Badintentions

Perder uma partida propositalmente equivale a caçoar da ética esportiva; portanto, a expulsão das jogadoras de badminton que manipularam jogos foi acertada, diz autor E o fair play?

THE CHRISTIAN SCIENCE MONITOR, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2012 | 03h08

MARK SAPPENFIELD

Parece que jogar para perder não é uma tática. Trata-se na verdade de uma perversão completa do esporte.

Ao menos foi isso que a Federação Mundial de Badminton afirmou ao expulsar quatro equipes - duas da Coreia do Sul, uma da Indonésia e a chinesa, grande favorita - da disputa feminina de duplas da Olimpíada de Londres.

Desde o início, ficou óbvio que nenhuma das equipes queria vencer, desperdiçando os saques na rede e disputando o jogo como se estivessem numa pelada de fim de semana, esperando até que o churrasco ficasse pronto. O motivo era claro: elas queriam evitar um adversário forte na rodada seguinte, depois que a segunda melhor dupla, inesperadamente derrotada numa partida anterior, frustrou as previsões para as chaves de enfrentamento entre as equipes.

Perder um jogo da fase de grupos seria melhor do que perder a partida seguinte, na rodada eliminatória. Ao menos, foi esse o raciocínio.

Seria tal prática tão diferente das equipes de basquete que deixam seus melhores jogadores descansarem no último jogo da fase de grupos para tê-los no auge da forma na fase eliminatória? Seria tão diferente de jogar com relativa timidez uma partida da fase de grupos - possivelmente escondendo algumas das melhores jogadas - para, no caso de enfrentar a mesma equipe numa partida eliminatória, ter algumas surpresas na manga?

A resposta, de acordo com a correta decisão da FMB, é: sim, a diferença é enorme. Há algumas linhas e regras claras no esporte, mas essa não é uma delas. A diferença é que disputar um jogo com a intenção de perder nunca será considerado aceitável, independentemente das circunstâncias.

Tomemos um exemplo dos Jogos de Pequim. A equipe argentina de futebol não pôs em campo seu melhor jogador, Lionel Messi, no último jogo da fase de grupos porque o time já tinha se classificado para a fase eliminatória. A equipe foi intensamente vaiada pela plateia. Mas nenhuma medida disciplinar foi adotada contra o time.

O motivo: eles não tentaram perder. Os jogadores em campo não chutaram a bola contra o próprio gol nem caíram feito pinos de boliche quando se aproximavam dos adversários. Na verdade, eles ganharam por 2 a 0. Foi uma questão de tática.

Outro exemplo, do mês passado. A Espanha enfrentou o time de basquete dos Estados Unidos numa partida amistosa antes da Olimpíada. Antes do jogo, os espanhóis deram a entender que não ficariam muito desapontados se fossem derrotados. Pau Gasol, do Los Angeles Lakers, disse do colega de equipe Kobe Bryant: "Acho que o melhor seria talvez deixá-lo vencer amanhã e, possivelmente, vencê-lo em Londres. Isso seria ideal".

Bem, a Espanha conseguiu a primeira parte do que desejou. Os americanos atropelaram os espanhóis em quadra diante de seu próprio público, possivelmente porque a Espanha não quis revelar muito do seu potencial plano de jogo para uma possível disputa pela medalha de ouro. Será que o time deveria ter sido alertado ou castigado?

Mais uma vez, a diferença é simples. A Espanha não tentou perder. Nenhum dos jogadores espanhóis em quadra tentou jogar mal. Na verdade, como o jogo foi em Barcelona, é provável que eles tivessem ficado felicíssimos com uma vitória - mas não ao custo da tolice.

As jogadoras de badminton culparam o novo formato do torneio usado nesta Olimpíada. Em Pequim, todas as partidas do campeonato de badminton foram eliminatórias - não houve fase de grupos. Isso eliminou a possibilidade de jogar para perder.

As equipes da Coreia do Sul e da Indonésia também apontaram dedos acusadores, parecendo crianças levadas, dizendo que as chinesas "começaram".

Mas nada disso vai ao cerne da questão. O trabalho dos jogadores não é criar as regras nem jogar pelo time adversário. Seu trabalho é jogar pelas regras estabelecidas, e se as chinesas queriam perder, suas adversárias deveriam tentar batê-las por dois sets de 21-0 para demonstrar enfaticamente essa intenção, entrando a seguir com uma queixa contra elas.

O planejamento tático reconhece que às vezes a guerra é maior que as batalhas. Perder uma partida intencionalmente equivale a caçoar do fair play. Se as equipes pensaram que poderiam escapar ilesas - numa disputa olímpica, ainda por cima -, esse foi o mais crasso dos seus erros táticos./ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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