Bardo para toda obra

Morto há 400 anos, o Cisne de Avon vem sendo usado por incautos para ensinar estratégia, liderança e outras papinhas corporativas

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

24 Abril 2016 | 06h00

William Shakespeare morreu há exatos 400 anos, mas seu fantasma, como o do pai de Hamlet, reaparece na cabeça de todos nós nas horas mais inesperadas. Domingo passado, eu o senti rondando a votação do impeachment, em Brasília. Não, não pensei no Iago de Otelo, lembrança óbvia, tão óbvia quanto seria a conspiração dos senadores romanos em Júlio César; pensei em Lady Macbeth.

Na primeira cena do quinto ato de Macbeth, sonambúlica e atormentada pelo regicídio que incitara o marido a cometer, Lady surta com a mancha de sangue de Duncan, o rei da Escócia assassinado, que não conseguiu limpar da mão ou do braço: “Sai, mancha maldita! Sai! Estou mandando!”, ordena em vão a rainha. Se o deputado Eduardo Cunha pode nos evocar a figura de Iago e entre a base do governo e os senadores romanos pode haver mais semelhanças do que supõe a vã filosofia (até tu, Temer?), Lady Macbeth não é quem vários de vocês, et pour cause, estão pensando, mas justamente aqueles que não puderam se livrar da presença do presidente da Câmara no comando do processo de impedimento. Lady Macbeth é a oposição e Cunha, a mancha maldita.

Shakespeare não nos abandona, o que é bom, e nós não o deixamos em paz, ora e vez alimentando certas polêmicas a respeito de suas obras, o que nem sempre é bom. À malograda controvérsia em torno dos “verdadeiros” autores de suas peças, a mais antiga e persistente das polêmicas, seguiu-se a do “conservadorismo” político do poeta.

Embora anacrônica (como aplicar o conceito de conservadorismo à era elizabetana?), ela não sai de cena há não sei quanto tempo. Há dois anos, Noah Berlatsky emplacou-a, com destaque, no site da revista The Atlantic. Veredicto: Shakespeare era conservador porque apoiava a nobreza, o direito divino monárquico e a hierarquia social estabelecida. A despeito da complexidade e nuanças de suas peças, também seria clara sua oposição aos radicais (ou rebeldes) do seu tempo. Os radicais da época eram os puritanos. Mais intolerantes e coercivos que os Tudor e Stewart, bem fez o bardo em não lhes dar colher de chá.

Entre os vários discordantes dessa tese a figura mais proeminente é o scholar britânico Kiernan Ryan. Ano passado, num livro de 160 páginas (Shakespeare’s Universality: Here’s Fine Revolution, no Kindle a US$ 14), o professor tenta desmontá-la, aplicando à obra shakesperiana um olhar novo, sem antolhos ideológicos, pinçando trechos das peças que no mínimo relativizam o truísmo segundo o qual o Cisne de Avon reverenciava em demasia a autoridade real, repelia mudanças sociais, era, em suma, um dramaturgo chapa-branca.

Alinhar-se ao status quo era condição indispensável a qualquer artista em qualquer corte, uma questão de sobrevivência. Horácio e Virgílio “serviram” ao imperador Augusto, Petrônio aturou Nero; ai de Shakespeare se ousasse afrontar Jaime I e concedesse aos puritanos maior e melhor espaço que o dado ao tolo Malvólio de Noite de Reis, de resto, vítima de preconceito de classe (Olivia, sua recolhida paixão, pertence a outro estrato social). Mesmo previamente censuradas, suas peças transgridem sutilmente aqui e ali, e ressaltam, segundo Ryan, a vocação dos humanos para viver de acordo com princípios de liberdade, igualdade e justiça, incompatíveis com a realidade daquele tempo.

Ricardo II, demasiado confiante em seu mandato divino e na impotência dos “homens terrenos” para depô-lo, afinal perde o trono, destino comum dos vários monarcas shakespearianos. Henrique V não se cansa de repetir que a guerra contra a França é justa e que Deus está a seu lado. Ou esteve, até deixá-lo sucumbir a uma disenteria nos campos de batalha franceses. Em piores condições morreu Ricardo III, sem conseguir trocar seu reino por um cavalo.

Vez por outra, um monarca vê a luz e reconhece sua insignificância. Sangue azul é uma lorota, admite o rei de França de Bem Está o que Bem Acaba. No Ato III de O Rei Lear, enquanto o soberano pai de Cordélia, Goneril e Regane lamenta que a pobreza tenha grassado em seu reino, o conde Gloster reclama do excesso de riqueza dos privilegiados e pleiteia, sem rebuços, uma sociedade mais justa. Caberia ao Gonzalo de A Tempestade dar os detalhes de tal sociedade, exagerando-os, naturalmente, pois é um utopista que sonha com uma república, livre de soberanos e toda sorte de desigualdades por eles mantidas.

Por certo não é esta a leitura que da peça faz o casal Kenneth e Carol Adelman, criadores e palestrantes de uma empresa, Movers & Shakespeares, especializada em técnicas de administração vitaminada com o teatro shakespeariano. A mais recente apropriação indébita do bardo é um MBA metido a besta, um motivacional cabeça para líderes empresariais e futuros CEOs, que já mereceu reportagem no Washington Post e reduz as tragédias de Shakespeare ao nível intelectual de uma planilha. Júlio César vira um estudo de caso sobre como assumir o controle de uma empresa e evitar que ela se afunde. O solilóquio dubitativo de Hamlet pode ajudar o empresário em botão a superar uma crise administrativa. “Fundir ou não fundir, eis a questão.” E por aí vai.

Kenneth nunca assistiu a uma peça de Shakespeare, Carol viu uma encenação de O Rei Lear, mas dormiu no meio. “Não somos pagos para ensinar Shakespeare, mas para ensinar liderança e estratégia”, ressalva Kenneth, calejado habitué, como sua mulher, dos principais think tanks conservadores americanos e europeus. Cobram US$ 28.000 por sua papinha corporativa. “Superflux!”, estrilaria o conde Gloster. Sob o olhar complacente do rei Lear.

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