Barganha, barganha, barganha

A médica Jandira Feghali é a mais nova evidência de como a pasta da Cultura virou reserva de cargos de consolação

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2008 | 21h22

Quando ouviam falar em cultura, Hermann Göring ameaçava puxar o revólver e Jeremy Prokosch, o talão de cheque. O segundo parafraseou o primeiro, substituindo o obscurantismo truculento pelo cala-boca mercantilista. O marechal nazista todos conhecem. Prokosch era o produtor cinematográfico interpretado por Jack Palance em O Desprezo, de Godard. Cínico, calculista e ganancioso, ninguém, exceto talvez Silvio Berlusconi, pensaria nele para ministro da Cultura. Nem ele, suponho, aceitaria o cargo, ainda que lhe concedessem os plenos poderes de que Joseph Goebells desfrutou no 3º Reich, onde a cultura, diga-se, sempre foi uma pasta de primeira grandeza. Pudera: na Alemanha de Hitler, mais até do que na Rússia de Stalin, cultura e propaganda do Estado eram uma coisa só.Desatrelada dessa e outras funções deletérias, a cultura - a cultura tout court - costuma ser a Gata Borralheira de todos os governos e administrações. Com ela ou em seu nome, governantes fazem apenas farol, dão festas e distribuem comendas. Cultura: o ministério supérfluo, a secretaria secundária, o lanterninha orçamentário, o ralo das vaidades, o picadeiro dos elefantes brancos. A verba destinada à Cultura no Rio este ano não ultrapassou 1,2% do orçamento total da prefeitura. Apesar do cinqüentenário da bossa nova, o maior produto cultural de exportação da cidade, e do centenário de morte de Machado de Assis, seu mais ilustre escritor.Há quem diga que quando ouve falar em cultura, Gilberto Gil ameaça puxar sua agenda de shows, e assim já procedia em seus tempos de ministro. "E Jandira Feghali?", perguntam-se os cariocas. Eu arriscaria dizer que ela ameaça puxar um bisturi, ou um estetoscópio. Nomeada para a Secretaria de Cultura do município do Rio de Janeiro pelo recém-eleito Eduardo Paes, Feghali é a mais nova evidência de como prefeitos, governadores e presidentes usam a pasta da Cultura para barganhar, como reserva de cargos de consolação.Agora sabemos que, quando ouve falar em cultura, Paes não pensa apenas em Fábio Jr., mas também na ex-secretária de Tecnologia de Niterói. Se também pensa na adesão maciça de intelectuais e da classe artística à candidatura de Fernando Gabeira, a escolha de Feghali toma ares de preocupante represália. Ela não é do ramo, e o fato de freqüentar muito o teatro e rodas de choro, tocar bateria no grupo Harmonia Enlouquece e já ter lido três vezes A Alma Encantadora das Ruas, de João do Rio, não a habilita a cuidar da cultura de uma cidade como o Rio. Médica, Feghali causaria menos apreensão à frente da Secretaria de Saúde do Rio. Mas sua atuação em favor de Paes, no segundo turno das eleições cariocas, não obstante fervorosa, afinal rendeu bem menos dividendos do que ela e seu partido (o PC do B) esperavam. Considerando-se as cobras e lagartos que ela disse a respeito do futuro alcaide do Rio, quando ainda disputava com ele a prefeitura, até que o prêmio de consolação foi de bom tamanho. Durante a campanha do primeiro turno, Feghali acusou Paes de mudar de partido como quem troca de roupa e de nada ter feito pelo turismo quando secretário de Esportes e Lazer. Mais graves foram as ofensas de Paes ao presidente Lula, durante a CPI dos Correios. E, se o presidente não só perdoou o candidato do governador Sérgio Cabral à sucessão de César Maia como lhe deu total apoio na reta final, por que o ex-secretário de Esportes e Lazer-que-nada-fez-pelo-turismo-do-Rio não podia ser também magnânimo com a quarta colocada na corrida prefeitoral? Já que nossa cultura está doente, talvez faça sentido entregá-la aos cuidados de uma médica, gracejou um desafeto do atual prefeito do Rio, tido por unanimidade como o pior da história da cidade. Cesar Maia deixou uma herança pesada para o seu sucessor. Quando ouve falar em cultura, Maia puxa um calendário de shows na orla marítima da zona sul do Rio. Para ele, cultura é música barulhenta perturbando o sossego de quem paga os IPTUs mais elevados do país e congestionando o trânsito das avenidas à beira-mar. Durante a campanha, Paes prometeu só promover shows nas praias "em casos extremos", com "a infra-estrutura necessária para manter a ordem e o fluxo de pessoas e veículos". O que vem a ser um evento musical de extrema importância ou necessidade? Caberá ao prefeito ou à secretária de Cultura decidir quais celebrações e artistas se qualificam para impor seus decibéis aos moradores de Copacabana, Ipanema e Leblon? Gabeira tinha a solução mais sensata para esse impasse: "Eventos de música devem ser realizados em lugares criados para eventos de música". Por essa e outras, 70,88% dos eleitores da zona sul votaram no candidato do PV. Dos abacaxis acumulados por Cesar Maia em década e meia de desídia administrativa, nada supera em gastos e pompa a Cidade da Música Roberto Marinho, na Barra da Tijuca, zona oeste da cidade, elefante branco cujo sustento Paes e sua secretária de Cultura terão de dividir com a iniciativa privada. Lá, ao menos, é um espaço musical fechado, sem evasão de sonoridade. Feghali pensa em transformar o faraônico templo musical num "centro de diversidade cultural", sem desalojar sua principal inquilina, a Orquestra Sinfônica Brasileira. Sem maior clareza (o que ela entende por diversidade cultural? Beethoven e Pixinguinha? Ou Franz Lehár e Ivete Sangalo?), a proposta significa pouco mais do que nada. Resta a esperança de que, se faltarem parceiros e patrocinadores, a Cidade da Música possa ser transformada num hospital municipal.

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