorar a vantagem do uso de ferramentas digitais, sobretudo quando o volume de papéis que há para ler tornou-se simplesmente excessivo. Na era dos bancos de conhecimentos digitalizados, as ferramentas para a análise da mudança social nos rodeiam por toda parte. Como aquela, da Google Ngram, que possibilita a busca por palavras em cinco milhões e duzentos mil livros publicados entre 1500 e 2008: são 500 bilhões de palavras que permitem visualizar como o uso dos termos mudou ao longo do tempo! É um guia valioso de uma primeira sondagem para avaliar a ascensão e o declínio de determinadas ideias. Mas é ainda muito limitado, primeiro porque enfatiza apenas a tradição anglo norte-americana, ignorando todo o resto - e segundo, porque é apenas a partir do ano de 1500. A própria Jo Guldi coordenou uma equipe de historiadores que criou o Paper Machines – o qual opera com recompilações de textos, tanto aqueles extraídos de fontes digitais como diários e conversações por internet em tempo real, quanto textos escaneados e guardados mediante o reconhecimento ótico de caracteres de fontes de papel, incluindo arquivos governamentais. 

De qualquer forma, nesta avalanche de fontes saturadas, muitos dos dilemas sobre quais dados ter em conta são questões éticas que os historiadores já conhecem e têm muito a oferecer. O mais trivial trabalho do historiador, assim como dos melhores jornalistas - nesta época áurea das fake news - é criar e insistir no registro dos metadados dos arquivos digitais e a pergunta mais importante e difícil de responder é: como isto chegou até nós? Mas há desafios mais complexos. Como repórteres do passado, os historiadores também necessitam vasculhar em arquivos que a mente oficial ocultou, vulgarmente rotulados com a advertência: “Não ler”. O escândalo de Snowden fez muito barulho, mas a tática de redescobrir arquivos (rotineira para os historiadores) ganhou vida nova nos tempos digitais: um rico volume de informação pode ajudar a desvelar os silêncios deliberados dos bancos de dados, iluminando aspectos da atividade governamental sobre os quais alguns prefeririam que o público nada soubesse. Esses são os arquivos invisíveis, que não esperam precisamente pela visita do pesquisador, mas antes têm que ser construídos a partir da leitura do que foi desclassificado ou removido. O historiador Matthew Connelly idealizou um website que chamou de “Declassification Engine”, projetado para ajudar o público a rastrear informes não publicados ou não documentados do governo dos Estados Unidos. Mas, ainda é um exemplo isolado. 

Armitage e Guldi afirmam que nesta crise de “short-termism”, ou curto-prazo, nosso mundo precisa reencontrar em algum lugar a informação sobre a relação entre o passado e o futuro. A história – enquanto disciplina e objeto de estudo – pode ser o esteio que falta à esta reflexão sobre o futuro. A inovação digital por si mesma não basta para dissipar a bruma dos relatos e a confusão em nossas sociedades, atualmente bastante divididas por mitologias em competição. Todo software criado até agora é algo frágil e uma civilização acorrentada a este software herdará esta fragilidade. Para dar sentido a questões causais e construir relatos persuasivos ao longo do tempo, a formação humanística possibilita aos historiadores retomarem a sua mais digna vocação, como árbitros para julgar as falsidades, os mitos e o confuso ruído de fundo desta época submersa pelos big data. Menos do que um manifesto, Guldi e Armitage escreveram um autêntico programa para as humanidades na era digital. Mas, na conclusão, não resistem à tentação de incluir uma definição com ar de manifesto: “A História é uma espada de duplo corte, um que abre novas possibilidades para o futuro, e outro que esclarece o passado com seu alarido, suas contradições e suas mentiras.”

*ELIAS THOMÉ SALIBA É PROFESSOR TITULAR DA USP E AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE ‘RAÍZES DO RISO’

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