Tiago Queiroz|Estadão
Tiago Queiroz|Estadão

Avenida Paulista, maior símbolo de SP, torna-se o principal reduto artístico para os músicos de rua

Local foi aberto para pedestres e ciclistas aos domingos desde outubro de 2015

João Paulo Carvalho (Reportagem) e Tiago Queiroz (Fotos), O Estado de S.Paulo

28 Maio 2016 | 16h00

O domingo é gélido, porém ensolarado. Quem passa pela Avenida Paulista, mais precisamente pelos arredores da estação do metrô Trianon Masp, numa típica manhã de outono, ouve de longe as batidas frenéticas da bateria e o groove ensurdecedor de um baixo que mais lembra uma guitarra. A banda carioca de hardcore Ostra Brains, liderada pela vocalista Amanda Hawk, 22, abre os trabalhos musicais no coração de São Paulo de maneira fervorosa. A ideia é promover um pequeno festival de bandas independentes. Ali mesmo, no meio da rua. Sem firula, sem cobrar nada. O público, ainda modesto, ouve atentamente aos “berros” da jovem. Alguns, mais conservadores, se assustam e lançam olhares de desconfiança. Outros, mais descolados, aprovam a sonoridade pesada. “Isso aqui está maravilhoso. Venho à Avenida Paulista quase todos os domingos. Depois que ela foi fechada, melhorou muito. Chego por volta das 11h e só vou embora às 19h. Tem muita gente boa tocando”, diz a aposentada Odete Noronha, 58. Mãe de 3 filhas, a senhora de cabelos descoloridos se joga no chão de forma desconcertante. A cada música executada pelo power trio, um grito latente: “Vocês arrasaram, meus lindos!”. Quase sem voz, Amanda, a vocalista nascida no Rio de Janeiro, agradece ao carinho maternal de Odete com um singelo e delicado beijo na testa. “Eu me mudaria para São Paulo hoje mesmo. A Paulista ficou incrível desse jeito. Músico tem mais é que ir para rua mesmo”, diz ela abraçada à senhorinha de aparência angelical. Oficialmente fechada para veículos e aberta para pedestres e ciclistas todos os domingos, das 9h às 17h, desde 18 de outubro de 2015, a Avenida Paulista tornou-se o lugar predileto dos músicos de rua. O caleidoscópio sonoro vai do rock ao samba em apenas poucos metros, sem pestanejar.

A alguns passos do mini festival de hardcore, um batuque. Os tambores do coletivo Trupe Benkady, um grupo de dança e música mandigue da Guiné-Conacri, atrai um bom número de pessoas. São coreografias, cantos e rituais específicos de uma cultura desconhecida por grande parte do público presente. Os menos tímidos arriscam-se na emblemática roda formada por 6 integrantes. É o caso da estudante de administração Jaqueline Barbosa, 23. Extrovertida, Jaque, como gosta de ser chamada, balança ao ritmo do djembe, do dununs, do krin e do djagbara, todos instrumentos musicais da Guiné-Conacri. “O tambor é muito discriminado no Brasil. Trabalhamos com essa resistência e somos apaixonados por isso. Sempre tivemos muita gana de mostrar essa cultura e a Paulista é uma ponte para isso. A rua é fundamental”, afirma Paula da Paz, uma das produtoras do coletivo que faz releituras da arte da Guiné-Conacri, país que fica localizado na costa oeste da África.

Um pouco mais à frente, quase na estação Brigadeiro, o saxofonista Milton Rodrigues dos Santos, 39, faz um som triste e solitário, como manda o figurino. Com notas longas, reproduz algumas músicas infantis. “As crianças adoram. Elas, geralmente, são as que mais se aproximam de mim”. Milton, que se apresenta na Avenida Paulista há 4 anos, teve vários problemas com a Polícia Militar. “Já discuti com muitos guardas que não me deixavam tocar em lugares públicos. Depois disso, passei a andar com a lei embaixo do braço”, revela. A lei citada por Milton é a 15.776, aprovada em maio de 2013. Segundo ela, os artistas de rua podem permanecer temporariamente no logradouro escolhido até as 22h ou enquanto durar o espetáculo/performance, desde que não atrapalhem o trânsito, a circulação de pedestres e respeitem as instalações e as áreas verdes. Os shows também não podem ter patrocínio privado que os caracterize como evento de marketing. Também é possível comercializar bens culturais como CDs, DVDs, livros, quadros e peças artesanais, desde que sejam de autoria do artista ou do grupo em destaque.

No domingo em que a reportagem visitou a Paulista, entre 12h e 18h, 15 artistas de rua se apresentaram na avenida mais famosa da capital. Ao longo dos seus mais de 2.800 metros de extensão, de uma ponta à outra, o que se viu foi um espetáculo multicultural. O trecho mais disputado pelos artistas é a esquina com a Augusta. Lá, enquanto a banda O Grande Grupo Viajante fazia uma apresentação de gala, para, aproximadamente, 200 pessoas, outro conjunto já se preparava para assumir o posto. “As ruas são das pessoas, não dos carros. Vamos ocupar os espaços públicos. Isso aqui está incrível, pessoal”, gritou o guitarrista Bruno Sanches, antes do grupo que assistia à performance se misturar à avalanche de pessoas que protestava contra o presidente em exercício Michel Temer e pedia, ironicamente, a volta do então extinto Ministério da Cultura. O Estado tentou levantar informações sobre o número de artistas de rua de São Paulo junto à Secretaria de Cultura da Prefeitura e à Guarda Civil Metropolitana. Nenhum dos órgãos, entretanto, soube informar com precisão os dados solicitados pela reportagem.

Não há no local uma lógica ou um gênero predominante nos diferentes espaços. O caleidoscópio sonoro da Avenida Paulista não tem casta ou estilo musical predefinido. Enquanto cachorros de diferentes raças passeiam sem coleiras e vendedores ambulantes oferecem suas bugigangas, às vezes, de forma esquizofrênica, um grupo variado de artistas de rua mostra sua arte e tenta estabelecer de plano de fundo a trilha sonora de uma cidade que possui um DNA heterogêneo. O sorriso do sanfoneiro José de Melo, 53, traduz com perfeição este sentimento. Ao lado de Gleison de Melo (triângulo) e José Everaldo de Melo (zabumba), o líder do Trio Pernambuco Nova Geração, trouxe do Recife o suingue do forró e a valorização da cultural regional. “Conquistamos um pequeno espaço em São Paulo depois de lutar tanto contra o preconceito da nossa música. O público, agora, nos respeita. Tocamos aqui há 6 meses e somos muito requisitados”, lembra José Everaldo, que já não quer mais voltar para Pernambuco e demonstra uma alegria incontida ao falar sobre a terra da garoa.

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