Belvedere

Belvedere

Christian Carvalho Cruz, O Estado de S. Paulo

27 Dezembro 2014 | 16h00

:::MUNDO REAL::: Esta ficção foi baseada nos seguintes fatos de 2014: A maior, mais rica e mais populosa cidade do País enfrentou uma grave crise de água em 2014. Os reservatórios do Sistema Cantareira, que abastecem 8 milhões de pessoas, baixaram ao mínimo de 6,7% de sua capacidade em dezembro, contando duas cotas do ‘volume morto’. O governo do Estado anunciou planos de desconto para quem economizasse e sugeriu multa aos gastões. Mas negou o racionamento, apesar dos diversos relatos de cortes de água. 

O bom de subir aqui é o fedor. Quer dizer, a falta dele. Porque o fedor pode ser tudo, estar em tudo, mandar em tudo, mas não passa do quinto andar. Subir agora é fugir. E depois do que aconteceu não há mais promessas, há só este rádio velho e monótono, testemunha de um delírio. Quem ficou sabe que amanhã vai ser pior e depois pior e pior. Então eu subo para sentir o que resta do cheiro do ar, que, talvez por hábito ou decisão de negar, até parece limpo. Não chega a doer nem há algo superior nisso. Eu venho, sento e cheiro as recordações que o vento me traz. Pelas narinas me dou a lembrança de quando a cidade de futuro inviável era só uma coisa pros desgraçados que não tinham grana. Me dou o engano de não ter que pensar no quanto vou resistir sem água e sem alguém. Eu cheiro e pronto.

Nos dias seguintes à Retirada, com os mercados destruídos e os cachorros extintos, eu subia também para enxergar melhor as capivaras no Rio Pinheiros, àquela altura um charco coalhado de poças espessas, uma pocilga inacreditavelmente pior. Pequenas aqui do alto, as capivaras pareciam baratas trombando contra as touceiras. Eu esperava elas irem dormir na margem e descia correndo os 23 andares pelas escadas. Na primeira vez, fui de peixeira. Imaginava que uma facada bem dada no lombo, de cima pra baixo, resolveria. Mas cheguei esgotado e assustado do outro lado, pela descida, pelo medo e talvez por ter prendido o fôlego enquanto saltava aquele lodo negro. Aí acho que bati fraco, ou a capivara era grande demais, e ela correu esganiçando. Os filhotes permaneceram encolhidos, aterrorizados. Não tive coragem.

Isso faz um tempão. Agora eu levo uma chave de fenda curta, de uns quatro dedos de comprimento. Se der sorte de estar tudo bem quieto consigo imobilizar o bicho antes que ele desperte, forçando meu joelho sobre seu pescoço. Os gritos são apavorantes, podem ser ouvidos nas ruínas da USP. Ele sabe perfeitamente o que está se passando. Mas tento ser rápido pra me livrar logo daquilo, porque se você é um sentimentaloide nessa hora a capivara custa muito a morrer. Então levanto a pata esquerda dela e furo perto do sovaco. A chave de fenda vai direto no coração. Não posso dizer que seja simples. Você precisa ter foco. Se sai pra comer pensando se depois vai conseguir beber, esquece. Uma coisa de cada vez. O ruim é que demora pra capivara parar de arfar. Eu deito na terra e aguardo. Enquanto olho o céu, penso no que e se vou beber. Geralmente penso em água, porque faz tempo que parei de sonhar alto. Hoje ainda não avistei nenhuma capivara. Vai ver acabaram, como os cachorros.

A Retirada completou sete anos. Ou oito, não sei ao certo. Dizem que na véspera o Dono do Prédio subiu aqui e cheirou também. Ele era um grande safado, mas gostava de parecer afável e generoso e cheio de viço. Autoludibriação safada, enfim. No auge da firma, ele vinha e cheirava como todo mundo naquela época: sem se dar conta. O ar mais ou menos puro entrava suave, azeitava os pulmões e saía sem valor. Era apenas isso, um treco bem idiota. Só que daquela vez foi calculado, porque o Dono do Prédio tinha contatos na Administração, sabia das coisas. Podiam insistir quanto quisessem na lorota de que a água não ia acabar, mas, dane-se, não era um discurso pra gente como ele. Por isso ele resolveu subir pra uma cheirada safada de adeus.

Com os andares todos vazios, o Dono do Prédio atravessou a sala, largou o paletó no sofá e alcançou o terraço deslizando a porta de vidro. Deu quatro tragadas numa cigarrilha eletrônica que depois guardou no estojo e cheirou longamente o ar debruçado no parapeito. Era mesmo uma despedida, ele repetiu tudo igualzinho. Apertou a vista e lá adiante só conseguiu distinguir uma terra ressecada cobrindo as pistas do Jockey. Isso o deixou fulo e emotivo. Que tipo de idiota permitiu que as coisas chegassem aonde chegaram? Quando ainda chovia e serenava, a visão matinal da grama úmida tinha sido tipo um êxtase pra ele. Trazia à mente os garanhões encerados, o aroma da bosta, tudo ali perto, bastava esticar os sentidos praquilo lhe causar uma suave ereção. Mas agora acabaram com o mundo florido dele, os cretinos. Debruçado no parapeito de novo, lá embaixo ele viu a Marginal, que começava então a entupir para sempre, com as pessoas desligando os motores dos carros, fechando os vidros e carregando suas tralhas. Não havia tumulto nem barulho. Tudo era ordem como uma cigarrilha eletrônica guardada no estojo. Por isso deu pra ouvir claramente quando o Dono do Prédio cuspiu lá de cima e gritou:

- Seus meeeerdas!

Ele partiu naquela mesma tarde, na primeira leva, no helicóptero do Grande Funcionário. Fizeram uma enorme cerimônia no Campo de Marte e tudo. Venham celebrar o Dia do Adeus com o Grande Funcionário, convidava a cada parada nas estações o sistema de som do metrô. Era gente pra burro. Tinha algodão-doce, pudemos tomar cerveja, racionada a meia lata por homem crente, e disseram que naquela ocasião não precisávamos ser contritos. O sol estava de lascar. E enfileiradas ao longo da pista inteira, milhares de crianças suavam sob as minifardas da PM enquanto balançavam bandeirinhas e declamavam o Pai-Nosso de um jeito meio feroz. Fora isso, os espíritos estavam desarmados e nos sentíamos perfeitamente capazes de enfrentar o que estava por vir, porque, conforme nos repetiram por vinte e tantos anos, acreditávamos: o destino nunca vira as costas pros paulistas.

Mas assim que o enxame de helicópteros dos figurões se desprendeu do chão houve um início de alvoroço. Alguém jurou ter visto o Grande Funcionário dentro da aeronave mostrando o dedo médio pro povo anestesiado dando tchau. Não tenho certeza. Acho que ele só fez o sinal da cruz.

Tudo ficaria mais ou menos normal por uns dois ou três meses ainda. Na verdade ficou melhor, porque deixaram a gente se abastecer com os restos das caixas d’água nas casas, escritórios e comércios abandonados. E, cara, todos aqueles shoppings finalmente serviram pra alguma coisa: eles tinham dezenas e dezenas de caixas d’água, das bem grandes, cada um.

Quem se incumbiu de organizar o grosso da evacuação foi o Secretário, dos homens da Administração talvez o único sujeito correto e tal. Ele era jovem, tinha disposição e talento pra acalmar as pessoas. Perto do Grande Funcionário, um camarada meio traiçoeiro com cara de nada, o Secretário possuía até certa personalidade, digamos interesse pelo bem dos outros.

Foi ideia dele juntar os noias no Vale do Anhangabaú e cercar com um alambrado. Num plebiscito feito às pressas, nós votamos que eles não deveriam ser evacuados, pra que perder tempo com isso? Então deram um lugar pra eles evacuarem e fazerem tudo o mais quanto suportassem.

Uma cena extraordinária, num domingo de manhã. Os alambrados tinham sido instalados durante a semana e finalmente mandaram o Denarc despejar lá dentro 450 quilos de pedra e pasta base. Os noias foram chegando como formigas no açúcar. Vinham de toda parte. Da São João, da Praça do Correio, da 23 de Maio, pareciam infinitos. De cima do Viaduto do Chá, o Secretário acompanhou tudo movendo os braços como se regesse a Osesp e foi só o último noia entrar e passarem o cadeado que o fedor começou. Uma emanação podre se apossou do Centro e, conforme os noias iam se comendo e ferrando com tudo no passar dos dias, subiu para Higienópolis, atingiu o Pacaembu, se juntou aos restos dos rios, dos córregos e em pouquíssimo tempo era tudo, estava em tudo, mandando em tudo.

Foi no meio disso que o Secretário evacuou o resto da população. O fedor facilitou o trabalho, numa logística fantástica de desejos impossíveis. Porque quase todo mundo queria ir pro Rio, mas lá se recusaram a nos receber, nem mesmo nos morros, assim como em quase todas as cidades do interior, tirando Bom Jesus dos Perdões. Ali o Secretário conseguiu encaixar uns favelados e as mulheres grávidas. Os cidadãos que tinham pelo menos um MBA ele despachou pra Guaribas, no Piauí, onde ainda abundava água de cisterna, de xiquexique, know-how em enterrar crianças e também residentes a fim de dividir - em troca de pequenas fortunas, claro, porque generosidade e burrice são coisas diferentes.

O primeiro sinal de que a coisa ia degringolar foi o boato de que tinham atacado a Velha da Bica, no Tremembé. Ela era uma dessas benzedeiras de tirar quebranto com rezas e uma tesoura enferrujada e devia ter uns 80 anos. Quando o volume morto morreu definitivamente e a água parou de molhar as torneiras, a Velha continuou a dar de beber a quem batesse na porta dela. Só que como o Tremembé era longe pra burro, pouca gente deu atenção. Chegaram a pensar que a Velha tivesse uma fonte no quintal. Mas a verdade é que ela simplesmente fazia a água brotar nos canos. Parece que acordava no meio da noite e misturando palavras meio italianas e tupis se enrolava no avental de lavar roupa e ia até o tanque. Os murmúrios aumentavam em velocidade e volume até virarem uma cantoria aborrecida. Então, sem que a Velha abrisse os olhos ou fizesse qualquer movimento mais brusco, a água jorrava.

Nunca acreditei nessas besteiras, mas resolvi bater na porta da Velha depois de ouvir água escorrendo lá dentro. Era uma tarde quente e eu já tinha caminhado uns dez quilômetros vindo do Largo do Arouche, onde disseram que aconteceria uma distribuição meio secreta de água.

Uma cascata filhadamãe essa história do Arouche. No endereço da tal distribuição existia um casarão caindo aos pedaços com quatro cômodos unidos por uma saleta. As janelas estavam fechadas e uma luz colorida intermitente vinha de um canto que eu não conseguia enxergar totalmente. Aquilo não estava bom. Assim que pisei no parquê gasto da saleta quase caí pra trás: uns casais pelados, só de meias, batiam a cabeça freneticamente na parede no ritmo de uma canção sertaneja sobre um meteoro. Eu quis dar logo o fora, mas ainda pude distinguir na penumbra uma espécie de altar com um retrato gigante daquele cara raivoso da internet. A cabeça triangular dele e os olhinhos pequenos resplandeciam dentro da moldura, um negócio cafona feito com lírios de plásticos entrelaçados a um pisca-pisca de Natal. Mais um monte de velas, os incensos, a plaquinha com o nome da congregação: A.I.R.A. 

Jesus Cristo, pra onde é que estávamos indo?

Horas mais tarde, bati na porta da Velha. Bati porque ouvi água escorrendo lá dentro, já disse. E depois do que eu tinha visto no Arouche me sentia atordoado, com sede, exausto de tanto andar. Acho que isso pode ter traído a minha percepção das coisas e me conduzido àquela estupidez. A Velha apareceu no portão enxugando as mãos no avental e teimou em me recusar água, não tinha água, não tinha água, que eu picasse a mula dali. Só que eu ouvia a água escorrendo lá dentro e quando me dei conta já estava com o joelho no pescoço da Velha, estocando embaixo do sovaco. Ela arfou, e eu deitei no tapete pra aguardar. Depois fui abrir as torneiras, uma a uma, o chuveiro, a caixa da privada. A mesma secura de todo lugar. Só que o som da água continuava vivo nos meus ouvidos, que porra era aquela?

Então eu vi o rádio em cima do filtro de barro na cozinha. A droga do rádio que desde a Retirada, por ordem do Grande Funcionário, só transmitia barulhos de cachoeira, chuva correndo na sarjeta, torneiras pingando, descarga, a subida da maré. Abracei a droga do rádio e o lambi com todo o meu rancor. Depois o trouxe pra cima. Aqui agora eu espero. Bebo cada gota desse rio que nunca foi.

NASCEU EM SÃO PAULO, É JORNALISTA, REPÓRTER E EDITOR-ASSISTENTE DO ALIÁS E AUTOR DE ENTRETANTO FOI ASSIM QUE ACONTECEU (ARQUIPÉLAGO EDITORIAL)

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