Baile dos descarados

Um desfile de tipos ao redor do corpo que virou símbolo da violência anônima no Rio

Christian Carvalho Cruz, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2009 | 02h00

SÁBADO, 24 DE OUTUBRO

Cadáver delivery

Em Copacabana, manifestantes enfileiraram carrinhos de supermercado com pessoas dentro, em alusão ao corpo encontrado no acesso ao Morro dos Macacos. Todos usavam máscaras, simbolizando as mortes sem rosto ocorridas no Rio de Janeiro.

Descarada. Taí um termo razoável para definir, hoje, a violência no Rio de Janeiro. Descarada no sentido de abusada, sem-vergonha, sem limite na hora de matar, invadir, atirar, traficar, atacar, contra-atacar e outros verbos surrados desses aí, usados quando o bicho pega numa favela ou morro qualquer. Descarada também - com licença, Houaiss - por não ter cara, nem nome, nem lenço ou documento na hora de morrer, sofrer, chorar, ou simplesmente tentar contar como a desgraceira sucede. Veja o caso do sujeito que amanheceu morto dentro de um carrinho de supermercado na entrada do Morro dos Macacos, em Vila Isabel. As fotos do corpo amarfanhado como pacote de biscoito Globo correram o mundo. Tinha nego assustado em volta. Mas tinha nego rindo também. Cartão-postal da terra da Copa e da Olimpíada. A terra que previu com seis anos de antecedência, no maior descaramento, quantos de seus jovens serão assassinados até 2012: coisa de 33 mil garotos e garotas sem cara, segundo relatório do governo federal, Unicef e Observatório de Favelas.

Esta, portanto, é uma história dos descarados da tragédia nacional - que, diga-se, não é exclusividade do Rio de Janeiro. História contada rodeando o cadáver do homem do carrinho, o famoso anônimo que ficou sem passado depois de morto e provavelmente não tinha futuro desde quando alguém o pariu. Na segunda-feira ele foi enterrado como indigente, porque ninguém o reclamou nos seis dias que ficou no necrotério do Instituto Médico Legal Afrânio Peixoto, em São Cristóvão. Ninguém nem sequer foi ver as sete fotos que tiraram dele para reconhecimento. Três do rosto (uma de frente e duas de perfil), três das tatuagens (duas tribais nos ombros; e o nome Rosa enfeitado por uma estrelinha, entre o polegar e o indicador da mão direita) e uma da etiqueta amarrada com barbante no dedão do pé. O bombeiro tirou o falecido do carrinho, esticou suas canelas no saco preto, o enfiou no rabecão e anotou com caneta azul num pedacinho mequetrefe de papel branco: "Não identificado 134/20 20-10-2009".

No Rio é o Corpo de Bombeiros que passa fazendo a rapa dos defuntos de mortes matadas, também chamadas "homicídios" ou "assassinatos". A polícia solicita o serviço e eles vão buscar. "Dá uns 30 por dia", diz o bombeiro que atende ao telefone na Coordenação do Serviço de Recolhimento de Cadáveres. "Quando tem guerra no morro aumenta um pouco, mas na média é isso aí, cê tá entendendo?" Positivo. Seu nome, por gentileza, bombeiro? "Veja bem, há uma hierarquia aqui, eu não posso dar entrevistas" e blá-blá-blá... Vá somando os descarados. Nesse caso do carrinho, a delegacia que registrou a ocorrência foi a de número 20, em Vila Isabel. Naquele 20 de outubro de 2009, ela pediu a sua 134ª remoção de corpos no ano. Daí o 134/20 na etiqueta: 134 remoções, 20ª delegacia. Parênteses para uma continha rápida: a cidade do Rio tem 38 delegacias; se cada uma solicitou pelo menos cem remoções de corpos este ano (arredondemos pra baixo), isso dá 3.800 mortos de morte violenta de janeiro pra cá. São 12 por dia, cê tá entendendo?! Fecha parênteses.

Assim, um-três-quatro-vinte se tornou o jeito mais comum de se referir ao defunto em sua curta temporada de peladão abaixo de zero na geladeira do IML. Também o chamavam de "aquele do carrinho", "o do carrinho", ou "isso aí é vagabundo" e "é bandido merrrmo, traficante" quando tentavam lhe adivinhar o passado. Nome, sobrenome, pai, mãe, endereço - necas. Até tiraram suas digitais e mandaram para o Instituto de Identificação Félix Pacheco, cujos arquivos reúnem as marcas dos dedos de todos os cidadãos nascidos no Estado do Rio de Janeiro. Nada. "Ou esse camarada não nasceu aqui ou nunca tirou documento aqui, ou nasceu aqui e nunca tirou documento na vida, o que é mais provável em se tratando de marginal", explica um funcionário, obviamente descarado, do IIFP.

No IML, o laudo da necropsia diz que o um-três-quatro-vinte morreu de bala. Muita bala. Foram 11 buracos produzidos "por entrada de projéteis de arma de fogo". Tiro na sobrancelha, nos braços, no peito e no abdome. Pulmões, fígado, estômago, intestino, tudo perfurado. O "cadáver de homem branco, medindo 170 cm de estatura", aparentava "bom estado nutricional e cerca de 21 a 24 anos de idade". Tinha "cabelos ondulados, curtos e castanhos, íris castanha, cavanhaque crescido e dentes em regular estado de conservação". Causa mortis: "lesão de múltiplas vísceras". O legista que assina o laudo - e a pedidos deve ser mantido sem cara - só não descreveu as quatro balas que retirou do corpo. "Ah, é tudo tiro de arma de guerra, de fuzil merrrmo. Aqui não chega vagabundo morto com 38", diz um outro legista que toma o elevador para ir almoçar. "Os peritos do Rio são os mais experientes do mundo em ferimentos causados por armas grandes", comenta, sem decidir se fica chocado ou orgulhoso. "Esses ferimentos só ocorrem em situação de guerra, mas aí não tem necropsia. É só constatar óbito e pronto. Então, nós somos especialistas mundiais nisso aí. Podemos dar curso." Seu nome, doutor? "Assim você me complica..." Descarado número 5.

Outro sem cara e sem nome é o carrinho que acondicionou o morto. Pelas fotos, sabe-se que ele não tinha a barra de empurrar que geralmente leva a marca do dono. Até a sexta-feira passada seu paradeiro era desconhecido. No Instituto de Criminalística Carlos Éboli, um prédio soturno com paredes bege, gradil azul e jeitão de colégio antigo no centro do Rio, um perito dá uma pista. O "transporte" (vulgo carrinho) foi descrito nos mínimos detalhes no relatório feito sobre a cena da desova, lá na baixa do Morro dos Macacos, ele explica, de gravata solta no colarinho desabotoado e revólver na cinta. "É uma peça importante da investigação. Vai que alguma testemunha aparece dizendo que viu o carrinho na casa de fulano ou beltrano? Temos como comparar." E onde estaria o "transporte" neste momento? "Certamente na delegacia, que o encaminhará para nós. Aqui ele passará por exames periciais complementares e depois será guardado no Depósito de Evidências Criminais até o fim do processo judicial."

Toca pra delegacia. "Recolher o carrinho? Cê tá de brincadeira, parceiro? Ia enfiar onde o trambolho? Ficou por lá mesmo", informa um policial, muito gentil e sorridente, enquanto seu colega, esparramado na cadeira, lê Harry Potter e As Relíquias da Morte. Leu bastante, já passou da metade. Conta que a situação ficou mais tranquila desde a queda do helicóptero, abatido a tiro pelos bandidos no início da guerra no Macacos. "Antes a gente fazia uns 15, 20 R.O. (registro de ocorrência) por dia. Era muito roubo de transeunte, saidinha de banco tinha bastante, agora acalmou. Caiu pra sete, oito no máximo. Mas do carrinho eu não sei mesmo." Bom, desse nem adiantava perguntar o nome...

Tentemos alguma informação no sítio do abandono do cadáver - popularmente conhecido como "lugar da desova": Rua Luiz Barbosa, próximo ao número 65. Essa via passa pela Praça Barão de Drummond e termina no pé do Morro dos Macacos. Distante do mar e tomada por um casario antigo e meio maltratado, a região tem ares de cidadezinha do interior. No centro da praça, o flanelinha vai logo se afastando: "Não tô sabendo, não, dotô. Nem sou daqui. Moro em Madureira". Mais adiante, o frentista garante que o carrinho pertencia a um mendigo que catava sucata. Para a moça da banca de jornal, ele voltou para cima do morro e qualquer dia desce outra vez, com presunto novo dentro. Às vezes também usam carrinho de pedreiro e latão de lixo nesse tipo de serviço. Na lojinha de artigos de umbanda, a atendente ouviu dizer que "o rapaz era trabalhador, não era vagabundo, não". É ruim, hein!, duvida o borracheiro. "O que me contaram é que ele era da facção rival que invadiu o morro e ficou escondido na mata. Aí acharam, executaram e empurraram aqui pra baixo." Mas por que diabos nenhum irmão, primo, sobrinho, cunhado que fosse, apareceu para reconhecer o corpo no IML? Uma explicação do perito do Instituto Carlos Éboli: "Tem casos em que a família dá graças a Deus que o sujeito morreu. Em outros, sem dinheiro, ela prefere não reclamar o morto por não ter como pagar o funeral".

O enterro do um-três-quatro-vinte, praxe nessas situações, foi o Estado que bancou: cerca de R$ 500, contanto só transporte, serviço funerário e caixão. Na segunda-feira, dia 26, o pobre diabo entrou na kombi da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro e baixou no Cemitério de Santa Cruz, zona oeste - mas põe zona oeste nisso - da cidade, 58,7 quilômetros adiante. Ali, cartazes desbotados do prefeito Eduardo Paes asseguram que ainda se trata de Cidade Maravilhosa. Chega-se a Santa Cruz passando por localidades que muita gente só conhece de ouvir falar: Parada de Lucas, Deodoro, Realengo... O cemitério fica bem mais pra lá.

A administração do lugar está instalada numa sala abafada de paredes pintadas de cor de salmão. Lá fora, diante de um caixão de bebê e protegido da garoa sob uma lona marrom, um pastor evangélico diz para a família que "não precisa se conformar, basta aceitar a vontade do Senhor". Cá dentro há quatro máquinas de escrever, um relógio pendurado e um ventilador inútil. Dos quatro funcionários, três são idosos e parecem... bem... funcionários de cemitério. O mais jovem vem trazer o livro dos mortos do ano, um caderno grandalhão, meio ensebado e de capa preta. Na página 12, ele localizou o um-três-quatro-vinte, o que só foi possível devido ao código 134/20 e ao dia correto do enterro. Está assim anotado no livro: "Nome: homem"; "Nº da sepultura: 772"; "Tipo da sepultura: rasa".

O que é sepultura rasa? "Sete palmos, como manda a lei", resume o administrador do local, que pede para não dar as caras. Tanto melhor se forem sete palmos dele, um crioulo enorme, de barriga pronunciada e que sua sem parar. Ele afirma que em cemitério seu indigente é enterrado com dignidade. Tem direito a reza "das duas senhoras voluntárias da pastoral da criança", vai no mesmo caixão mais-ou-menos dos que têm família e recebe a mesma cruzinha de cimento que traz só o número do túmulo pintado de preto. Sem nome, sem foto, sem epitáfio. É a cruzinha e estamos conversados. A do um-três-quatro-vinte não tinha ficado pronta até a última quinta-feira. "É que tem entrado muita gente. Só hoje sepultamos quatro indigentes, todos dessa guerra do tráfico", conta o administrador. A produção local de cruzes estava parada no morto 712.

Na saída do campo santo, uma plaquinha avisa: "Sr. proprietário de túmulos, a SCM não se responsabiliza por objetos que possam gerar cobiça sobre os mesmos". Só não explica se em cima ou embaixo da terra. Em todo caso, atenção descarados desse Brasil varonil: "o homem do carrinho", o "isso aí é vagabundo", o "bandido merrrmo, traficante" encontra-se com os únicos pertences com os quais foi encontrado: bermuda azul e tênis preto. Quanto ao escapulário de cordão marrom, o administrador não tinha certeza.

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