STEFAN ROUSSEAU/AP
STEFAN ROUSSEAU/AP

Bebamos à fraternidade!

Essa poderia ser a sugestão que o poeta escocês Robert Burns daria aos atuais conterrâneos depois de terminado o referendo sobre a independência

Ariel Dorfman, O Estado de S. Paulo

20 Setembro 2014 | 16h00


Aos que duvidam do poder que a literatura tem de influenciar dramaticamente acontecimentos políticos de grande magnitude, basta evocar hoje a sombra de Robert Burns, o imortal poeta escocês do século 18. Poderíamos nos aventurar a afirmar que, não fosse sua voz recorrente, imorredoura e sonora, a independência, que seus compatriotas acabam de negar por uma margem de 10 pontos, poderia ter tido um rechaço muito maior. É até mesmo possível que, sem seus poemas, não se realizasse referendo nenhum.

Burns goza de ubiquidade em sua terra natal, ainda expressando as modulações, sonhos e língua de cada homem e mulher da Escócia. Com minha mulher, Angélica, ouvi suas sanções entoadas em tabernas de Glasgow a Inverness, e seus versos de amor tão profanos saídos dos lábios de amigos em Edimburgo e St. Andrews. Reconhecemos nos Highlands os rochedos e os campos, as colinas e os rostos batidos pelo vento que ele imortalizou. Mas Burns está presente sobretudo nas cadências coloquiais e ritmos da própria fala na qual conversam hoje os habitantes da Escócia, velhos e jovens, apaixonados de todo gênero, gente de todas as classes sociais. Ao agitar a alma com as memórias do heroico Robert the Bruce (rei da Escócia) e as flores amarelas das montanhas do norte, ao compor odes ao haggis, essa comida impossível de digerir para os estrangeiros, assim como ao ratinho prestes a perder seu ninho e lar, Burns ajudou a cimentar em seus concidadãos o orgulho forjado pela dura história que lhes foi legada e pela terra acidentada com a qual abençoaram cada amanhecer, criando o manancial de uma identidade nacional e antecipando talvez o dia em que sua estirpe iria decidir se desejava romper os laços com a grande união britânica dentro da qual o vate nasceu, em 1759.

Talvez por ser rebelde e admirador da Revolução Francesa, o bardo tivesse simpatizado com as aspirações nacionalistas fomentadas por um grupo insigne de poetas do século 19, cujos versos fizeram parte essencial da busca da soberania em seus respectivos países: Sandor Petofi na Hungria, Adam Mickiewicz na Polônia, José Martí em Cuba, Bonaventura Carles Aribau na Catalunha, Nguyen Dinh Chieu no Vietnã.

Talvez por ter nascido naquela época turbulenta, ele também tivesse exigido, de forma messiânica e profética, independência total. Contudo, o que podemos afirmar com certeza é que nada havia de chauvinista nem de míope em sua visão de humanidade. Seus poemas foram traduzidos em inúmeros idiomas e venerados por muitos que, como eu, não têm nem uma gota de sangue escocês nas veias. E, evidentemente, Burns amava as estrofes e os autores e os romances ingleses, e escrevia e falava essa língua com a maior perfeição e elegância, sendo ainda hoje, paradoxalmente, parte fundamental dos cânones da literatura britânica.

Apesar disso, é igualmente certo que exortava seus conterrâneos a ouvir “os selvagens eflúvios do coração”, the wild effusions of the heart, conselho que inúmeros deles seguiram com entusiasmo. A maioria dos observadores do referendo sugere que os que votaram pelo sim o fizeram de fato com a plenitude do coração, o coração que animou Robert Burns em seus versos tão poderosos e repletos de amor pelo gênio poético de sua pátria.

Agora que esse confronto eleitoral acabou e começarão outras contendas bem menos gratas, agora que se exige um olhar racional e objetivo e o concurso de mãos que sabem curar, Burns ainda tem uma última mensagem para ambos os lados de seu país amargamente dividido. Posso imaginá-lo cantando sua poesia mais famosa, Auld Lang Syne (os velhos tempos). (O poema virou canção folclórica cantada na despedida do ano velho e, por extensão em despedidas em geral). Nessa combinação de dialeto escocês e inglês Burns fala dos velhos tempos que se foram e é provável, se prestarmos atenção, que esteja nos dizendo, de além da morte, que, em honra desses tempos que não voltarão, os “auld lang syne”, seria o momento de tomar um trago pela fraternidade. “Minhas amigas e meus amigos do século 21, tomem um trago de gentileza agora. Não se esqueçam do copo solidário.”


ARIEL DORFMAN, ESCRITOR CHILENO, É AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE ENTRE SUEÑOS Y TRAIDORES: UN STRIP-TEASE DEL EXÍLIO (SEIX BARRAL)

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