Axel joga pesado

Com radicalismo e audácia, o vice-ministro argentino da Economia cativa a presidente

EZEQUIEL BURGO É JORNALISTA, TRABALHA , PARA THE ECONOMIST EM BUENOS AIRES. , ESCREVEU ESTE ARTIGO PARA O JORNAL , ARGENTINO EL CLARÍN, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2012 | 03h07

EZEQUIEL BURGO

Hipnotizei Cristina." Era uma noite de dezembro; uns amigos - a maioria ex-alunos do Colégio Nacional de Buenos Aires - conversavam sobre futebol, música ou mulheres. Até que alguém mencionou a chefe. Então, Axel Kicillof afirmou: "Hipnotizei Cristina". Sem alarde.

O economista mais consultado pela presidente tem 40 anos. Somente outro mais jovem que ele tinha conseguido penetrar no círculo íntimo do kirchnerismo: Iván Heyn, o ex-subsecretário do Comércio Exterior, que morreu enforcado acidentalmente em Montevidéu. Kicillof e Heyn tinham posições diferentes do ponto de vista político, mas se davam bem. O que os unia era a ambição. Mas Kicillof é o primeiro economista de confiança de Cristina depois da morte do único chefe da economia nacional entre 2005 e 2010: Néstor Kirchner.

Naquela noite de verão de 2011, no meio dos amigos, Kicillof tinha motivos para estar entusiasmado. Embora formalmente tivesse sido designado secretário de Política Econômica - um virtual vice-ministro -, já estavam dadas as condições para que Cristina Kirchner o ouvisse mais do que ao ministro Hernán Lorenzino. Axel - um especialista na obra do autor que é uma referência global dos heterodoxos, John Maynard Keynes -, era portador da fórmula que melhor servia a Cristina: aumentar a demanda interna e recuperar a iniciativa estatal. Por exemplo, afirma-se em off que, de acordo com os conselhos de Kicillof, a prioridade já não será eliminar de maneira geral os subsídios concedidos aos serviços públicos, como Julio De Vido havia aconselhado - e anunciado - meses atrás.

Mas essa guinada não seria mais que uma amostra do poder de Axel, muito superior ao desfrutado por Heyn e por outros jovens funcionários da corrente kirchnerista, como o presidente da Aerolineas, Mariano Recalde, o parlamentar de Buenos Aires Jorge Ottavis ou alguns membros de La Cámpora. Kicillof controla desde a estratégica caixa dos contratos com organismos internacionais até a tarefa dos representantes do Estado nas empresas cujas ações herdou depois do fim da AFJP (a administradora do fundo de pensões privadas da Argentina).

Kicillof também dispõe de acesso às alavancas da macroeconomia. Fontes do governo o apontam como o ideólogo da reforma que permite ao Banco Central emprestar mais recursos ao Tesouro, e sob sua supervisão estão também os setores automotivo e energético.

Hoje, Cristina valoriza mais os comentários de Axel do que os da titular do Banco Central, Mercedes Marcó del Pont, e inclusive os de Amado Boudou. Faz tempo que no Ministério de Economia não acontecem coisas do gênero: três ou quatro vezes por semana, Kicillof vai à Casa Rosada ou chama o motorista para levá-lo a Olivos. No Banco Central, as pessoas surpreendem-se ao comprovar que o vice-ministro é consultado por la señora mais de uma vez por dia. "Cristina está encantada com Axel", admitem.

Entretanto, Kicillof ainda não hipnotizou Guillermo Moreno. Num dos seus primeiros encontros, o secretário do Comércio o cumprimentou com um: "E aí, garoto, como vai o índice de preços?" Axel, que critica o Indec, fica na defensiva quando ouve um comentário desse tipo. É que a "experiência Lousteau" está gravada em seu disco rígido. Como ele, Martín Lousteau havia sonhado chegar a seu cargo. Como ele, chegou a deslumbrar Cristina. Mas, enquanto em 2008 Néstor Kirchner definia as regras, hoje Kicillof joga "mais solto" e, ao contrário de Lousteau, tem todo acesso ao comando central da economia. Axel, além disso, tem um DNA que seu predecessor não possui: o da militância. Nos anos 90, ele militou na universidade e agora admite fazê-la em La Cámpora (uma agremiação de jovens kirchneristas).

"É preciso protestar. Isso não pode continuar assim", incitava o quase adolescente Axel Kicillof, metido num suéter de lhama cor pastel. Seu companheiro naquela sala, Mario Firmenich, permanecia calado. Era o segundo semestre de 1994, e na faculdade de Ciências Econômicas da UBA já era intensa a participação da agremiação estudantil TNT. Axel era um de seus fundadores e líderes. Naquele dia, os alunos do curso de microeconomia superior aos quais se dirigia estavam agitados: haviam se passado dois meses desde seu início e a maioria não entendia nada. Um grupo de alunos tentou adiar a data do exame, mas Kicillof foi mais radical: pediu que o professor fosse trocado.

A TNT havia sido fundada dois anos antes. Embora se comente que o nome significa "tontos, mas não tanto", na verdade a sigla nasceu como uma homenagem a Willie E. Coyote, o eterno perdedor do desenho animado do Papa-Léguas, que, apesar de suas tentativas fracassadas de acabar com o herói usando o explosivo TNT, jamais se rende. Quase uma piada de estudantes.

Enquanto isso, do lado de fora das salas de aula, a economia argentina dava uma volta copernicana. Em 1992, a conversibilidade era um sucesso; já haviam ocorrido a abertura da economia e as privatizações. Mas a TNT e Kicillof não criticavam nem Cavallo nem o regime neoliberal. Seu objetivo era denunciar a Franja Morada (outra agremiação universitária argentina) e seus negócios na universidade. Seu desinteresse era tamanho que, no dia em que a agremiação ganhou uma das 11 cadeiras no Centro Estudantil, Kicillof e os seus colegas não estiveram presentes à contagem dos votos porque foram ao show do grupo B-52 em Vélez.

Na segunda metade da década de 90, Axel mergulhou na política. Por meio de um professor, conheceu um subsecretário da Secretaria do Desenvolvimento Social do menemismo. Assim, transformou-se em assessor do hoje governador do Estado de Chaco, Jorge Milton Capitanich. Mas seu discurso era sinuoso: embora a Grande Depressão já estivesse prestes a estourar, desembocando no "vão todos para a...", Kicillof não queria que a TNT opinasse sobre temas políticos.

Há várias testemunhas da época. Entre os estudantes de economia que militavam na UBA e não concordavam com Axel estava Matías Kulfas, hoje gerente geral do Banco Central, o homem que Marcó Del Pont designou para substituir Begnino Vélez, depois do escândalo Boudou-Ciccone. Kulfas e outros economistas próximos da presidente do Banco Central não gostam do relato que Kicillof faz de sua militância política. "Enquanto nós denunciávamos a conversibilidade, Axel lutava contra a Franja", comentam.

Mas tudo isso é passado. Quando disse o que disse naquela reunião de fim de ano entre amigos, a relação do vice-ministro com a presidente já ia de vento em popa. Kicillof partiu com o pé direito quando teve uma reunião com Cristina para falar das Aerolineas. Era o número 2 da companhia. "A presidente teve uma excelente impressão dele", conta um economista que esteve presente aos primeiros encontros.

Cristina gostou talvez da segurança demonstrada por Kicillof. Seus detratores chamam a isso de soberba; segundo os "kicillofistas", muitos deles na verdade sentem inveja de Axel. O vice-ministro admite que não é um especialista nos mercados de aço, aviação ou petróleo, sobre os quais toma e obriga a tomar decisões fortes. "Fazer um doutorado leva quatro anos. Nós levamos dois anos e meio neste campo e aprendemos um bocado", observou quando estava na Aerolineas.

Pode parecer atrevido, mas o CEO de uma companhia aérea importante da região acredita que, apesar de sua falta de experiência no mercado, a nomeação de Kicillof na empresa foi um ato que não mereceu nenhuma crítica. "Nos últimos anos, a aviação mudou mais do que os celulares. Desautorizar alguém que não é do setor é como dizer ao inventor do iPhone que não tem experiência em celulares porque 15 anos atrás eles eram diferentes", compara. Entretanto, ele acredita que "Kicillof é muito melhor como economista que como empresário", porque "a principal medida que ele tomou foi pagar tudo que a Aerolineas devia, coisa que com a carteira do Estado não é muito difícil de fazer".

O último objetivo de Axel é a YPF. Na diretoria da empresa admitem que ele se atirou de corpo e alma ao setor e aprendeu rapidamente. Qual é o seu plano? Há apenas indícios. Representantes de uma das maiores petrolíferas afirmam que ele pretende instaurar um modelo no qual as províncias devem buscar empreiteiras para explorar as áreas. Se o preço do petróleo subir ou baixar, as empresas cobrarão na mesma proporção.

Segundo esse modelo, o produto extraído pertence a uma província, e não a um particular: um esquema parecido ao da YPF nos anos 1980. Será esse um dos 12 pontos que Kicillof deixou no arranha-céu da YPF um mês atrás e os diretores da Repsol tomaram como exigências? Mas isso não passa de indícios.

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