DESMOND BOYLAN/REUTERS
DESMOND BOYLAN/REUTERS

Bandeira branca

Para analista, depois da reabertura das embaixadas, não há mais quem possa barrar a reaproximação entre Cuba e EUA

Entrevista com

Jon Lee Anderson

André de Oliveira, O Estado de S. Paulo

18 Julho 2015 | 16h00

Como se retoma uma relação interrompida há 54 anos? O primeiro passo, mais óbvio, é um aperto de mãos. O segundo é reconhecer que, para o bem ou para o mal, o mundo mudou. Continuar agindo como se o ano fosse 1961 não é solução para nada. Por isso, com relações diplomáticas retomadas desde o dia que já é conhecido por “17-D” - 17 de dezembro de 2014 - e com acordos prévios cumpridos, os presidentes Raúl Castro e Barack Obama prometeram para segunda-feira (20) a reabertura das embaixadas de Washington e Havana. Pela primeira vez, em mais de meio século, bandeiras cubana e americana tremularão nas capitais dos dois países.

Para o jornalista Jon Lee Anderson, biógrafo de Ernesto Che Guevara (1928-1967), ao se reaproximar dos EUA Castro busca melhorar o bem-estar material dos cubanos, estendendo a vida de seu sistema político. Obama, por sua vez, espera que a riqueza econômica que os norte-americanos levarão a Cuba possa fazer emergir uma nação mais democrática. As diferentes buscas, contudo, já não são um impedimento para o diálogo. Pelo contrário. Hoje, analisa Lee Anderson, a reaproximação entre os países pode até mesmo promover o azeitamento das relações dos EUA com outras nações americanas, como a Venezuela. “Obama herdou uma situação catastrófica de seu antecessor e transformou em seu métier a procura por maneiras de refrescar um ambiente político internacional superaquecido”, diz o jornalista.

Falando ao Aliás de Dorset, na Inglaterra, Lee Anderson - que já escreveu sobre algumas das principais figuras políticas do século 20 e mantém relação estreita com a América Latina desde que morou em Cuba de 1993 a 1995 - analisa os impactos da gradual abertura econômica de Cuba e aborda o momento atual da diplomacia dos EUA no mundo. Para ele, hoje, obviamente, o desejo de ter um iPhone fala mais alto para a população cubana do que os ideais de Che Guevara, mas ressalva que esse momento não pode ser visto como o fim do socialismo. “Ele vai prevalecer oficial e simbolicamente.”

Qual é a primeira imagem que ocorre ao senhor quando pensa no momento que Cuba está vivendo agora?

O mastro vazio que foi recentemente erguido em frente à Seção de Interesses dos EUA no Malecón, simbólica avenida beira-mar de Havana. Segunda-feira, se tudo correr como planejado, a bandeira norte-americana tremulará nele pela primeira vez em mais de meio século.

Esse momento representa “mais socialismo”, como quer Rául Castro, ou, ao contrário, o fim do socialismo?

Certamente não significa mais socialismo, mas tampouco a morte dele. Vamos lembrar que o Partido Comunista ainda detém o controle político do país e é improvável que isso mude em um futuro próximo. Se a abertura econômica e os dólares norte-americanos ajudarem a subsidiar o essencial do que são considerados os conceitos básicos do sistema socialista (educação primária, saúde e exército), então o socialismo vai prevalecer em Cuba, oficial e simbolicamente.

Então, os presidentes Raúl Castro e Barack Obama estão procurando coisas diferentes ao promoverem essa reaproximação?

Sim. Ao abraçar seus inimigos seculares e promover a abertura ao capitalismo, Raúl procura melhorar o bem-estar material de seus cidadãos e, assim, estender a vida de seu sistema político. Obama, por sua vez, espera que o afluxo de turistas norte-americanos e os investimentos e a riqueza econômica que eles levarão a Cuba acabem por corroer o sistema socialista, fazendo emergir uma nação mais democrática e politicamente livre.

O senhor tem observado que a abertura de Cuba deve levar o país para um modelo mais semelhante ao do Vietnã do que ao da China. Por quê?

São os próprios cubanos que mencionam o modelo vietnamita como mais próximo da sua maneira de pensar. Apesar do comunismo compartilhado, chineses e cubanos nunca tiveram uma relação próxima. Os cubanos eram aliados da União Soviética, não da China; e isso é especialmente importante para Raúl Castro, sempre próximo dos russos e suas tradições. Cuba também ajudou o Vietnã no início da guerra dos EUA e, desde então, tem mantido boas e estreitas relações. O modo como a China se abriu inteiramente e de forma brutal ao mercado, causando o aumento desenfreado da desigualdade social e a criação de uma classe de bilionários, deixou os Castros ainda mais distantes do modelo chinês. Além disso, a urbanização forçada da China, em detrimento da vida rural, também é algo que tem caracterizado esse modelo, enquanto, no Vietnã, a preservação da vida rural, por meio de cooperativas organizadas de forma mais rigorosa, é algo que chamou a atenção dos cubanos - vale a pena lembrar que a maior parte da população da ilha vive em contexto rural ou semiurbano.

Muito se falou sobre o financiamento brasileiro para reforma e ampliação do porto cubano de Mariel. Com esse novo quadro político, quais são as perspectivas reais de investimento em Cuba?

As oportunidades são potencialmente enormes. Cuba é um mercado largamente inexplorado em quase todos os sentidos e há perspectivas de negócios em todas as esferas: do setor imobiliário ao turismo, passando por pesca e agricultura, sem esquecer da biomédica e da tecnologia da informação. Além disso, a base da sociedade cubana é muito qualificada, o que é um atrativo potencial de talentos para mão de obra em uma série de indústrias.

Estamos vendo os primeiros passos para o fim do embargo econômico ao país?

Sim, eventualmente isso vai acontecer. Mas, como temos agora um período de campanha eleitoral nos EUA, qualquer coisa é possível. Pode ser que alguns dos candidatos politicamente conservadores, como Marco Rubio e Jeb Bush, enxerguem com interesse liderar uma oposição a esse projeto de lei e, dependendo do equilíbrio de poder no Congresso e no Senado, influenciem no resultado de uma votação.

E quais serão os efeitos imediatos em Cuba?

Tremendamente benéficos. As portas vão se abrir e, para se ter uma analogia comparável, basta olhar para os efeitos do acordo nuclear com o Irã e o fim das sanções econômicas.

No seu último artigo, o senhor relata que, pela primeira vez, viu desabrigados em Havana...

Sim, eu vi alguns moradores de rua em Cuba e essa tendência preocupante também coincide com o aparecimento de uma pequena burguesia, recém-endinheirada. Isso foi um choque para mim, porque nos dias de Fidel isso era impensável. No entanto, Cuba ainda hoje é o lugar com a menor desigualdade de renda no hemisfério ocidental.

E os cubanos-americanos perderam a capacidade de “vetar” Cuba?

Os cubano-americanos, em geral, e talvez em especial os marielitos (onda de cubanos que deixou o país em 1980 e se estabeleceu em Miami), estão vislumbrando a possibilidade de voltar à ilha como uma coisa viável. Acredito que a maior parte quer voltar, mas procurando manter algo de concreto nos EUA. Imaginando, por exemplo, que o Jeb Bush ganhe as eleições, acho que ele encontrará dificuldades para fazer o relógio voltar no tempo, já que até mesmo muitos republicanos estão enxergando o embargo como contraproducente. Além disso, os interesses empresariais também pesam como elemento para que se levante o embargo. Bush sabe disso e eu acredito que está usando Cuba apenas para ganhar vantagem na campanha pelos direitistas, mas sabendo que ele não seria capaz de seguir adiante com esse pensamento.

Em 2012, o senhor disse em uma entrevista que “se há alguma política para a América Latina no governo Obama, eu não vi”. O que mudou de lá para cá?

Em primeiro lugar, Obama foi reeleito, e isso significava que ele poderia tomar decisões de política externa sem ônus político para si. Em segundo, sondagens de opinião mostraram que a maioria dos cubano-americanos, que por muito tempo se opuseram a qualquer mudança do status quo da política americana para Cuba, agora apoiam uma restauração das relações. Obama pôde, assim, buscar uma nova política que lhe renderia elogios e encerraria um anacronismo histórico sem causar consequências políticas nefastas na Flórida, Estado decisivo para a candidata democrata à sua sucessão, Hillary Clinton.

A morte de Hugo Chávez também tem relação com essa reaproximação?

Sem dúvida, a morte dele apressou o processo. A partir do momento em que Chávez e Fidel assinaram o primeiro acordo de troca de petróleo por permuta, em 1999, a Venezuela se tornou um benfeitor econômico e um dos principais aliados políticos de Cuba. Depois da morte de Chávez - com a fraqueza de Maduro na presidência e o caos econômico do país -, ficou claro que o começo do fim dessa ajuda havia chegado. No entanto, eu acredito que a aproximação Cuba-EUA é uma inevitabilidade histórica. A Venezuela foi apenas um dos fatores que tornaram esse evento possível nesse ponto determinado do tempo.

Neste novo momento, Cuba pode ajudar a dissolver a tensão entre Venezuela e EUA?

Com certeza. Eu não tenho dúvidas, mesmo porque uma implosão da Venezuela não é interessante para ninguém. Aliás, por trás das cortinas esse provavelmente é um passo que já está sendo dado.

Depois de um momento também de tensões, quando uma visita oficial brasileira aos EUA foi cancelada em decorrência de denúncias de espionagem, o Brasil recebeu bastante atenção na visita recente da presidente...

Obama está certo em apontar o status crescente do Brasil como um player global - ele realmente já é um -, mesmo que ainda lhe falte uma política internacional original e identificável. Nesse ponto, o Brasil excedeu-se um pouco, tornando-se cada vez mais sobrecarregado por alguns de seus próprios problemas domésticos sistêmicos, e acabou esfriando sua atuação externa. Agora, o gesto de Obama está de acordo com a sua tendência de buscar potências regionais com as quais possa criar parcerias para ajudar os EUA a carregar o fardo americano tradicional de ser a única superpotência da região. Há aqui também uma analogia possível com a China - que boa parte do mundo vê como mais forte do que realmente é por conta de sua repentina riqueza e onipresença internacional. Os vizinhos latino-americanos do Brasil o veem corretamente como um gigante regional despertando. Antes, porém, o Brasil tem as mesmas questões internas para resolver - que variam de pobreza e criminalidade à carência de um estado de direito - para poder assumir um papel pleno no cenário global.

E não é só na América Latina que a diplomacia americana parece estar tentando esfriar as coisas. O senhor mesmo já citou o recente acordo nuclear com o Irã.

Obama herdou uma situação catastrófica de seu antecessor e transformou em seu métier a procura por maneiras de refrescar um ambiente político internacional superaquecido. Como líder de um país que tem um papel único na preservação da estabilidade internacional, Obama tem feito o que pode para aliviar as tensões. Ele tem um histórico de altos e baixos nisso, mas o progresso que fez com o Irã é um pivô potencial para uma futura estabilidade global, da mesma forma que, se a reaproximação for mal conduzida, poderá acarretar grandes catástrofes futuras.

Com certeza é um mundo bem diferente daquele que Che deixou em 1967. Como ele veria esse momento?

Che com certeza veria o mundo como um lugar muito mais complexo. Na América Latina, os pobres têm em grande parte se mudado do campo para favelas urbanas, o que representa um cenário demográfico totalmente diferente para insurgências; o narcotráfico e a cultura de gangues já se espalhou e domina uma grande parte desse mundo, suscitando um desafio adicional para os ideais que ele representava; e, por último, mas não menos importante, o comunismo era ideia global, sustentada por uma superpotência (URSS), e agora não é mais. A Rússia hoje é algo semelhante a um estado mafioso, dirigido por homens que se definem abertamente como “oligarcas”. O extremismo islâmico, desconhecido nos anos 60, agora domina tudo. A internet e todas as suas manifestações também não existiam. E assim por diante. Se Che fosse voltar de um sono profundo hoje, seria algo como a velha fábula de Rip van Winkle, em que um fazendeiro adormece em um tempo em que se saudava a monarquia e acorda, 20 anos depois, em um mundo em que já não se é prudente fazer isso.

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